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Artista usa o crochê para transformar muros e falar de aborto

02/03/2016 16:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:35 -02
Dolorez Crochez

Quando o crochê encontra a política e surge uma nova forma de dar vazão aos pensamentos por meio de instalações artísticas. Talvez assim possa ser descrito o ateliê Dolorez Crochez, da designer Karen Bazzeo.

O que era um hobby de infância para Bazzeo virou coisa séria e tomou as ruas, ou melhor, os muros de São Paulo e outras cidades por meio de intervenções, colorindo, transformando e trazendo reflexões para o cinza urbano.

"Aprendi crochê quando criança e, depois de um tempo em São Paulo, senti a necessidade de um hobby. Voltei a crochetar e aos poucos fui percebendo que podia utilizar essa técnica para me expressar, me comunicar com as pessoas e interagir com a sociedade de alguma maneira."

Sobre os projetos iniciais, a designer comenta a importância do diálogo com o público:

"O primeiro trabalho do Dolorez Crochez foi na rua. Comecei com pequenas intervenções e fui evoluindo com algumas parcerias. Quando fiz o projeto de graffiti com os grafiteiros Felipe Primat e Julio Falaman, passei bastante tempo nas calçadas, fazendo a instalação do trabalho e interagindo com as pessoas. A partir daí, meu gosto pelas instalações na cidade cresceu e comecei a espalhar frases, desenhos, coisas que me inspiravam de alguma maneira e que queria colocar para fora. Hoje em dia, a maioria dos meus trabalhos está relacionada à ocupação de espaços públicos, arte de guerrilha e empoderamento."

Para quem vive na capital paulista, talvez algumas destas frases não sejam estranhas: "Onde teu medo dói?" ou "Quis te pescar mas caí na tua rede."

Apesar da delicadeza dos crochês, muito da inspiração de Karen vem de matérias mais brutas, como coisas que a revoltam. Para tratar disso, ela escolhe sempre a versão mais bonita que tenha.

"Ultimamente, coisas que me revoltam também têm servido de inspiração. Nesses caso, eu tento não me expressar com raiva, e sim, de maneira positiva, justamente negando o que fazemos muitas vezes por impulso. Infelizmente, nós vivemos numa sociedade onde é cultural agir de forma agressiva e violenta, insultar para nos defender. Então eu tento fazer de modo oposto, mostrar o que acho importante de maneira positiva, para que as pessoas vejam que há outras maneiras de defesa, deixando o ego e a raiva de lado, fazendo surgir uma coisa maior do que essas que revoltam."

Bazzeo cita como referência, a artista Olek, que faz trabalhos em Nova York. "Mas também me inspiro em ilustrações, músicas, poesias, etc."

Para além das intervenções, o ateliê promove oficinas que unem o ensino da técnica do crochê com a prática de intervenções urbanas com os participantes.

Há também rodas de conversa, em que tratam de assuntos como a ocupação de espaço público, o resgate do artesanato, o crochê como arte contemporânea e o empoderamento feminino.

"Acredito que essa vivência provoca nos participantes a sensação de apropriação e torna-os mais pertencentes ao espaço ocupado", compartilha Bazzeo.

  • Dolorez Crochez
    O aborto foi um dos temas escolhidos para o crochê de Karen Bazzeo, que mora em São Paulo
  • Lucas Hirai
    Imagem de obra mesclando crochê e grafite feita sobre muro em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo
  • Lucas Hirai
    "O primeiro trabalho do Dolorez Crochez foi na rua. Comecei com pequenas intervenções e fui evoluindo com algumas parcerias", explica Bazzeo
  • Lucas Hirai
    "Quando fiz o projeto de graffiti com os grafiteiros Felipe Primat e Julio Falaman, passei bastante tempo nas calçadas, fazendo a instalação do trabalho e interagindo com as pessoas."
  • Lucas Hirai
    O crochê era um hobby para Bazzeo, que hoje se dedica ao ateliê Dolorez Crochez
  • Lucas Hirai
    Maresia é uma instalação feita na Ladeira do Castro, no bairro da Lapa, no Rio De Janeiro (RJ). O objetivo era revitalizar o local pela arte
  • Lucas Hirai
    O trabalho todo teve aproximadamente 5 metros de extensão e 3 de altura
  • Lucas Hirai
    Bazzeo escolheu como tema o "Mar, metade de minha alma é feita de maresia", inspirado na poesia de Sophia de Melo, Mar
  • Lucas Hirai
    O projeto marcou a parceria de Bazzeo com a carioca Carolê Marques, do #meninarendeira
  • Lucas Hirai
    Ao ouvir uma versão de Maria Bethânia para a música “Memórias do mar”, Bazzeo se interessou pelo trecho “Mar, metade de minha alma é feita de maresia”. Ao pesquisar, encontrou a poesia da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, que dedicou boa parte de sua obra ao mar
  • Dolorez Crochez
    O projeto Sereia foi inspirado na música "Ciranda para Janaína", de Kiko Dinucci. O crochê foi instalado no Arco do Telles, Rio de Janeiro (RJ)
  • Dolorez Crochez
    Flor foi instalado no Largo da Batata, em São Paulo
  • Dolorez Crochez
    O projeto foi idealizado para a Virada Sustentável 2015
  • Renata Ottoni
    O Largo da Batata, na zona oeste de São Paulo, tem outra obra de Bazzeo: a instalação Visceral
  • Renata Ottoni
    "Onde teu medo dói?" foi inspirado na música "A Baladeira", de Alessandra Leão e Jonathan Silva

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