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Uma conversa franca com Jamil Chade, o repórter brasileiro que ajudou a desvendar a corrupção na Fifa

25/02/2016 23:45 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

joseph blatter money

"Algumas informações eu tinha desde 2006, mas não tinha os documentos." Parece até a trama de Spotlight: Segredos Revelados, concorrente ao prêmio de Melhor Filme no Oscar deste ano. O jornalismo pede tempo. E Jamil Chade conseguiu esperar para ver os fatos se desenrolarem. Foram quase dez anos para o que ouviu de fontes tomar o mundo num estouro: a Fifa, a entidade máxima do futebol, é um antro de corruptos. Chuva de dólares sobre Joseph Blatter e uma porção de cartolas na mira do FBI foram as cerejas no bolo.

Correspondente na Europa desde 2000, o repórter do jornal Estado de S. Paulo conta no livro Política, Propina e Futebol como tudo está interligado.

É um sistema complexo o do leva e traz no esporte mais popular do planeta, conforme Chade revela nesta entrevista ao HuffPost Brasil. Segue a íntegra da conversa nas próximas linhas:

HuffPost Brasil: Como a corrupção mudou nestes 16 anos que você trabalha como correspondente acompanhando o futebol e a Fifa de perto?

Jamil Chade: A mudança é que essa corrupção passou a ser completamente generalizada. Está em qualquer tipo de acordo na Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), que comanda a Libertadores, a Copa Sul-Americana e outros torneios.

O melhor exemplo é a própria distribuição de propina dentro da América do Sul. Durante muito tempo ela foi limitada entre o presidente da Conmebol e o Brasil e a Argentina. Uma empresa que quisesse entrar no marketing de um torneio como Libertadores ou Copa Sul-Americana precisava pagar ao presidente da Conmebol, ao presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e à AFA (Asociación del Fútbol Argentino).

A forma mais comum era esse dinheiro ir para bancos da Suíça e paraísos fiscais, garantindo que aquele dirigente conseguiria uma parte por fora para aceitar um acordo comercial. Isso perdurou pelos anos 90 inteiros. Com o começo dos anos 2000, se generalizou. Na América do Sul, no começo da década, os presidentes das federações menores fazem uma revolta: "olha, queremos uma parte disso [da propina nos acordos comerciais]".

Parecido com o Congresso brasileiro...

Totalmente. Os nanicos pedindo a sua parte. Quais são esses dirigentes? Da Colômbia, Equador, Venezuela, Chile, Bolívia. E deixam claro que não têm o mesmo peso que Brasil e Argentina, mas eles querem participar. Começa a haver uma tabela de preços de propina. Por exemplo: se o presidente da Conmebol, da Argentina e do Brasil levavam US$ 3 milhões, os países intermediários ganhavam US$ 1,5 milhão e o restante ganhava entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão. Isso se transforma em algo praticamente institucional.

Eugenio Figueiredo deu um depoimento para Justiça do Uruguai que confirmava essa institucionalização. Para entrar no futebol, esse tipo de ação era considerado "normal". É a normalização da corrupção.


jamil chade

O repórter Jamil Chade em audiência da CPI do Futebol, em 2015



Perdemos os três últimos presidentes da CBF para a corrupção. Todos eles, José Maria Marin, Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero já eram tidos como corruptos pela população antes da confirmação dos fatos. Agora temos um ex-militar que recebe indenização como anistiado da ditadura. Quanto tempo vai levar para que a CBF se estruture como empresa e passe a trabalhar pelo futebol?

2015 não foi o ano do colapso. Não veio a virada. Foi o indício de um processo. As prisões em Zurique não são o fim de um sistema. As pessoas criaram um sistema de 20, 30 anos de clientelismo. Você não desfaz isso da noite para o dia. Em segundo lugar, quem ficou na CBF tenta manter o status quo. É isso que vemos na CBF. Com um presidente que não pode sair do Brasil - por indiciamento nos EUA -, a estrutura cria uma continuidade. Essas pessoas estão ali para promover o futebol brasileiro e administrar o esporte ou para garantir o próprio poder? Ficou muito claro com a nomeação do coronel que a prioridade da CBF é ela mesma. É um momento que escancara para a sociedade que essa escolha não tem legitimidade. Quanto vai levar para mudar? Boa pergunta... Não vai ser da noite para o dia.

Durante muitos anos, a CBF financiou políticos. Esse é o momento em que ela está pegando o talão de cheque, vendo o canhoto para saber para quem ela entregou dinheiro. Ela vai cobrar uma retribuição.

O torcedor brasileiro já se deu conta de que foi enganado durante anos? Amistosos sem sentido, convocações combinadas com empresários, a relação Nike-CBF e tantos outros problemas... O torcedor médio já se deu conta de tudo isso?

Ele começa entender. O torcedor tinha a percepção de que as coisas aconteciam, mas não entendia que isso afetasse as competições. Agora o que estamos descobrindo é que essa corrupção tem ligação direta. O futebol de alguma forma sofre porque o dinheiro que deveria estar indo para categorias de base e para manter os craques no Brasil está na conta secreta de alguns cartolas no exterior.

Nelson Rodrigues dizia que criticar cartola é algo tão velho quanto o futebol. Já nos anos 1950 era popular falar sobre isso, de batizados até enterros. Essa sempre foi uma realidade. A diferença é que o torcedor sabe que foi fraudado. O primeiro grande teste vão ser os Jogos Olímpicos. Vamos ver quem é que vai torcer de fato...


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Contra a corrupção, a camisa da corrupta CBF



Como você vê, justamente neste período em que a corrupção na CBF se escancara, a camisa amarela tornar-se um "símbolo contra a corrupção"?

Isso é de um paradoxo sem tamanho. Mas tem uma coisa. A camisa brasileira, no exterior, continua sendo um símbolo. Não, ela não representa nossa complexidade, o nosso País. Mas vou dar um exemplo: meses atrás, a ONU liberou a entrada com roupas tradicionais dos países, o que não é liberado. A delegação brasileira, os diplomatas brasileiros, foram com a camisa brasileira.

Agora, protestar com aquela camisa é de um paradoxo que chega a ser descarado. Essa camisa representa a honestidade? Peraí, ela é justamente o fruto de um contrato em que um senhor ficou com US$ 20 milhões na Suíça. A camisa representa a corrupção. Agora, não usar a camisa não é a resposta. Ela não é uma camisa da CBF e da Nike. Ela é pública. O protesto mais legítimo que poderia acontecer seria sair às ruas com a camisa falsificada. Aí sim. Você mostra que a camisa oficial não é digna. A sua (falsificada) não. Ela é só amarela.

Tem esperanças na CPI? Você chegou a depor aqui...

Sozinha, não. Não vai ser o golpe de misericórdia. Inclusive pelo fato de a CPI ser formada por pessoas como Fernando Collor de Melo. Mas ela tem um papel fundamental na pressão pela transparência. Quando ela pede dados sigilosos bancários, dados legais, ela consegue. Não vai ter nenhuma entidade sozinha que vai desmontar a CBF. O torcedor sozinho não vai, os jogadores não vão, os clubes não vão. Nem a CPI. Mas se tiver o Bom Senso, o torcedor virar as costas para a camisa da CBF, CPI e a imprensa continuar buscando a verdade sobre o que representa de fato a CBF, aí pode ser.

É possível prever o que vem pela frente nas investigações do FBI? Dá para acreditar que Blatter, Marin, Teixeira ou algum desses peixes grandes vão parar na cadeia?

Não terminou porque o FBI está com uma série de documentos referentes ao João Havelange [brasileiro que foi presidente da Fifa durante décadas]. Eles vão querer reabrir casos. O processo vai continuar. Se isso vai ser transformado em prisão, é possível que não. Então será que vale a pena? A Justiça prevê a pena, mas tem um outro papel que são as medidas punitivas, as multas... O aspecto da história que pode ser mais importante que a prisão do Marin ou do Blatter é retirar o papel de chefe de Estado. Os cartolas eram recebidos, se colocavam como pessoas de uma importância absurda. O Blatter, de fato, achava que iria ganhar o Nobel da Paz. A queda dele é o fim de um status. E ao saberem que todos estão sendo observados, talvez a próxima geração não repita os mesmos padrões.

Tem uma história boa... Estive em Roma para uma cobertura sobre o papa Francisco. E quem estava lá visitando o papa? Joseph Blatter. Um espetáculo. Duas coberturas que você faz e elas se cruzam! Blatter saiu da audiência e os repórteres foram para a entrevista. Aí perguntamos sobre a conversa. O Blatter disse: "perguntei para o papa quantos fiéis a Igreja tem. Mais ou menos um bilhão, respondeu o papa. Aí eu disse para ele: tenho muito mais que isso".

Assim que estourou a investigação, surgiram milhares de teorias da conspiração sobre o que levava o FBI a entrar numa história dessas. Já dá para entender melhor os interesses dos EUA?

Eu tenho dito o seguinte: tenho dificuldade de acreditar na história que o Blatter conta de que tudo é um complô dos americanos contra a Fifa. Por quê? Vários dos investigados são justamente interessados americanos. A Nike está sendo investigada. Não é a Adidas. É a Nike, do Oregon. O Putin abriria um golpe contra alguém para atingir a Gazprom? Não. Mas é muito mais complexo do que dizer que os americanos partiram para investigar a Fifa como revanche por terem perdido a Copa. Os patrocinadores estão sofrendo. Quem são os patrocinadores? Visa, McDonald's e Coca-Cola. São símbolos dos Estados Unidos. Se fosse complô, haja explicação. Não faz sentido. Mas tem um aspecto que é real: se os americanos tivessem levado a Copa de 2022, isso não estaria acontecendo. O impacto interno para eles mesmos seria muito maior. Existia uma avenida aberta para os americanos. Eles não tinham nenhum compromisso com a Fifa. É muito mais circunstancial o que levou o FBI à investigação. Mas os crimes existiam. Os crimes existiam.

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