LGBT

Exonerado, ex-secretário do Rio nega homofobia e pede 'levante do povo de Deus contra imoralidade'

18/02/2016 11:02 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02
Reprodução/Facebook

O deputado federal Ezequiel Teixeira (PMB-RJ) deve reassumir nos próximos dias a sua cadeira na Câmara dos Deputados. No fim da noite desta quarta-feira (17), ele – que também é pastor evangélico – foi exonerado do cargo de secretário estadual de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro, após declarar acreditar na ‘cura gay’.

O comunicado do governo do Rio foi curto e definiu também quem assumirá a pasta no lugar de Teixeira.

“O governador Luiz Fernando Pezão exonerou, nesta quarta-feira (17/2), o secretário Ezequiel Teixeira da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos. O cargo será ocupado pelo atual secretário de Governo, Paulo Melo. O atual chefe de Gabinete do governador, Affonso Monnerat, ocupará a Secretaria de Governo. As mudanças serão publicadas no Diário Oficial desta quinta-feira (18/2)”.

O pastor ocupava o cargo desde 15 de dezembro, e em dois meses tentou desmontar o projeto Rio Sem Homofobia, subordinado à pasta e responsável por implementar projetos de combate ao preconceito e promover a cidadania dos homossexuais. Desde que o pastor assumiu a pasta, foram fechados quatro centros de assistência à população homossexual no Estado e demitidos 78 funcionários que atuavam no programa.

Horas antes da exoneração, Teixeira negou ser homofóbico e criticou o que chamou de “preconceito” contra a sua convicção religiosa. “Não sou antigay, ao contrário: trabalhei a minha vida toda pela inclusão. É necessário respeitar a verdade dos fatos. Reitero: minha crença, em nenhum momento, vai prejudicar as ações da pasta. Me parece que não interessa a verdade e o esforço de um trabalho sério e, sim, a perseguição a um pastor (...). Direitos humanos devem ser para todos!”.

Rechaço, com total veemência, todas as recentes notícias publicadas pela imprensa que me acusam de homofobia e de estar...

Publicado por Ezequiel Teixeira em Quarta, 17 de fevereiro de 2016


A explicação não convenceu o governador do Rio. “Não é o meu posicionamento, eu sou totalmente contra a posição dele. Vou tomar providências. Coloco aqui a minha insatisfação com as declarações dele”, disse Pezão, em declarações reproduzidas pelo G1. Segundo o jornal O Dia, uma manobra costurada pelo deputado federal e líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani (RJ), foi o que fez o pastor ser nomeado para a pasta.

Nesta quinta-feira, Teixeira insistiu que está "sendo vítima de intolerância religiosa". "Não vão me calar, vou até o fim combatendo o bom combate. Chegou a hora do povo de Deus se levantar contra toda essa imoralidade", escreveu.

Manifestei a minha convicção pessoal e agora estou sendo vítima de intolerância religiosa. A liberdade religiosa é um...

Publicado por Ezequiel Teixeira em Quinta, 18 de fevereiro de 2016


Apesar de não admitir ser homofóbico, Teixeira sempre combateu abertamente a comunidade LGBT em sua atuação na Câmara. “Ela fere a Constituição no que tange o exercício do poder familiar (...) que é decisão do casal. Não pode o Estado interferir”, disse o pastor. ao pedir a suspensão da Resolução nº 12 de 2015, que trata ações afirmativas em favor de travestis e transexuais, permitindo entre outras coisas o uso do nome social e os banheiros “de acordo com a identidade de gênero de cada sujeito”.

Em outro momento, ele garantiu que defende a família e já classificou como “balela” as tentativas de garantir direitos aos LGBTs...

... E, para consolidar os seus conceitos, nunca escondeu ser um entusiasta da redução da maioridade penal – na oportunidade, saudou com exaltação os colegas Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Eduardo Bolsonaro (PSC-SP).

Por essas e outras, não espanta que a exoneração tenha sido comemorada. “A saída dele é muito boa”, disse ao jornal O Dia a ex-presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, Margarida Pressburger. Ela foi uma das primeiras a serem demitidas por Teixeira. “Era muito difícil para nós que trabalhamos com a temática de direitos humanos, ter como chefe da pasta uma pessoa assumidamente homofóbica. Nada iria poder avançar com alguém com esse perfil”, emendou o coordenador do Rio Sem Homofobia, Cláudio Nascimento.

Defensoria quer evitar desmonte

A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro solicitou informações aos órgãos públicos responsáveis pelo fechamento de centros de Cidadania LGBT e da redução no atendimento do Disque Cidadania LGBT. Por meio de nota pública divulgada nesta quarta-feira, a Defensoria informou que analisa eventuais medidas extrajudiciais ou judiciais “para garantir que não haja retrocesso na proteção aos direitos fundamentais da população de gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis (LGBT)”.

Criado em 2007, o programa Rio Sem Homofobia, da Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, anunciou a redução, no dia 5 do Disque Cidadania LGBT. O atendimento no programa, que era 24 horas, agora será feito de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h. O serviço era prestado em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a suspensão se deu por causa da não renovação do contrato anual com a instituição.

O Rio Sem Homofobia e outros programas da Secretaria de Assistência Social dispensaram funcionários após a não renovação de contratos de trabalho anuais. Segundo a assessoria de imprensa do programa, dos 85 funcionários, apenas 20 continuam em seus cargos.

(Com Agência Brasil e Estadão Conteúdo)

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