ENTRETENIMENTO
12/02/2016 15:53 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Mark Ruffalo sobre abusos sexuais na Igreja Católica: 'Estão dando pequenos passos, mas não foi remediado'

Jonathan Short/Invision/AP
Mark Ruffalo poses for photographers at the UK premiere of Spotlight at a central London venue, London, Wednesday, Jan. 20, 2016. (Photo by Jonathan Short/Invision/AP)

Mark Ruffalo parece tão cordial como é possível para uma estrela de primeira grandeza de Hollywood -- educado, sorridente, disposto a conversar plena e abertamente sobre vários tópicos --, mas seu coração bate forte pela justiça social, e isso fica muito claro.

Sobre o tema do seu filme indicado ao Oscar, Spotlight – Segredos Revelados (Spotlight, 2015), a história real de como uma equipe de jornalistas Boston Globe denunciou o encobrimento de casos de pedofilia na Igreja Católica, Mark diz que sua fúria ao ler o roteiro se baseou em suas antigas suspeitas em relação às práticas nas dioceses, remontando à sua infância em Wisconsin.

"Há muito tempo, sentia que a Igreja que eu vivenciava não observava os ensinamentos sobre os quais eu lia. Aconteceu bem cedo", diz ele ao HuffPost UK.

mark ruffalo

Ator foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por Spotlight

"Quando saí da escola católica, tinha 10 ou 11 anos, e aí tudo começou a ficar claro. Crianças percebem as coisas, se forem interessadas e curiosas. Via coisas que não se encaixavam com o que me ensinavam sobre Jesus. Não rolava para mim."

Apesar de seu crescente cinismo em relação ao papel da igreja em sua pequena comunidade, Mark diz que aqueles primeiros ensinamentos o motivaram a fazer um filme como Spotlight – “é um paradoxo, eu sei”, diz ele, sorrindo.

No longa dirigido por Tom McCarthy, Mark é um dos integrantes do pequeno grupo de jornalistas incansáveis que trabalharam por quase um ano para descobrir quem eram os responsáveis por acobertar os abusos cometidos pela igreja católica em Boston e em outras partes do Estados Unidos. Ele interpreta Mike Rezendes, um repórter que trabalha para o mesmo jornal até hoje. Mike disse ao HuffPost UK que aquele período foi o mais intenso e aterrador de sua carreira.

mark ruffalo e mike rezendes

Ruffalo com o jornalista Mike Rezendes, cujo papel ele interpreta no filme

"Que o Boston Globe tenha sido parte da história, que eles também tenham ignorado a questão” foi o que mais chocou, disse o ator. “Não é o que você quer pensar sobre a mídia, pois ela tem um papel muito importante na maneira como a justiça é distribuída no mundo."

E Mark continua inquieto com a reação da igreja em relação ao escândalo. Ele diria que o problema foi remediado?

“Estão dando pequenos passos, mas não foi remediado”, diz ele. “Só algumas dioceses divulgaram listas dos padres predadores. Outro dia, a diocese de Seattle anunciou uma lista de 77 padres que molestaram centenas de crianças.”

A busca por justiça é um dos grandes motivadores de Mark, mesmo que o público pense no Hulk antes de vários outros papeis seus, incluindo dois que renderam indicações ao Oscar, em Minhas Mães e Meu Pai (2010) e Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo (2014).

Ele diz que questão da justiça sempre está presente. “Ela é importante para mim. Não é a lente ou o filtro que uso para escolher tudo, mas ela toca algumas coisas. Às vezes é só o prazer de fazer algo que nunca fiz antes, um novo desafio pessoal.”

spolight

Spotlight já ganhou vários prêmios pela história dos jornalistas que revelam abusos da igreja

Autodeclarado "branco, privilegiado, homem, indicado ao Oscar", Mark deu uma resposta contemplativa e perturbada para a pergunta se ele iria à cerimônia do Oscar este ano. Você pode ler o que ele pensa a respeito neste texto.

Mas não é a primeira vez que ele arrisca o pescoço quando se trata de se pronunciar em público. Em sua viagem a Londres, ele iria participar de um vídeo da ONG Friends of the Earth, falando sobre a questão da exploração de gás natural por fraturamento hidráulico, um dos temas sobre o qual ele se interessa.

“Já passamos por isso, há 500 estudos diferentes que mostram os impactos negativos no ar, na água, na comida. Virou um movimento internacional. Gosto de pensar que estamos vencendo essa batalha.”

Energizado com os compromissos de proteção ambiental acordados na cúpula de Paris, Mark segue esperançoso numa solução global para o problema. “Temos tecnologias viáveis prontas para adoção, que vão criar mais empregos. Temos de dar alternativas, ou então teremos negação.

A mídia mainstream não dá destaque aos que não são ouvidos

Mas agora mostramos que as alternativas existem, que teremos mais energias independentes, que os países vão ser mais independentes, que vai haver alívio nos conflitos do Oriente Médio, porque não vamos mais mandar petrodólares para lá. Quase todo o conflito que vemos no mundo hoje é baseado em interesses geopolíticos.”

Essa curiosidade vem dos tempos em que Mark estudava com Stella Adler, onde ele aprendeu que isso “era parte da responsabilidade do artista, e também o que meu pai me ensinou sobre comunidade”.

Mas será que os atores deveriam se pronunciar sobre esses temas? É uma obrigação moral, por causa do privilégio? Eles são qualificados? Eis a opinião de Mark Ruffalo...

“Goste ou não, as vozes dos atores ecoam na cultura. As pessoas olham para eles, procuram atitudes, certo e errado, e hoje a mídia mainstream não dá destaque aos que não são ouvidos.”

"Você não ouve as pessoas de Bangladesh que moram em terrenos de quatro metros que tinham 100 metros. Então, como artista, tento jogar os holofotes naqueles que não costumamos ouvir."

"Para cada cem pessoas que vão ver um filme dos Vingadores, se cinco, duas, não importa, se mobilizarem, se sentirem encorajadas, estamos atingindo esse senso de possibilidade. Que criamos o mundo que queremos. Que não somos vítimas do mundo, que não somos impotentes, que o sistema não foi criado de um jeito que não temos como resolver as coisas que nos incomodam, que temos voz", diz.

"Quero que as pessoas se deem conta dessa possibilidade, porque acho que elas se sentem desesperançadas, e espero que, ao ver um ator se pronunciar, elas se sintam encorajadas."

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.

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