COMPORTAMENTO

As notificações do meu celular tomaram conta da minha vida. Por isso, decidi apagá-las

10/02/2016 19:52 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

notificações_notificações

Esta história faz parte de uma série de 10 artigos em que os redatores do HuffPost concordaram em um experimento para melhorar a saúde e diminuir o estresse no trabalho. Também faz parte da iniciativa mensal Work Well ("trabalhar bem", em português) que foca em criar um ambiente de trabalho próspero e bem-sucedido.

Notificações: você não consegue viver com elas, mas você também não consegue viver sem elas. Pelo menos, eu pensava assim.

O Huffington Post abraça hábitos saudáveis dentro e fora do escritório e por isso, durante a semana #WorkWell, eu decidi viver uma vida basicamente livre das notificações do meu smartphone. A razão é bem simples: eu chefio a cobertura de tecnologia do HuffPost, então estou sempre pensando em como os aparelhos influenciam as nossas vidas.

E apesar de tentar cortar todos os aplicativos que são irritantes, eu recebo ainda muitas notificações.

Pior, eu recebo todas essas notificações em aparelhos diferentes. Eu tenho um smartphone pessoal, um outro para o trabalho e um tablet que eu uso rotineiramente para assistir vídeos e ler comics.

Nós usamos o Slack no escritório então eu recebo todos aqueles pop-ups e apitinhos no meu computador quando os colegas de trabalho precisam de alguma coisa.

E embora eu basicamente tenha largado os wearables como o Apple Watch na minha vida pessoal, eu frequentemente testo aparelhos novos e repletos de notificações por causa do trabalho. Um estudo descobriu ano passado que só ouvir essas notificações podem acabar com o seu foco.

É um castigo imposto por mim mesma. Meus gerentes não esperam que eu fique disponível as 24 horas e 7 dias por semana. Os amigos podem esperar até quando eu possa responder as mensagens de texto. Não existe absolutamente nenhum motivo para que eu veja que alguém "gostou" dos meus tuites quando estou a caminho do escritório de manhã.

É por isso que eu lancei o desafio de parar com isso.

REGRAS

Ter que configurar todas as notificações em todos os aplicativos e aparelhos parecia uma chatice, principalmente porque eu baixo (e deleto) novos com frequência. Então, eu não fiz dessa forma.

Em vez disso, optei por usar a função "Não Disturbe" o tempo todo. É basicamente uma forma de silenciar as notificações e desviar os barulhinhos das notificações. É supostamente usado no cinema, no jantar ou quando você está tentando dormir ou falar com a sua namorada. Tanto meu Samsung Galaxy S6 quando meu iPhone 6S têm essa funcionalidade -- e o seu telefone provavelmente também tem.

Por uma semana, eu deixei essa função ligada constantemente e, sempre que possível, as telas estavam longe do meu alcance. Normalmente, eu tenho os meus dois telefones em cima da mesa próximos ao meu computador: toda vez que eles faziam um barulho, eu via de imediato e respondia quando necessário. (Geralmente não é necessário responder nesse exato momento, é claro!)

É basicamente isso: uma semana de "não disturbe" e sem telas piscando. Se eu quisesse checar as minhas notificações, eu tinha que propositalmente pegar os meus telefones e checar. Sem barulhos para mensagens ou atualizações do Slack. A estratégia não é tão "pura" quanto desabilitar manualmente todas as notificações, mas fez o serviço.


not disturb

Sem notificações



PREVISÕES

Antes de fazer esse experimento eu escrevi alguns pensamentos de como eu esperava que fosse. Aqui estão:

Estou extremamente preocupada com isso, mas não sei bem explicar o porquê. Eu não concordo com a ideia de que as pessoas devam estar disponíveis 100 por cento, mas pensar que poderia perder algo importante no meu celular – simplesmente porque as minhas notificações estão desligadas – me deixa ansiosa. (Dito isso, admito que eu já sou normalmente bem ansiosa!)

Eu acho que provavelmente vou passar boa parte do tempo sem checar o meu telefone, e quando perceber que as notificações podem estar acumulando vou entrar em pânico e olhar o telefone.

Mas talvez eu tenho uma visão exagerada da minha própria importância e talvez eu realmente não perca nada!

No fim, eu perdi sim algumas coisas. Mas será que realmente importa? De certa forma, essa era a questão.


importância

Será que todas as notificações são realmente importantes?



DIÁRIO

Dia 1

O primeiro dia foi o mais difícil. Apagar as notificações do celular não é uma enorme façanha de coragem, mas deu a impressão de estar abandonando os canais de comunicação. Eu fiquei tão nervosa em pensar que poderia perder algo vindo de minha família e amigos que enviei um email para alguns de meus melhores aliados – aqueles com quem eu falo diariamente.


mensagem



Boa parte das pessoas que contatei nem sequer respondeu meu email, então tudo estava indo bem.

Nas primeiras horas eu definitivamente peguei bastante o meu telefone para ver o que estava acontecendo. Geralmente, não era nada importante.

Dia 3

Sim, eu perdi algumas mensagens de trabalho. Isso parecia inevitável, até mesmo antes de começar o desafio, e aconteceu. Parte do meu trabalho é dar minha opinião sobre matérias e acompanhar as notícias. Certo dia, em torno das 7h30, uma colega me perguntou, através do Slack, se ela poderia escrever algo para a seção de tecnologia.

Eu só fui ver o meu telefone de trabalho uma hora mais tarde, então a pergunta de Nadya ficou sem resposta.


notificações perdidas

Desculpe, Nadya



Normalmente, eu ouviria meu telefone zumbindo enquanto preparava um café em casa ou tentando decidir qual meia vestir de manhã. No entanto, o mais extraordinário é que o mundo continuou dando voltas. Minha colega continuou com sua rotina e me respondeu cordialmente quando eu finalmente pude responder umas 8h30 e, de alguma forma, o planeta não explodiu por causa disso.

Dia 5

Parece bem óbvio que não ser perturbada por notificações de trabalho fosse algo realmente agradável. O que eu não esperava é que seria tão agradável viver sem notificações em casa, quando eu estava fora do expediente.

Nós cedemos um tempo para "relaxar" de nossos aparelhos. Eu gosto de ler novelas, assistir filmes, jogar vídeo games – e é realmente bem difícil fazer tudo isso com o seu telefone pirado o tempo todo. De novo, eu não sou uma pessoa tão notavelmente popular, mas tenho amigos, um noivo e uma mãe que gostam de enviar mensagens. Sou ativa no Twitter e no Facebook, então eu recebo notificações dessas plataformas.

Esse é comportamento relativamente normal que imagino muitos donos de smartphone se identifiquem.

Ficar sem notificações me permite focar muito mais eficientemente em qualquer atividade de prazer que eu esteja fazendo naquele momento. Eu vou ser sincera com vocês: eu tenho tentando terminar o livro Purity há uns três meses e meio. Não é nem tão longo assim!

Mas eu tenho uma tendência extraordinária para a distração. Conseguir ficar sentada e ler sem ter os telefones emitindo sons o tempo todo foi bem incrível. Eu até acendi velas!

Embora eu não tenha terminado o livro durante o desafio, eu cheguei até a página final logo depois.


livros

É mais fácil se concentrar na leitura quando seu telefone não está constantemente exigindo sua atenção. Duh.



PRINCIPAIS CONCLUSÕES

Este experimento me lembra um pouco a experiência que tive algumas vezes quando era criança. Minha mãe – uma mulher de negócios bem trabalhadora – finalmente conseguia sentar no sofá de casa e ler o jornal Chicago Tribune e o telefone começava a ligar. Não existe uma descrição do som de exasperação. Ela deixava o jornal cair com força no seu colo, levava a sua cabeça para trás, suspirando tão alto que a impressão era de pedras estarem sendo trituradas.

"Eu vou deixar que a secretária eletrônica atenda!”, gritava.

E daí ela ficava sentada ouvindo o telefone tocar várias vezes até que a secretária eletrônica atendesse. A gravação dizia -- "Olá, você ligou para os Bereses..." – a secretária bipava, e então nós ouvíamos alguém deixando uma mensagem de 30 segundos. Isso acontecia inúmeras vezes.

O problema não são as notificações: é a falta de atenção.

As crianças são incrivelmente sortudas de terem nascido na era dos smartphones. Telefones que tocam em uma tecnologia de secretárias eletrônicas interrompiam mil vezes mais do que as notificações dos novos aparelhos de celular e você não tinha a opção de ficar de fora.

Claro, você poderia desconectar o aparelho, mas então você realmente poderia ter problemas caso houvesse alguma emergência, pois na época ninguém tinha celulares.

Em outras palavras, o problema não são as notificações: é a falta de atenção. Às vezes vale a pena deixar o seu telefone apitando eternamente quando ele quer dizer algo importante. No geral, não é nada.

Minha experiência me ensinou a ficar um pouco mais ciente de como identificar essas situações. Por esse motivo e nenhum outro, eu recomendo que façam o seu próprio experimento com suas notificações.

E DEPOIS?

Uma semana após o experimento eu voltei às notificações. Eu gosto muito de saber o que está acontecendo e poder enviar mensagens aos meus amigos e responder assim que possível. É meio tonto, mas eu considero isso como quase uma responsabilidade.

Eu também tenho a responsabilidade comigo mesma e com as pessoas com quem eu decido passar meu tempo. Tudo isso é tão óbvio, pois assim que você consegue parar de pensar em qualquer uma dessas coisas, você entende imediatamente que permitir que essas pequenas distrações comandem a sua vida é um absurdo. Mas antes de ler este artigo, quando foi a última vez que você parou para pensar nisso?

Na grande maioria das vezes o nosso trabalho pode esperar. O Snapchat pode esperar. Se não for um bebê, prestes a nascer, então pode esperar. Mas o que está bem ali na sua frente – um livro e filme com o potencial de transformar sua vida, seu amigo que não vai ficar sempre disponível – não deveria. Deu certo para mim.

(Tradução: Simone Palma)

LEIA MAIS:

- 15 formas práticas de encontrar o seu 'zen' no trabalho

- Monitorei cada momento da minha vida com um Apple Watch... E fiquei maluca

- Internet e redes sociais são 'dom de Deus' se usadas sabiamente, diz papa Francisco

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: