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A explicação do governo mexicano para o desaparecimento dos 43 estudantes simplesmente não pode ser verdade, dizem peritos

10/02/2016 15:35 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Os corpos dos 43 estudantes mexicanos desaparecidos não foram incinerados num lixão da cidade de Cocula, como afirma o governo do presidente Enrique Peña Nieto desde novembro de 2014, segundo uma perícia independente apresentada na terça-feira (9) na Cidade do México.

O estudo, realizado pela Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), aponta mais buracos na versão amplamente desacreditada do governo mexicano a respeito do desaparecimento dos estudantes na cidade de Iguala – um evento que gerou um movimento internacional de protestos contra a violência e a impunidade no país.

mexico

Parentes dos 43 estudantes seguram cartazes com fotos dos desaparecidos durante entrevista coletiva em 9 de fevereiro, quando a Equipe Argentina de Antropologia Forense apresentou seu relatório. As conclusões contradizem as explicações do governo mexicano.

O ex-ministro da Justiça do país Jesús Murillo Karam disse em novembro de 2014 que as autoridades haviam determinado que os estudantes foram sequestrados pela polícia local, que os entregou para o cartel de traficantes Guerreros Unidos. O governo disse que os membros do cartel levaram os estudantes para um lixão na cidade próxima de Cocula, onde eles teriam sido executados, e seus corpos, incinerados.

Mas o relatório da equipe argentina contradiz elementos chave dessa versão.

Não há danos suficientes na vegetação do lixão de Cocula para sustentar a afirmação de que ali houve um fogo grande o suficiente para queimar 43 corpos. Embora haja sinais de danos provocados por fogo, alguns já existiam antes de 26 de setembro de 2014, quando os estudantes foram sequestrados, segundo imagens de satélite.

“É hora de começar a procurar os estudantes em outros lugares”, disse a diretora da EAAF, Mercedes Doretti, segundo a BBC.

Fragmentos de dentes recuperados no local mostram diferentes estágios de danos causados pelo fogo. Mas, se todos os corpos tivessem sido incinerados de uma vez, como dizem as autoridades, os ossos encontrados próximos uns dos outros teriam padrões de queimadura mais consistentes, diz o relatório da EAAF.

As evidências balísticas também contradizem a versão oficial. A equipe argentina recuperou balas disparadas por cerca de 39 armas diferentes, a maioria de armas grandes, como rifles. As pessoas que, segundo o governo, confessaram ter matado os estudantes, porém, disseram em seus testemunhos que usaram pistolas.

“Há uma clara contradição entre as armas que os suspeitos dizem ter usado e as evidências balísticas encontradas no local”, diz o relatório.

Há muitas questões em relação à validade das confissões dos supostos assassinos, pois pelo menos quatro deles mostram sinais de tortura. O Ministério da Justiça reconheceu em pelo menos uma instância que um dos supostos assassinos confessos tinha sinais de tortura depois de ser interrogado pela polícia. Apesar disso, o ministério certificou a confissão e deu prosseguimento ao caso.

Os peritos também fizeram duras críticas a uma visita ao local do crime por parte de funcionários do ministério sem o acompanhamento da equipe argentina. Havia um acordo de que as investigações seriam realizadas em parceria. No dia em questão, os investigadores do governo encontraram mais de 40 cápsulas de balas, mas a equipe argentina questionou a autenticidade delas, afirmando que elas foram recolhidas em uma área que já tinha sido examinada, segundo o site mexicano Animal Político.

O governo mexicano confirmou o recebimento do relatório da EAAF e disse que planeja realizar uma nova perícia no local, segundo a The Associated Press.

O relatório dos peritos argentinos é a mais recente refutação das explicações do governo sobre o crime. Em setembro, um painel de especialistas montado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos também concluiu que as evidências contradizem a afirmação do governo de que os corpos dos estudantes foram incinerados no lixão de Cocula.

O governo Peña Nieto já prendeu mais de cem pessoas ligadas ao caso, mas nenhuma delas foi condenada. Suspeitas de tortura recaem sobre a investigação.

Depois da divulgação da perícia argentina, José Vivanco, diretor das Américas da Human Rights Watch, disse que a explicação do governo mexicano é uma “ficção”.

“O México precisa não só de uma investigação sobre onde estão os estudantes desaparecidos, mas também uma investigação das autoridades que produziram uma versão sem provas do que aconteceu, incluindo o ex-ministro Jesús Murillo Karam”, disse Vivanco num comunicado. “As autoridades envolvidas têm de responder por seu papel na perpetuação da impunidade.”

Leia o relatório completo aqui:

Resumen Ejecutivo del Caso Ayotzinapa

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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