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9 perguntas importantes sobre o vírus zika respondidas

06/02/2016 10:24 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

alice vitória gomes bezerra que tem microcefalia

Tudo que você precisa saber sobre o vírus zika.

Há muitas coisas que não sabemos sobre o vírus da zica, doença transmitida por um mosquito e que poderá contaminar três a quatro milhões de pessoas antes de a epidemia acabar, segundo a Organização Mundial de Saúde.

Especialistas suspeitam que a zica possa ser responsável pelo nascimento de milhares de bebês com defeitos congênitos e por um aumento de desordens neurológicas. Mas vai levar algum tempo para termos respostas claras sobre se e como o vírus de fato causa esses problemas.

Na segunda-feira a OMS declarou que o aumento nos casos desses defeitos de nascença na Polinésia Francesa e no Brasil, além de sua possível ligação com o vírus zika, constituem uma emergência internacional em saúde pública.

A designação, que a OMS até agora aplicou a apenas três outros surtos de doenças, levará recursos globais a serem aplicados para ajudar a pesquisar o vírus e sua possível ligação com a microcefalia, um defeito congênito, e desordens neurológicas como a síndrome Guillian-Barre.

A declaração de emergência internacional em saúde pública também vai ajudar a acelerar as pesquisas com vistas à criação de instrumentos de diagnóstico rápido, vacinas e curas.

Segundo a OMS, estão em curso estudos complexos e de longo prazo para avaliar o vírus. Enquanto isso, veja abaixo o que sabemos sobre o zika e sua potencial ligação causal com essas condições graves.

1. O que é o vírus zika?

uma ilustração do vírus zika

O vírus zika é uma doença que pode produzir sintomas brandos, como febre, irritação cutânea, conjuntivite e dor nas articulações. Na realidade, a doença é tão branda que pesquisadores estimam que quatro em cada cinco pessoas infectadas pelo vírus nem sequer tomam conhecimento disso, e as pessoas que sentem os sintomas os apresentam por apenas dois a sete dias.

O zika é uma espécie de flavivírus, ou seja, guarda parentesco estreito com doenças como chicungunha, dengue e febre amarela. Ele é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, também transmissor dos outros flavivírus.

O vírus recebeu o nome da floresta Zika, em Uganda, onde ele primeiro foi isolado de um macaco reso em 1947.

Alguns casos de zika surgiram na África e partes da Ásia, mas os pesquisadores a consideravam uma doença obscura até 2013, quando ela causou um surto grande de zika na Polinésia Francesa.

Onze por cento da população buscou assistência médica para cuidar dos sintomas. Em 2015 a doença começou a se espalhar rapidamente pelo Brasil, onde se estima que mais de 1 milhão de pessoas já tenham contraído o vírus.

2. Como uma pessoa pode contrair o vírus?

aedes aegypti

Por picadas de mosquito.

A zika é uma doença transmitida por mosquitos. Ou seja, se um mosquito pica uma pessoa infectada pelo vírus zika e então pica outra pessoa, a segunda pessoa pode contrair a doença.

O fato de que a zika parece coincidor com um aumento acentuado do número de bebês com microcefalia nascidos no Brasil sugere que as gestantes possam transmitir o vírus a seus fetos.

E há algumas evidências de laboratório que confirmam essa hipótese: traços do vírus foram identificados em amostras do líquido amniótico de duas grávidas da Paraíba cujos fetos tinham recebido o diagnóstico de microcefalia através de ecografias, como divulgou em dezembro a Organização Panamericana de Saúde. Traços de vírus zika também foram encontrados no sangue de um bebê microcefálico que morreu pouco depois de nascer.

Também há alguns estudos preliminares que sugerem que o vírus zika possa ser transmitido sexualmente. Um artigo de 2011 descreveu como um marido que viajou pelo Senegal, onde contraiu o vírus zika, voltou para casa no Colorado.

Ali ele parece ter transmitido o vírus por via sexual à sua mulher, que não viajou com ele, diz o NYT. Em 2013, cientistas encontraram traços do vírus no sêmen de um homem da Polinésia francesa, apenas de não haver outros traços do vírus em seu sangue.

Não obstante esses estudos de caso, a Dra. Anne Schuchat, vice-diretora principal dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), destacou em coletiva de imprensa em 28 de janeiro que os mosquitos são o principal modo de transmissão do vírus zika.

“As informações científicas de que dispomos até hoje são claras: o vírus zika é transmitido às pessoas principalmente pela picada de um mosquito infectado”, ela disse. Schuchat também observou que o vírus passa pouco tempo no fluxo sanguíneo das pessoas. No caso da maioria das pessoas, ele desaparece de seu sangue em cerca de uma semana.

3. Por que todo o mundo tem tanto medo do vírus zika?

dra e bebê com microcefalia

A fisioterapeuta Isana Santana trata Ruan Henrique dos Santos, que tem microcefalia.

Durante o surto de 2013 na Polinésia Francesa, as autoridades de saúde locais observaram que o surto coincidiu com um aumento de 20 vezes na síndrome de Guillian-Barre, uma desordem neurológica em que o sistema imunológico do organismo ataca seus próprios nervos.

A síndrome pode resultar em formigamento nas extremidades, fraqueza muscular e paralisia temporária. A maioria das pessoas se recupera por completo, mas em alguns casos raros a síndrome pode provocar a morte.

Mas foi apenas em 2015, durante o surto de zika no Brasil, que cientistas vincularam o surto à microcefalia, um defeito congênito grave. A microcefalia é o que acontece quando um bebê nasce com cabeça anormalmente pequena, possivelmente porque o cérebro não cresceu corretamente no útero.

O defeito de nascença pode resultar em complicações que duram toda a vida, como deficiência intelectual, desordens de desenvolvimento e convulsões.

Entre 2010 e 2014 houve uma média de 156 casos por ano de microcefalia no Brasil. Mas mais de 4.000 casos foram registrados no país entre outubro de 2015 e janeiro de 2016, embora 462 dos diagnósticos iniciais tenham sido descartados, segundo uma atualização das informações divulgada no mês passado.

4. Como posso me proteger contra o vírus da zika?

Infelizmente, não existe vacina ou cura do vírus zika.

O CDC acha provável que ocorram algumas transmissões locais do vírus zika nos Estados Unidos. A OMS prevê que o vírus chegue a todos os países das Américas menos Canadá e Chile, que não são ambientes propícios para o tipo de mosquito que transmite a doença.

Mas é importante lembrar que um surto de zika nos EUA provavelmente será limitado e de curta duração, não sendo um problema que deva preocupar a maioria dos americanos. De modo geral, se você não está em nenhum dos países latino-americanos ou caribenhos onde está ocorrendo transmissão do zika, você não corre o perigo de ser picado por mosquitos transmissores do zika.

Se você está grávida e pretende viajar a um desses destinos, o CDC a aconselha a adiar sua viagem. E todos os viajantes americanos devem seguir o protocolo mais rígido para prevenir picadas de mosquitos enquanto estiverem nessa região. As medidas aconselhadas incluem o uso de calças compridas e camisas de manga longa; aplicar permetrina sobre suas roupas, equipamentos e barracas, e usar repelentes com ingredientes ativos como DEET, picaridina e IR3535.

Os cientistas acreditam que, quando você já foi contaminado uma vez pelo vírus zika, isso confere imunidade contra infecções futuras. Mas, observou Schuchat, eles não sabem quanto tempo dura a imunidade.

“O zika é um vírus relativamente novo em termos de nossos conhecimentos sobre ele”, ela disse. “Por isso procuramos manter a mente aberta.”

5. É certeza que o vírus zika causa microcefalia?

Parece que sim, mas especialistas globais em saúde aguardam serem colhidas mais evidências para adotarem uma postura sobre isso.

O que sabemos ao certo é que em outubro de 2015 o Brasil notificou a OMS sobre um aumento alarmante no número de bebês nascidos com microcefalia. Mais tarde esse aumento de casos foi vinculado ao surto amplo e contínuo de vírus zika no país, que começou a se alastrar de modo dramático em maio de 2015.

Até agora, em exames preliminares, cientistas encontraram algumas evidências que correlacionam o vírus zika ao desenvolvimento cerebral atrofiado de bebês. Na semana passada o CDC publicou pesquisas que sugerem um vínculo entre o vírus e o defeito congênito: de um coorte de 35 bebês nascidos com microcefalia no Brasil entre agosto e outubro de 2015, todas suas mães tinham vivido ou estado em uma região afetada pelo zika durante a gravidez.

Vinte e cinco dos bebês apresentavam microcefalia grave – ou seja, sua circunferência cefálica era mais que três desvios padrão abaixo da média para sua idade, e 17 deles apresentavam pelo menos uma anormalidade neurológica.

Mas nem todos os pesquisadores acham que a contagem inicial de mais de 4.000 bebês microcefálicos registrada no Brasil seja inteiramente formada por casos de microcefalia real. Eles sugerem que os números podem estar crescendo porque mais pessoas têm consciência da condição e estão atentos para ela.

Schuchat admite essa possibilidade.

Na coletiva de imprensa, ela disse que existe alguma “margem de erro” em torno da microcefalia. A condição também pode ser causada por anormalidades cromossômicas, abuso de álcool e drogas, desnutrição grave e infecções como rubéola, catapora, toxoplasmose e citomegalovírus.

Os diagnósticos iniciais de microcefalia precisam ser confirmados, disse ela, e os cientistas precisam se certificar de que a condição não foi causada por qualquer outro fator ambiental.

O vínculo causal entre o zika e a microcefalia ainda não está confirmado, mas as evidências iniciais foram o bastante para levar os governos do Brasil, El Salvador, Colômbia, Jamaica e Porto Rico a aconselhar as mulheres a evitar engravidar.

microcefalia no brasil

6. Uma grávida precisa apresentar sintomas do zika para que seu feto corra o risco de microcefalia?

O vírus zika é tão brando que apenas uma em cada cinco pessoas chegam a sentir sintomas. Mas ainda não sabemos se uma grávida precisa apresentar sintomas para que seu feto corra o risco de microcefalia, disse Schuchat.

Diante dessa ambiguidade, o CDC aconselha as gestantes que acabam de viajar a um país afetado pelo zika que informem seu ginecologista do fato e monitorem o progresso do feto com ecografias em série, para averiguar possíveis sinais de microcefalia.

O júri (de cientistas) ainda não deu seu parecer sobre essa questão, mas a Polinésia Francesa relatou um aumento incomum nas anormalidades do sistema nervoso central em fetos e bebês em 2014 e 2015, mais ou menos na época em que o vírus se alastrava pelas ilhas.

Embora nenhuma das mães tenha apresentado sintomas do zika, quatro delas tiveram resultados positivos em exames que detectam sinais de flavivírus, o gênero de vírus que inclui o zika, dengue, chicungunha e febre amarela. De acordo com o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, isso sugere “uma possível infecção assintomática por zika”.

Os cientistas suspeitam que as lesões ao cérebro do feto ocorram no primeiro trimestre de gestação, mas não há informações suficientes no momento para avaliar se contrair o zika é mais ou menos arriscado em diferentes etapas da gravidez, disse Schuchat.

“Acreditamos que a microcefalia aparece no primeiro trimestre, mas não sabemos o suficiente neste momento para saber que efeitos teria uma infecção por zika no segundo e terceiro trimestres”, disse a cientista.

Schuchat também destacou que, embora ainda seja necessário fazer mais pesquisas, os cientistas não acreditam que contrair o vírus zika terá consequências para gravidezes futuras.

“Acreditamos que o zika é uma infecção de tempo limitado em homens, mulheres e crianças – que as pessoas apresentam sintomas por até uma semana. Acreditamos que não seja uma doença que envolva meses ou anos de infecção viral crônica que possa fazer mal a um bebê futuro”, ela disse.

7. O que devem fazer agora as mulheres grávidas que vieram de um país afetado pelo zika?

Se você sentiu qualquer sintoma do zika durante sua viagem ou nos 15 dias seguintes ao seu retorno, informe imediatamente a seu médico, que decidirá se é preciso fazer um exame de sangue para detectar a presença de zika.

Os exames são feitos por alguns poucos laboratórios especializados em vários pontos dos EUA, e os resultados podem demorar até 15 dias.

Se você é assintomática, informe a seu ginecologista sobre a viagem que fez e programe uma ecografia assim que possível para detectar quaisquer anormalidades cerebrais ou cranianas que possam revelar a presença de microcefalia. O CDC aconselha às gestantes que considerem a possibilidade de programar uma série de ultrassonografias para monitorar de perto o desenvolvimento de seus fetos.

Se o médico encontrar sinais de possível microcefalia, pense em fazer uma amniocentese (um exame do líquido amniótico no ambiente do bebê) para averiguar a presença de zika. Esse procedimento só pode ser realizado após 15 semanas de gestação e encerra um pequeno risco de provocar um aborto acidental.

exame

8. O vírus zika também causa a síndrome Guillian-Barré?

A síndrome Guillian-Barré (SGB) é uma desordem neurológica grave que pode ser causada por muitas infecções diferentes. O CDC destaca que dois terços das pessoas que a desenvolvem o fazem depois de apresentar diarreia ou uma doença respiratória.

As infecções bacterianas e virais também podem desencadear a SGB, e, nos casos mais raros, ela também pode se desenvolver depois de uma pessoa receber uma vacina.

Devido ao aumento agudo dos casos de síndrome Guillian-Barré na Polinésia Francesa em seguida ao surto de zika em 2013 nessa região, além do aumento dos casos no Brasil, cientistas acreditam que o vírus zika pode ser mais uma doença que desencadeia a síndrome.

Mas, assim como é o caso do vínculo com a gravidez, são necessárias mais pesquisas para esclarecer a ligação entre o vírus zika e essa desordem rara.

9. O que devo fazer se viajei a uma região afetada pelo zika e acho que tenho a doença?

Procure o médico se você apresentar qualquer destes quatro sintomas: erupção cutânea, dor nas articulações, febre ou conjuntivite-o. Informe-o sobre onde você foi e quando foi. Mesmo que não seja o zika, pode ser uma das várias outras doenças transmitidas por mosquitos e que requerem atenção médica, como malária ou dengue.

Para amenizar seus sintomas, tome medicamentos vendidos sem receita médica, como acetaminofeno ou paracetamol (Tylenol, etc.), mas não tome aspirina, ibuprofeno ou outro anti-inflamatório não esteroide. Repouse e tome muito líquido.

O mais importante talvez seja precaver-se para prevenir picadas de mosquito, já que os mosquitos podem transferir o vírus de você a outras pessoas.

zika nas américas

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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