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Decidi não ler livros escritos por autores brancos por um ano. E os conservadores ficaram furiosos

05/02/2016 20:46 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Media for Medical via Getty Images
Tablet Computing Woman. (Photo by: MediaForMedical/UIG via Getty Images)

Porque nada me dá mais vontade de ler um livro escrito por um homem branco do que receber uma ameaça de estupro de um homem branco.

Li excelentes livros no ano passado.

Li ótimas obras de ficção como Aguapés, de Jhumpa Lahiri, e angustiantes memórias como Irritable Hearts, de Mac McClelland, e instrutivos livros de não ficção como Asking For It, de Kate Harding, e opções inteligentes para as férias como The Royal We, de Heather Cocks e Jessica Morgan.

Tentei, mas não consegui terminar Canhões de Agosto, de Barbara Tuchman, e não pude ir em frente com o The Idea of Perfection, de Kate Grenville. Devorei Os Casos de Amor de Nathaniel, de Adelle Waldman, e não resisti à popularidade da série Outlander – A Viajante do Tempo, de Diana Gabaldon.

Você deve ter notado algo sobre esses autores. São todas mulheres. Foi de propósito. Praticamente não li livro de homens no ano passado.

No fim de 2014, fiz um balanço de todos os livros que li nos anos anteriores e fiquei chocada ao notar que poucos deles eram mulheres. Não chegou nem perto de 50/50.

Cheguei à conclusão que, entre a leitura que havia sido recomendada no colégio e faculdade e o que estava lendo por prazer e conhecimento, agora que não estou estudando, a lista de livros da minha vida é distorcida: os homens estão exageradamente representados.

E tem sido assim há mais de duas décadas. Tenho estado — às vezes por falta de esforço e atenção de minha parte, e às vezes devido à intenção de outras pessoas — num mundo literário narrado predominantemente por homens. Que é, inevitavelmente, um mundo muito limitado e limitador para se passar dias e anos.

Como escrevi ano passado, depois de três meses, não tinha lido a quantidade suficiente de livros escritos por mulheres, e isso era algo que decidi corrigir de uma maneira sistemática. Você sabe, da forma que devemos corrigir todas as desigualdades sistêmicas.

Fiz algumas exceções. No ano passado, segundo meus cálculos, li dois livros e meio, por prazer, que foram escritos por homens. Como eu já esperava, o ano começou, em todos os aspectos, como os típicos 12 meses de leitura.

De alguns livros realmente gostei, outros parei na metade porque não me sentia conectada, e alguns recomendei para vários amigos e entes queridos.

Mas, ao mesmo tempo, me fez pensar sobre como minha lista de leitura tem sido limitada. Não li vários livros que muitos norte-americanos leram no colégio. Não li muita ficção. E a maioria dos livros da lista da minha vida é composta por autores brancos.

Então, neste ano, decidi corrigir isso também. Decidi não ler livros de autores brancos em 2016. E então tuitei minha decisão. E o mundo desabou.

Vale a pena debater se o fato de falar publicamente sobre esse tipo de plano de leitura prejudica a proposta. No começo de janeiro, no site Jezebel, Jia Tolentino argumentou que a proposta “Ano de Ler Apenas ‘Kill All Men’ [Mate Todos os Homens, livro de Phil Hipside, não publicado no Brasil]” nos afasta do grande objetivo do exercício.

Anunciar publicamente metas diversas de leitura para o ano são semelhantes às políticas de diversidade corporativas — remendos superficiais e pomposos para problemas profundos, cheios de esforços e essencialismo que tendem a piorar as coisas.

Além disso, o “Ano de Leitura Especializada” pode, na verdade, ter o efeito contrário ao futuro melhor que estamos buscando — aquele no qual certos escritores não sejam mais vistos como inerentemente de especial interesse, onde escritores pertencentes às minorias/mulheres não mais escreverão sobre identidade enquanto escritores brancos/homens podem escrever sobre a vida.

E sobre esse futuro melhor: se o “Ano de Ler Wokely” deve moldar um comportamento que deve ser normalizado — a leitura de um vasto leque de experiências, valorizando o que está sub-representado —, seria bom entender que já está dentro de nosso poder normalizar esse comportamento, o que não significaria discutir extensivamente nossos hábitos de leitura ou restringi-los para o autoaperfeiçoamento, mas comprar, consumir, falar sobre o trabalho.

Poderia ter concordado com Tolentino, que também defende que, como escritores, queremos ser lidos pela qualidade de nossas ideias, não pela cor de nossa pele ou combinação de nossos cromossomos. Certamente desejo isso. Mas, então, presenciei o que acontece quando realmente discutimos nossos hábitos de leitura — quando, a caminho para o futuro melhor, somos assaltados pelo presente amargo.

Rapidamente ficou claro que, embora não quiséssemos que fosse assim, falar publicamente sobre uma lista de leitura elaborada para corrigir desigualdades e, assim, transformá-lo em um melhor cidadão do mundo é — ou, pelo menos, é interpretado desse modo — subversivo.

Ficou muito claro que, por mais que queiramos viver em um mundo no qual certos escritores não são mais vistos como inerentemente de especial interesse, atualmente vivemos em um mundo onde trabalhar publicamente rumo àquele futuro melhor — onde dizer, em voz alta, que você quer ouvir menos pessoas brancas e dar voz aos negros, e que está coordenando um esforço para tal — provoca uma onda de insultos racistas.

Aqui está uma lista curta, e de forma alguma exaustiva, de coisas que as pessoas me chamaram em resposta àquele tuíte: traidora da raça, de praticar racismo reverso, incendiária de livros, aspirante a segregacionista, sexista, liberal retardada, puta, puta estúpida.

E por aí vai...

Uma pessoa manifestou o desejo de que eu também deixasse de ler rótulos de advertência e sinalizações nas ruas este ano. Outra, agora em um tuíte deletado, esperava que eu fosse estuprada por um “kebab”, que suponho seja seu ofensivo e desumano modo de descrever um homem muçulmano. Outra disse que eu deveria me tornar uma “noiva do Estado Islâmico’, então descobri o que é opressão de verdade, e outra disse que tenho um “toque do ISIS [sigla do Estado Islâmico em inglês]”.

Ah, e uma pessoa disse: “Espero que encontrem seu cadáver carbonizado em uma vala”, ao qual outra pessoa respondeu: “Espero que a encontrem rapidamente antes que eu planeje minha fuga!”.

Não é novidade que a Internet é, entre outras coisas, uma fossa de ódio cheia de pessoas horríveis vomitado bile com erros de digitação. E não é novidade que, se você for mulher, a probabilidade é bem maior de que seja atingida pelo vômito. E o vômito, muitas vezes, não tem relação com o que você realmente disse. Eu poderia ter dito que realmente esperava comer mais ‘blueberries’ (mirtilo) ou vestir mais camisetas cinza em 2016, e ainda assim haveria vômito.

Mas não foi o que eu disse. O que eu disse foi que estou dando uma pausa na leitura de autores brancos por um tempo. E as pessoas perderam a cabeça, de um modo em que se mostraram claramente racistas e misóginos. Com certeza os trolls vão aparecer, mas acredito que seja instrutivo analisar com cuidado como trollaram neste caso.

Primeiro, o racismo declarado, tanto com pessoas dizendo “aquelas ‘mixtapes’ vão ser difíceis de ler” ou “você vai ler muitos livros de receita então”. Dando a entender que apenas pessoas brancas produzem livros que valem a pena ler, ou que na verdade são as únicas que produzem livros, e que, ao evitá-las, estou negando a mim mesma o acesso a um material de leitura de qualidade, ou “limitando” minha perspectiva sobre o mundo.

Ou a noção de que o sexismo real acontece nas mãos dos muçulmanos e/ou homens de pele escura (vejam esta: “Você não gosta de ser a garota de uma canção country? Agradeça por não ser uma garota de uma canção de rap”.) Como se apenas um grupo fosse capaz de sexismo ou que o sexismo de um anulasse todos os outros.

Como se as mulheres norte-americanas devessem se sentir agradecidas pelo fato de sermos pouco oprimidas, em vez de extremamente oprimidas. Como se o sofrimento fosse classificado, quando, na verdade, está vinculado.

E, então, o tal do “racismo reverso”. O racismo reverso não existe. Corrigir uma disparidade antiga, seja no ingresso às universidades, contratações ou seleção de livros, e usar a raça como fator em sua seleção não é “racismo reverso”. É uma maneira de reverter os efeitos do racismo.

Apenas pessoas que consideram seus pensamentos e palavras brancas como evidentemente superiores a todos os outros podem ver o esforço em diminuir a presença delas como irracional e injusto. Da mesma forma, não existe o “sexismo reverso”. Apenas em um mundo onde os homens estão acostumados a comandar absolutamente tudo, ouvir uma mulher dizer “vou dar uma pausa na leitura de autores brancos por um tempo” pode significar que eles estão sendo brutalmente discriminados.

Parafraseando Harry S. Truman, não estou lhe oferecendo sexismo. Estou lhe oferecendo igualdade, e você acha que é sexismo. E, também, os tuítes de “traidora da raça”, e a ideia de que evito qualquer coisa criada por pessoas brancas.

Tenho escrito sobre a “brancura” de forma consistente no último ano, e a resposta encontrada em certos comentários é sempre a mesma: criticar a brancura ou, neste caso, evitar o trabalho de pessoas brancas é uma forma de “autoaversão”, porque também sou branca (“você não é branca”, o eventual antissemita pedante vai dizer, “você é judia”).

Mais do que isso, parecem dizer, fazer qualquer coisa que não seja exaltar a brancura, ser qualquer coisa que não seja ter orgulho de ser branca é rejeitar um presente, abandonar um dever. Como ouso fazer isso? Não sei que é um privilégio ser branca? Essas mesmas pessoas também gostariam que eu soubesse que o privilégio branco é um mito, que o racismo reverso corre solto, e que as pessoas brancas ultimamente têm sido muito oprimidas.

Finalmente, existe a esperança de que eu seja estuprada ou morta por alguém de pele escura ou por aqueles que desejam isso. Porque nada me dá mais vontade de ler um livro escrito por um homem branco do que receber uma ameaça de estupro de um homem branco.

A ameaça de violência sexual, frequentemente, é a resposta que as mulheres recebem quando ousam se expressar, on-line ou off-line. É uma tentativa para nos lembrar, em termos cruéis sexistas, quem realmente está no comando. A ameaça de estupro — e de estupro por um homem não branco, que se imagina ser mais degradante do que a agressão de um homem branco — é a mais antiga, preguiçosa e uma das mais tendenciosas tentativas de silenciar uma mulher.

“Vou te estuprar, p*ta”. Porque você não vai ler um livro escrito por uma pessoa branca pelos próximos 12 meses. “Vou te f*der, puta”. Porque você decidiu criar uma lista de leitura que tenta espelhar o mundo real.

“Vou te matar, p*ta”. Porque você está reconhecendo e tentando remediar o racismo e o sexismo e, ao falar sobre isso, está implicitamente desafiando outras pessoas a fazer o mesmo.

Não acredito que apenas ler coisas diferentes e esperar que outras pessoas façam o mesmo irá acabar com o racismo ou sexismo. Serão necessárias 500 mil coisas — grandes e pequenas, públicas e particulares, individuais e sistêmicas — para que isso aconteça.

Também não acho que seja exibicionista ou superficial, como membro de um grupo dominante, divulgar a outros membros daquele grupo que você está ativamente trabalhando para corrigir desigualdades. Para que você e os outros membros do grupo se sintam responsáveis. Isso não irá instantaneamente nos transportar para um futuro melhor — nada irá —, mas será, tomara, uma parada na estrada.

Poderia ter guardado minha resolução de leitura para mim mesma, mas ainda bem que não fiz isso. Todo tuíte insultante — toda rejeição racista aos autores negros e às pessoas que os leem, todo grito indignado de racismo reverso de pessoas para as quais a perda infinitesimal de privilégio é sentida como um duro golpe — é mais um lembrete do porquê importa.

ETC: