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A economia grega está sendo esmagada pela austeridade e pela crise dos refugiados

05/02/2016 21:34 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
AYHAN MEHMET/GETTY IMAGES

A crise dos refugiados está testando os limites da economia grega, ameaçando a capacidade do país de lidar com um fluxo de refugiados que não dá sinais de desaceleração.

Além das dificuldades provocadas pela política de austeridade, a pressão econômica da crise de refugiados aumenta o medo do governo grego de que haja uma nova onda de xenofobia no país, a menos que a União Europeia e a Turquia intensifiquem significativamente a ajuda para administrar o problema.

Um relatório de Yannis Stournaras, governador do Banco da Grécia, confirma o receio. Apresentado ao conselho geral do Banco Central Europeu em 17 de dezembro, o relatório compila pesquisas sobre os efeitos econômicos do fluxo de refugiados para demonstrar os riscos que ele representa para a Grécia.

“A continuação/piora da crise [dos refugiados] acrescenta um fator de risco para as perspectivas da economia grega”, argumenta Stournaras. Que a mensagem tenha vindo de Stournaras, ministro das Finanças entre 2012 e 2014, no governo anterior de centro-direita, reforça as conclusões.

O aumento das despesas públicas para absorver os milhares de refugiados que desembarcam diariamente na costa do país chegarão a 0,3% do PIB este ano, ou 600 milhões de euros, diz Stournaras no relatório, citando estimativas do governo.

Os custos vão obrigar a tomada de certas decisões, pois ocorrem “num momento de estrito aperto fiscal”, diz o relatório.

O texto também observa que o enorme número de refugiados, sírios em sua maioria, tem causado uma ruptura na indústria do turismo e no comércio internacional, que depende de acesso irrestrito às vias marítimas das ilhas gregas.

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Refugiados chegam à ilha de Lesbos numa embarcação da Guarda Costeira grega

A grande maioria dos refugiados que chega à Grécia segue viagem para países europeus mais ricos, especialmente Alemanha e Suécia, que têm sido relativamente acolhedores.

Mas um crescente número de países vizinhos está fechando suas fronteiras, e é provável que mais candidatos a asilo permaneçam na Grécia. Isso significa mais gastos governamentais para garantir alojamento, comida e saúde para os refugiados, diz o relatório de Stournaras.

Ironicamente, países mais ricos, como a Alemanha, têm os maiores ganhos econômicos em potencial com a chegada dos refugiados, diz o relatório, pois há falta de mão-de-obra em setores que precisam de funcionários qualificados.

A Grécia está entre os países menos equipados economicamente para lidar com esse fluxo. (Cerca de 84% dos candidatos a asilo que chegaram à Europa pelo mar em 2015, e 92% este ano, entraram no continente pela Grécia, segundo a ONU.)

A economia grega ainda está se recuperando da crise financeira e das medidas de austeridade exigidas por três planos de salvamento desde 2010. A taxa de desemprego está perto de 25%), a mais alta da União Europeia, e a economia encolheu 25% em relação a 2009 – o que significa que os rendimentos do cidadãos do país diminuíram em proporção comparável.

Os diferentes efeitos econômicos da crise dos refugiados nos diversos países europeus ilustra as disparidades existentes na zona do euro, diz Angelos Chryssogelos, um especialista em política europeia da London School of Economics.

“É comparável a se falar num aumento líquido das exportações na zona do euro: não significa que haverá ganhos iguais em todos os países da Europa”, disse ele, observando que a Alemanha costuma ficar com a maior parte do crescimento das exportações.

A paciência dos gregos está acabando

Sem uma solução mais abrangente por parte da União Europeia, o governo grego teme que o fluxo constante de refugiados e seu impacto sobre a economia possam incentivar elementos xenófobos no país, disse uma alta autoridade do governo.

O governo grego não adotou medidas duras como outros países. A Hungria criou campos para prender os refugiados e impede que eles sigam viagem para outros destinos na Europa. Dinamarca e Suíça estão confiscando os ativos dos refugiados para cobrir os custos de manutenção. E o fluxo maciço de refugiados não levou os gregos a apoiar movimentos políticos xenofóbicos, como aconteceu na França, na Dinamarca, na Finlândia e na Suécia.

Mas a fonte governamental disse que o aparente fracasso da União Europeia em fornecer uma solução política eficaz para a crise, além das acusações dos outros países em relação aos gregos, estão testando a generosidade da população grega. Se a situação não for contornada, diz a autoridade, existe o risco de um crescimento de forças xenófobas, como partido neonazista grego Aurora Dourada.

“Há sempre o perigo da ascensão da extrema direita se continuarmos sendo pressionados pelo fluxo de refugiados e ao mesmo tempo recebermos tratamento duro dos nossos parceiros”, disse a autoridade. “Temos de entender que a sociedade grega sofreu muito e continua sofrendo.”

Um funcionário de uma agência de ajuda humanitária na ilha de Lesbos, importante ponto de chegada para os candidatos a asilo, tem preocupações parecidas. Ele disse que a população local tem recebido os refugiados de braços abertos. Mas eles começam a se ressentir em relação à comunidade internacional, que investe muitos recursos para ajudar os refugiados, mas ignora crise econômica grega, acentuada pela a crise dos refugiados.

“Os gregos têm mostrado grande hospitalidade para com os refugiados e trabalhadores humanitários na ilha, mas eles se sentem abandonados pela Europa e são penalizados pelo que fazem”, disse o funcionário, que pediu para permanecer anônimo pois não tinha autorização para falar em nome de seu empregador.

Dois moradores de Lesbos foram indicados ao Prêmio Nobel da Paz por seu papel na ajuda aos refugiados, junto com a atriz Susan Sarandon, que documentou seu trabalho de ajuda na ilha. Os acadêmicos gregos e os membros do Comitê Olímpico Helênico, responsáveis pela indicação, disseram que os dois candidatos gregos representam “o comportamento e atitude da Grécia, da organizações de ajuda e dos voluntários em relação à enorme crise.”

As preocupações com o esgotamento da boa vontade do público coincidem com severas críticas e ameaças de outros países da União Europeia.

A Comissão Europeia, órgão executivo da UE, deu um ultimato para que a Grécia cumpra uma série de recomendações em relação ao registro de candidatos a asilo que estão em seu território e à segurança de suas fronteiras marítimas. Se a Grécia não cumprir as determinações em três meses, diz a ABC News, os países da UE podem estabelecer controles de fronteiras por até dois anos -- efetivamente excluindo a Grécia da zona de Schengen, que permite o trânsito sem passaporte entre 26 países europeus. Essa medida significaria milhares de refugiados efetivamente presos na Grécia, pois os países vizinhos fechariam suas fronteiras.

A ação da Comissão Europeia vem na esteira de semanas de acusações dos países-membros. Eles afirmam que a Grécia não patrulha suas fronteiras marítimas de forma adequada a fim de impedir a entrada dos refugiados na Europa. As autoridades europeias também afirmam que a ajuda enviada à Grécia não tem sido devidamente utilizada para gerenciar a crise dos refugiados.

A Comissão Europeia repassou para o governo grego 27,8 milhões de euros em fundos de emergência e vai providenciar outros 474 milhões em assistência de 2014 a 2020, para “recepção, retorno e realocação na Grécia”, segundo um relatório da Comissão do final de janeiro.

Tove Ernst, um porta-voz da Comissão Europeia, negou que a CE não reconheça os esforços do governo grego e dos cidadãos do país. Ao mesmo tempo, indica Ernst, a Comissão acredita que a Grécia deva melhorar a sua abordagem.

“Não estamos isolando ou estigmatizando os gregos, mas ajudando-os a respeitar as suas obrigações, ajudando-os a corrigir as deficiências”, disse Ernst.

"Este estado -- um estado falido -- está tentando desenvolver um mecanismo para administrar a maior crise de refugiados das últimas décadas."

Costas Eleftheriou, Universidade de Atenas

Um diplomata grego envolvido nas discussões com autoridades europeias reconheceu erros no passado, mas disse que a ação da Comissão representa uma “visão muito parcial da realidade.”

“Neste momento, as recomendações da Comissão estão sendo usadas para fazer da Grécia um bode expiatório das políticas de refugiados e migração”, disse o diplomata. “Algumas recomendações são razoáveis, algumas já foram cumpridas, e algumas só existem para legitimar restrições fronteiriças e para transformar a Grécia num bode expiatório.”

O governo grego anunciou esta semana que recrutou a ajuda dos militares para acelerar a conclusão de centros de acolhimento, a fim de agilizar o processamento dos refugiados que entram no país.

Enquanto isso, os gregos querem que as nações europeias honrem seus compromissos de receber os candidatos a asilo e que a UE pressione a Turquia para limitar o fluxo de refugiados que vêm de seu território. Em novembro, a UE fez um acordo para destinar 3,2 bilhões de euros para a Turquia a título de ajuda para os 2,2 milhões de sírios refugiados no país. Em troca, a UE pediu que a Turquia impedisse mais ativamente a migração para a Europa por via marítima.

Apesar do acordo, milhares de refugiados continuam chegando todos os dias na costa da Grécia, sobrecarregando ainda mais a economia do país.

O diplomata grego observa que as autoridades europeias costumam reclamar que a Grécia não está processando pedidos de realocação dos refugiados com a velocidade necessária. Dos 700 pedidos processados pelos gregos desde setembro, apenas 200 refugiados foram realocados, disse o diplomata.

A organização sem fins lucrativos Human Rights Watch corrobora muitas das afirmações do governo grego.

A Human Rights Watch tem criticado o governo grego por não fazer o suficiente para acomodar os refugiados e, em particular, por não tomar medidas adequadas para registrá-los oficialmente. Mas o grupo reconhece que as dificuldades econômicas da Grécia são parcialmente responsáveis por isso e reserva as críticas mais duras para as autoridades europeias, que teriam a intenção de “armazenar” os candidatos a asilo dentro das fronteiras gregas – ou simplesmente mandá-los de volta para casa.

“Prender os candidatos a asilo em condições precárias na Grécia seria desastroso para essas mulheres, homens e crianças e é o exato oposto do tipo de responsabilidade compartilhada que precisamos ver”, disse Eva Cossé, da Human Rights Watch Grécia em um comunicado divulgado em 28 de janeiro. “Também seria um sinal da completa falta de liderança por parte da UE na crise global de refugiados.”

Cossé também observa que a UE não entregou a ajuda e o pessoal de patrulha de fronteira para a Grécia, nem desenvolveu um novo sistema para processar um volume de refugiados sem precedentes.

“Este estado -- um estado falido -- está tentando desenvolver um mecanismo para administrar a maior crise de refugiados das últimas décadas. Isso é um absurdo”, disse Costas Eleftheriou, especialista em política grega da Universidade de Atenas. “Eles dizem que essas pessoas não estão administrando a crise do jeito certo”, afirmou Eleftheriou, mas tudo o que os gregos fazem deve ser avaliado no contexto da sua grave crise financeira.

Como isso pode afetar a renegociação da dívida grega?

O governo grego não invocou a crise dos refugiados nas negociações sobre o seu pacote de redução da dívida com os seus credores institucionais, segundo o governo.

Mas Eleftheriou, da Universidade de Atenas, disse que seria sensato que Tsipras usasse a crise como argumento nas negociações de redução da dívida, embora ele seja cético em relação à eficácia da estratégia.

“Os parceiros europeus não vão aceitar esse tipo de argumentação, ligando a crise dos refugiados e a questão programa de austeridade”, disse ele. “Não sei se isso vai reforçar o argumento dos gregos, porque acho que eles já tentaram isso no passado.”

Chryssogelos, da London School of Economics, suspeita que a Grécia tente alavancar a crise de refugiados para obter prazos de pagamento mais favoráveis.

“Eles estão tentando obter mais trocas na frente econômica sendo mais razoáveis nas questões dos refugiados e nas questões internacionais”, disse ele.

"Eles estão tentando obter mais trocas na frente econômica sendo mais razoáveis nas questões dos refugiados e nas questões internacionais."

Angelos Chryssogelos, London School of Economics

O Fundo Monetário Internacional, um dos principais credores da Grécia, supostamente adotou uma linha mais dura nas últimos negociações sobre as reformas das pensões na Grécia. O FMI afirma que não comenta sobre as negociações em andamento. Em vez disso, a organização apontou para um relatório divulgado em 20 de janeiro, que avalia os efeitos econômicos do fluxo de refugiados no curto e no longo prazo.

O relatório nota o papel de porta de entrada da Grécia, concluindo que os gastos adicionais para lidar com a crise sejam de 0,17% do PIB de 2015 – menos do que é investido por países que são os destinos finais dos refugiados. Mas o texto não examina o impacto dessas despesas no contexto da crise da dívida.

“O estudo indica que, com políticas adequadas – especialmente uma integração eficaz no mercado de trabalho -- o potencial de refugiados pode representar benefício para todos”, diz a diretora geral do FMI, Christine Lagarde, num comunicado que acompanha o relatório. “As circunstâncias enfrentadas por cada país são diferentes, e diferentes deveriam ser as respostas, mas, em última análise, a onda de refugiados é um desafio global que devem ser enfrentado por meio de cooperação global.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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