LGBT
04/02/2016 21:32 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Buck Angel, 'o homem com uma vagina', fala sobre o papel que o sexo desempenha quando somos autênticos

DUSTI CUNNINGHAM

Este é o quarto artigo de uma série que busca dar visibilidade a pessoas transgêneras e indivíduos que não se identificam com o gênero de nascimento, e que desempenham um papel significativo na luta contínua pela libertação de pessoas trans e queer. Clique aqui para ler o primeiro artigo (em inglês) com CeCe McDonald, aqui para o segundo, com Kate Bornstein, ou aqui para o mais recente, com Laura Jane Grace.

Buck Angel é produtor de filmes pornô, ativista e homem trans, cujo trabalho como educador luta para sexualizar o corpo trans e quebrar estigmas em torno da identidade de transgêneros masculinos.

Inicialmente, Angel ficou conhecido por seu trabalho no mundo do entretenimento pornô, levando a indústria a repensar o relacionamento com atores transgêneros e criar visibilidade para homens trans e para os que não se identificam com o gênero de nascimento.

Há muito anos, Angel passou a se concentrar na educação do público sobre sexualidade humana, percorrendo os Estados Unidos como palestrante e conversando com trans identificados com o gênero masculino e pessoas que não se identificam com o gênero de nascimento, como parte de seu projeto "Sexing the Transman" ("sexualizando o momem trans", em português).

O documentário pornô fornece uma plataforma para homens trans e os que não se identificam com seu gênero promoverem um debate franco sobre o papel que o sexo e a sexualidade desempenham, ou desempenharam, em sua atual transição.

Nesta entrevista ao Huffington Post, Angel reflete sobre sua trajetória na indústria de filmes pornô e de educador, através da própria transição pessoal, os vários matizes da comunidade trans, e o papel que, em sua opinião, a visibilidade, o sexo e a sexualidade desempenham para pessoas trans e para as que não se identificam com o próprio gênero, na busca por uma vida autêntica.

The Huffington Post: Poderia falar sobre o começo de sua carreira? Quais foram os primeiros momentos decisivos para você como estrela trans de filmes pornô, ativista e educador?

Buck Angel: Claro que posso. É algo que nunca me esquecerei porque, por ter essa ideia, agora estou nesta posição em minha vida onde tenho uma voz poderosa — e tudo porque tive essa visão.

Estava trabalhando no campo de entretenimento pornô, mas, atrás das câmeras, criando sites. Estava trabalhando com uma atriz trans muito popular, e o campo pornô para a mulher trans é amplo. Foi naquele momento que disse para mim mesmo: “Nossa, não posso acreditar que não existam homens transexuais no pornô” — quando digo isso, sempre tenho essa imagem de uma lâmpada no topo da cabeça que diz: “O homem com uma vagina”.

Aquela imagem é tão poderosa para mim porque estava com medo no começo; e depois percebi que havia descoberto algo quando contei para minha amiga, e [então] eles disseram: “Cara, é uma ideia brilhante. Você vai mudar o mundo”.

Claro que aquilo não era minha intenção ou desejo na época. Era apenas para criar um espaço para alguém como eu no mundo pornô — criar um gênero ou um nicho. Então lembro de dar risada da minha amiga e dizer: “Não ligo para isso. Apenas quero fazer um pornô excitante”.

Depois daquilo foi uma batalha difícil para conseguir qualquer tipo de aprovação ou reconhecimento, tanto da indústria pornô quanto da comunidade de homens trans. O setor estava assustado, porque eles não tinham a menor ideia de onde me colocar ou mesmo como me promover. Muitos homens que trabalharam com mulheres trans falavam que eu era um ser estranho. Muitas empresas nem faziam contato comigo. Foi difícil. Eu me senti realmente condenado ao ostracismo. Mas, então, os homens gays começaram a se interessar pelo meu trabalho.

Muitos deles guardavam segredo sobre aquilo e se sentiam envergonhados diante de outros homens gays. Realmente provoquei esse tipo de divisão dentro da comunidade gay. Mas eles realmente foram os que me incentivaram, me fizeram sentir que estava produzindo algo excitante e necessário. Meu trabalho não falava apenas sobre sexo, mas também sobre sexualidade, e como isso é muito diverso.

Foi quando comecei a perceber que sim, minha amiga estava certa. Realmente tenho a oportunidade de mudar o mundo. Acredito que tenha sido quando comecei a me tornar ativista e educador. Mas aquilo também foi acompanhado pelo ódio despertado na comunidade trans. Foram muito cruéis e terríveis — dirigindo-se a mim como se meu trabalho com filmes pornô fosse levar todo mundo a pensar que todos os homens trans têm uma vagina ou que todos os homens trans são como eu. Que eu estava fetichizando os homens trans.

Naquela época, estava muito frustrado com a comunidade e com ódio. Agora, percebo, 13 anos depois, que eles estavam apenas agindo em função do medo. A melhor parte sobre esta história é que agora existe uma comunidade muito grande de homens com vaginas.

Uma das grandes coisas sobre envelhecer como ativista e educador é aprender e crescer como pessoa. Eu tremo [ao pensar em] algumas coisas que fiz no início. Mas, agora, tenho mais conhecimento e realmente faço um esforço para ajudar a mudar o mundo através do meu trabalho sobre a positividade do corpo e do sexo.

Uma das grandes coisas sobre envelhecer como ativista e educador é aprender e crescer como pessoa

Você poderia falar sobre suas experiências com pessoas trans e as que não se identificam com o gênero de nascimento na indústria de filmes pornográficos? Por que esse mercado tem sido tão crucial para a sobrevivência e vida de tantas pessoas trans? O que você diria para os que alegam que o entretenimento pornô reforça estereótipos negativos sobre pessoas trans e é prejudicial para a comunidade?

Uma das coisas mais impressionantes para mim e para a evolução do meu trabalho é meu atual projeto "Sexing the Transman". Tive essa ideia porque a comunidade me dizia que meus filmes não eram uma representação da comunidade, e percebi que tinha a oportunidade de me abrir e dar voz para muitos trans e GNC [sigla em inglês para gender non-conforming people, ou pessoas que não se identificam com o gênero de nascimento] através de meus filmes.

A ideia de criar uma série de documentários pornô, onde eu pudesse sair de cena e deixar outros falarem sobre transição e como isso desempenha um grande papel para a sexualidade e positividade do corpo, era muito muito incrível para mim. A maneira pela qual essas pessoas se abriram para mim e como ficaram felizes em debater e mostrar ao mundo quão importante o sexo é para elas durante a transição — como as ajudou a entrar em contato com um corpo que elas sempre odiaram.

Então, realmente, minha experiência dentro de uma determinada parte da comunidade agora tem sido totalmente positiva, porque dei voz a elas. Recebo muitos e-mails de pessoas me agradecendo por esta série, porque as ajudou a validar que é OK amar a si mesmo e o próprio corpo do jeito que você o vê — e não como os outros querem que você o veja.

A indústria de [filmes] pornográficos parece ser um lugar onde muitas pessoas trans buscam trabalho. Isso porque não discriminamos, e é um lugar onde qualquer pessoa pode conseguir trabalho. Dito isso, não acho que as pessoas sempre entrem nisso com a ideia de que seja algo positivo; elas apenas estão fazendo isso para sobreviver, e não necessariamente porque querem.

Mas algumas pessoas em minha comunidade irão argumentar que esse campo do entretenimento apenas cria estereótipos negativos sobre as pessoas trans — que fetichiza e cria negatividade. Há muitos que amam expressar a sexualidade dessa forma e pensam sobre isso como eu penso: uma maneira de produzir imagens positivas do corpo que criam uma mudança positiva.

Eu diria que ainda existem alguns sentimentos estranhos em relação à comunidade transgênera e à indústria pornô, significando que acredito que ainda olham para nós mais como outsiders, e não necessariamente como parte da indústria pornô. Mas não vejo isso como um grande problema, porque você pode fazer e criar o que quiser agora. Você não precisa mais da indústria para “fazê-lo”. Agora, nós podemos simplesmente fazê-las. Sou prova disso!

Você é visto como uma figura polêmica por alguns membros da comunidade trans. Qual sua opinião sobre a “comunidade trans”, especialmente do modo que é vista pela opinião pública convencional?

Pode apostar que sou! Tudo porque falo sobre sexo e sobre meu corpo — porque ousei falar sobre meus genitais de uma maneira que ninguém na comunidade tinha falado antes. Então, por que isso me torna polêmico? Vejo que é interessante como a comunidade quer que o mundo a aceite, mas ela mesma não aceita a própria diversidade.

O que acontece com a comunidade trans é que está crescendo muito rápido, e esse crescimento é acompanhado de muitas opiniões, e quem fala mais alto parece vencer. Eu fico triste com o fato de que alguns sintam tanta raiva e ódio de mim, e que outros estejam tentando mudar como pensamos.

As mentiras e [mensagens] de ódio que pessoas postaram sobre mim apenas mostram o quanto elas não têm nenhuma vontade de criar mudanças. Percebo que existe tanto medo, depressão e ódio contra si mesmo que alguns na comunidade reagem apenas com isso — ódio.

Eu mesmo já disse coisas na minha carreira que não foram corretas, mas desde então fiz as pazes e criei um diálogo para esclarecer tudo.

Mas algumas pessoas simplesmente não reconhecem o valor de seguir em frente e me atacam. Isso simplesmente faz parte de ser uma figura pública. Você não pode agradar todo mundo. Não me sinto ofendido por essas pessoas, porque sei que apenas estão feridas e não tiveram oportunidade de se curar.

Precisam entender que não existe um jeito certo ou errado de ser uma pessoa transexual/transgênera.

A palavra policiamento está causando muitos danos. A principal razão para mudar é ser você mesmo — ser único. A linguagem está em constante evolução. Essas pessoas que nos policiam estão simplesmente fazendo a mesma coisa da qual estamos fugindo e tentando mudar.

buck angel

Dito isso, acredito que realmente não é uma “comunidade” neste momento. Quando penso em comunidade, penso em paz e amor, penso em pessoas que surgem como indivíduos e criam um espaço para que todos tenham diferentes pensamentos e maneiras de fazer as coisas, e então nos juntamos em nossa base comum de sermos trans.

Mas isso não significa que tenhamos que ser iguais ou falar exatamente a mesma “linguagem trans”. Isso é o que está dividindo a comunidade. Essa ideia de que somos todos iguais. Isso não é verdade e o motivo pelo qual, na maior parte do tempo, não me sinto parte dessa comunidade. Para mim, a comunidade é a humanidade.

Gostaria de falar sobre a falta de visibilidade que os homens trans têm na sociedade — tanto em geral como também em relação à visibilidade que as mulheres trans receberam historicamente. Como você explica isso? E como lutar contra essa tendência?

A visibilidade cria mudança! Isso é o que mais gosto de dizer. Então, sim, há uma visibilidade maior de mulheres trans e acho que é porque, historicamente, as mulheres têm se assumido há mais tempo, e por isso a visibilidade delas começou antes da nossa.

A outra coisa é que — na minha experiência — os homens trans tendem à transição e apenas querem ser vistos como homens, e não necessariamente como trans. Mas com esse grande movimento das pessoas ‘GNC’, acho que começaremos a ter mais visibilidade nos próximos anos. “Sexing the Transman" criou um espaço de visibilidade para a sexualidade dos homens trans que nunca existiu antes, então espero que possamos continuar a debater mais isso na arena ‘mainstream’ [tradicional].

O que o futuro reserva para Buck Angel? Que legado você gostaria de deixar?

Sabe, quando comecei meu trabalho, apenas queria criar um espaço no mundo pornô que não existia. Fiz isso. Depois veio meu trabalho como ativista e que realmente me fez sentir muito feliz e poderoso, porque comecei a ver a mudança que minha sexualidade estava criando, e pensei como tenho sorte de ser capaz de viajar o mundo e criar mudanças. [O fato] de as pessoas me escreverem e-mails incríveis e dizerem tantas coisas maravilhosas — às vezes choro, porque não pensei que fosse ver isso na minha vida. Para ajudar as pessoas verem como a visibilidade é importante para criar mudanças. Gostaria que meu legado seja tornar possível amar o próprio corpo — mesmo que seja o oposto ao que foi dito pela sociedade. Qualquer coisa é possível.

Confira o Huffington Post Queer Voices para outros artigos sobre importantes personalidades históricas transgêneras. Perdeu as três primeiras entrevistas da série? Saiba mais sobre as conversas que tivemos com CeCe McDonald, Kate Bornstein e Laura Jane Grace.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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