MULHERES
01/02/2016 21:58 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Jennifer Lawrence e o problema com as 'it girls'

DAMON DAHLEN/HUFFINGTON POST/GETTY IMAGES

Nunca fui muito fã de Jennifer Lawrence.

Pode-ser dizer até que, nos últimos anos, com a ascensão meteórica da atriz, tenho desgostado dela ativa e entusiasticamente. Na verdade, tenho algo perigosamente próximo de um ódio irracional, o tipo de ódio irracional que reservamos para celebridades e pessoas que não conhecemos.

Sempre me incomodou a ideia de que alguém seja um “sopro de ar fresco” porque come cachorro quente e gosta de futebol americano. Acho irritante que achem Lawrence “cool”.

Mas percebi que minhas questões com a senhora Lawrence têm pouco a ver com ela e tudo a ver com um cenário de Hollywood tão obcecado com a cultura das “It girls” que as atrizes estão fadadas a sofrer algum tipo de rejeição ou até mesmo a fracassar.

Depois do Globo de Ouro, Lawrence foi criticada por ter sido mal educada com um jornalista estrangeiro, que supostamente estava lendo uma pergunta em seu telefone.

“Você não pode passar a vida atrás do telefone, mano”, repreendeu Lawrence. “Você não pode fazer isso, tem de viver no agora.”

A declaração gerou críticas. Parecia que ela estava tentando ser engraçada, mas nas redes sociais ela foi chamada de insensível e desnecessariamente má. Em vez de ser a menina legal que todos aprendemos a amar, Lawrence estava sendo só uma diva impaciente, sem mais aquela surpresa charmosa de quem ganhou mais um prêmio.

"Jennifer Lawrence criticando um cara por viver atrás de um tela parece burrice para alguém que acabou de ganhar um prêmio por aparecer num filme."


"@Variety Ela está sendo muito... má."


Aparentemente, chegamos a um ponto de saturação com Lawrence. A popularidade dela está lentamente se transformando em superexposição, e a atitude de quem não está nem aí, charmosa no passado, agora parece só convencimento.

Segundo Kevin O’Keefe, da Mic, o momento foi uma espécie de destronamento de Lawrence como “It girl”.

Mas “nada disso é culpa de Lawrence”, acrescenta O’Keefe.

“É assim que Hollywood funciona. As atrizes são o máximo num momento e chatas no próximo. Anne Hathaway, Gwyneth Paltrow e Kate Winslet sabem bem.”

Estranhamente, apesar de nunca ter me importado muito com Lawrence, acho meio horripilante essa aparente inevitabilidade de Hollywood, segundo a qual estrelas como Hathaway, Lindsay Lohan e Gwyneth Paltrow podem perder a atratividade tão facil e arbitrariamente.

Isso não significa que atrizes não façam nada errado, ou que a cultura das celebridades não seja puro consumo e descarte, por definição. Existem motivos para não gostar de Lawrence, afinal de contas, e eles não têm nada a ver com um momento de “falta de educação” ou o quão autenticamente “tranquila” ela parece.

Há as declarações transfóbicas e homofóbicas (ela já se descreveu como “tão sapa” porque agia como menino quando era criança), seus comentários meio insensíveis sobre peso e transtornos alimentares e seu menosprezo das críticas válidas segundo as quais sua personagem Katniss na série Jogos Vorazes foi “amaciada”.

É fascinante como ignoramos a sequência de vezes em que ela falou bobagem, preferindo em vez disso acreditar numa imagem de menina cool – para então ficarmos abismados quando ela é mal educada, como se ser rude é pior que ser homofóbico. Como se for mal educado fosse a pior coisa para uma mulher.

O problema com a maneira como falamos de estrelas como Jennifer Lawrence (antes mesmo de ela começar a “ficar velha demais” – ela tem só 25 anos) é o fato de estarmos tão decididos a que exista só uma. Lawrence sem dúvida tirou proveito do status de “It girl” de maneiras que mulheres mais velhas ou de cor jamais poderiam. Isso tem de ser reconhecido.

Mas, embora eu não dê importância para Lawrence ou para seu trabalho, é frustrante a ideia de que ela tenha de ser destronada para que outra “It girl” roube nossos corações e mentes.

Não é suficiente apenas reconhecer que Hollywood é sexista e joga as mulheres umas contra as outras. O que estamos fazendo para mudar? Por que a conversa sobre a “It girl” sempre se concentra em um elenco rotativo de atrizes brancas, de beleza convencional? Quem diz que elas não podem coexistir e prosperar ao mesmo tempo?

Por que temos de depositar todas nossas esperanças e todos nossos sonhos em uma mulher jovem, branca e magra, sabendo muito bem que cedo ou tarde vamos tirá-la do pedestal?

Os homens têm direito a uma complexidade de que nem sequer Lawrence, com todo seu poder e privilégio, pode desfrutar. Eles podem ser idiotas (veja Tom Hardy) ou sinceros a ponto de serem insuportáveis (veja Joseph Gordon Levitt), ou zoados (veja Robert Downey Jr.) ou superexpostos (veja Chris Pratt). Eles podem existir e prosperar junto com outros astros.

Eles podem ser “It” mesmo depois que os filmes que os transformaram em “It” caiam no esquecimento.

Lawrence respondeu atravessado para um repórter e de repente ela é a inimiga pública número 1. David O’Russell, que costuma colocar Lawrence em seus filmes (em personagens 10 ou 20 anos mais velhas do que ela realmente é), é conhecido por ser difícil, esquentado e por abusar verbalmente de atrizes.

Sua carreira está no auge. Por quê?

Ainda não entendo o apelo de Jennifer Lawrence. Ainda tenho várias questões com o fato de ela simplesmente ignorar seu privilégio. Mas chega de me ressentir com uma persona que foi imposta a ela. Caí na armadilha de direcionar meu ressentimento contra ela, não contra o sistema de Hollywood que sustenta atrizes como Lawrence, ao mesmo tempo ignorando atrizes que, a despeito de charme ou talento, jamais terão o manto de “It girl” por causa de suas raças ou idades.

Essa exclusão poderia ser retificada se resistíssemos ao impulso de rotular todas as atrizes que atingem o estrelato. Há uma razão pela qual esses clichês perdem a graça: mulheres reais têm muito mais nuances e são muito mais interessantes que qualquer arquétipo que tentemos associar à força a elas.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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