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Conheça o Librol: Programa desenvolvido por universitários da Bahia capaz de traduzir textos em português para Libras

31/01/2016 12:55 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Apesar de 5,1% da população brasileira apresentar algum grau de deficiência auditiva, a inclusão para estas pessoas continua baixa. Mesmo com a implantação da Libras (Linguagem Brasileira de Sinais), muitos deficientes auditivos precisam de tradutores para os ajudarem a entender textos, livros didáticos, sites e demais leituras em português.

Mas, se depender dos estudantes baianos Raíra Carvalho, 19, André Ivo, 19, e Jennifer Brito, 21, em pouco tempo, estes deficientes terão mais autonomia com a implantação do Librol -- software capaz de traduzir textos em português para Libras, mas com o diferencial de tradução de texto para texto.

“Ele é o único software que traduz o português para Libras, de texto para texto. Não existe um tradutor que faça este trabalho”, contou Raíra ao HuffPost Brasil, durante a Campus Party. “Quando você faz a tradução por meio de sinais, ele tem apenas a leitura visual, mas na hora de fazer qualquer leitura do português, ele não consegue porque a escrita é muito diferente, e ele precisa de um tradutor. Com o Librol, ele consegue ter mais autonomia.”

Segundo o Censo 2010, do IBGE, cerca de 9,7 milhões de brasileiros possuem deficiência auditiva. Deste total, cerca de 2 milhões possuem deficiência severa e 7,5 milhões apresentam alguma dificuldade. Já a Organização Mundial de Saúde estima que, em 2011, 28 milhões de brasileiros possuíam algum tipo de problema na audição -- o que representava 14,8% da população no ano.

É por meio da Libras que a linguagem da maior parte das crianças surdas evolui, tendo acesso à cultura, conhecimento e integração social. Porém, para elas, aprender a língua escrita não representa apenas mais uma modalidade do idioma (como escrever em português para quem foi alfabetizado em português), mas sim o aprendizado de uma outra língua, com algumas modificações na construção da linguagem de sinais.

“Os deficientes auditivos são alfabetizados em Libras. Eles não sabem o português, são forçados a aprender ler em Libras de um jeito que a gente não entende. A gente acha que eles sabem português, mas é completamente diferente”, comenta a estudante baiana. “Se você der um papel e uma caneta a um surdo, ele vai escrever de uma forma completamente diferente de como escrevemos. A escrita é mais objetiva e rápida, porque não tem como criar um sinal para cada conjugação de verbo, então teria de adaptar isso.”

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Os universitários Raíra Carvalho e André Ivo apresentaram o Librol na Campus Future da Campus Party

Em seu blog, a professora do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade da Saúde da Universidade Metodista de São Paulo, Erika Longone, dá um exemplo sobre a diferença de texto em português e em Libras:

"Em português, na forma oral e escrita, a frase 'O meu sobrinho vai se formar como jornalista em dezembro' ficaria a mesma. No entanto, em Libras, a mesma frase seria escrita: 'Dezembro agora sobrio meu formatura jornalista!'."

Com o Librol, esta formatação do português para a Libras escrita seria possível em apenas um clique: professores e deficientes auditivos poderiam traduzir qualquer texto em instantes, sem a necessidade de um tradutor. “O software configura o texto para o padrão em Libras, como tirar conjunções e deixar todos os verbos no infinitivo. É como se o tradutor tivesse passando para ele os sinais.”, acrescenta Raíra.

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Motivações

Os jovens de Vitória da Conquista, na Bahia, tiveram a ideia de criar um tradutor enquanto ainda estudavam no Instituto Federal da Bahia, no último ano do ensino técnico, em 2013. Na classe, havia um estudante surdo e eles viram a dificuldade do colega para acompanhar as aulas. “A gente observou que ele escrevia de forma diferente e os professores não conseguiam compreendê-lo, assim como ele também não os entendia”, lembra Raíra.

A motivação partiu depois que o estudante desistiu de cursar o último ano no instituto, porque ele não conseguia acompanhar a turma. “Se a gente criasse uma ferramenta universal de tradução, ele e tantos outros alunos se sentiriam mais incluídos. Ele não estaria apenas presente na sala de aula, mas que entendesse as aulas e continuasse na escola.”

Eles então inscreveram o artigo sobre o Librol no Congresso da Sociedade Brasileira de Computação, em Maceió, em 2013. Apesar de conquistar o público e chamar atenção de universidades durante a apresentação, os estudantes não deram continuidade no projeto até o segundo semestre de 2015, quando decidiram retomar o desenvolvimento do software após terem aulas de programação na universidade. Atualmente, todos cursam Engenharia da Computação.

Caminhos para o futuro

O software é apenas o primeiro passo para aumentar a autonomia dos deficientes auditivos. Segundo Raíra, o trio já está desenvolvendo um plug-in do Librol para navegadores, com o objetivo de traduzir para Libras páginas de sites e redes sociais. O próximo passo é levar a tecnologia para smartphones.

“A nossa próxima meta é ter o Librol no sistema operacional Android. Ou seja, o deficiente auditivo que comprar um celular pode escolher idiomas inglês, português ou colocá-lo em Librol e, então, o sistema operacional será traduzido e adaptado para o usuário”, conta a desenvolvedora Raíra, acrescentando que o software e demais programas que estão sendo desenvolvidos serão disponibilizados gratuitamente para deficientes auditivos, educadores e demais interessados.

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