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27/01/2016 17:41 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Para se salvar, indústria automotiva investe na produção de carros que se assemelham a smartphones

Divulgação/Ford

A Ford lançou nesta semana durante a Campus Party a terceira geração do seu sistema de conectividade, o SYNC 3 -- mais rápido, intuitivo e que promete ser um dos caminhos do futuro da indústria automotiva. O novo sistema reconhece a voz do motorista e executa seus comandos, além de ter aplicativos e programas semelhantes aos de seu smartphone ou tablet.

Para reproduzir uma música, por exemplo, basta dizer "tocar " e pronto.

“Como referência de mercado, não fizemos comparativos com os concorrentes do segmento automotivo, mas sim com smartphones e tablets, pois são eles que definem as expectativas dos consumidores”, explicou Caspar Hohage, diretor de Desenvolvimento do Produto da Ford América do Sul, na apresentação na Campus Party.

Mas não é só a Ford que tem concentrado seus esforços, pesquisas e investimentos em carros-smartphones. Em setembro do ano passado, a GM trouxe ao Brasil o sistema de conectividade OnStar, com o qual o motorista é conectado a uma central de atendimento humano que oferece desde pesquisas na internet, GPS, informações sobre trânsito, até assistência mecânica e alerta quando o automóvel está sendo furtado ou se envolveu em um acidente.

“Pesquisas internacionais mostram que os consumidores já consideram os itens tecnológicos do veículo mais relevantes do que a potência do motor”, exemplificou William Bertagni, vice-presidente de engenharia da General Motors América do Sul, na data de lançamento.

O OnStar é o primeiro lançamento nacional da montadora após o anuncio da ampliação de seu plano de investimentos para R$ 13 bilhões no período de 2014 a 2019 no País.

Em 2007, a Fiat, em parceria com a Microsoft, lançou o Blue&Me, programa pelo qual é possível telefonar de um celular, consultar agenda telefônica, escutar músicas em MP3, entre outras funções.

Já a Volkswagen compete com seu sistema de conectividade App Connect, que possibilita acesso aos sistemas CarPlay, da Apple, e o Android Auto, do Google.

Com a ferramenta, é possível exibir a tela do celular na central do carro, transformando-o em uma extensão do seu smartphone.

“Vale lembrar que tanto o Google quanto a Apple trabalharam com as fabricantes de automóveis para mostrar informações na tela que não distraiam o motorista. Portanto, esse sistema não é um simples espelhamento da tela do celular”, acrescentou Gustavo Schiavotelo, engenheiro chefe da área de Engenharia Elétrica da Ford, se referindo aos sistemas da Apple e do Google, que também são compatíveis com o SYNC 3.

sync 3 ford

Tecnologia contra a crise

Enquanto investir em tecnologia e conectividade é uma tendência na indústria automotiva mundial, ao passo que as pesquisas e os primeiros protótipos dos carros autônomos evoluem rapidamente, no Brasil, ela se tornou pivô de uma verdadeira corrida para conquistar maior market share (fatia do mercado, em tradução livre).

"Quando vemos um movimento de declínio tão agressivo como temos presenciado no setor automotivo no Brasil, duas coisas acontecem: administração dentro de casa diante de uma redução de faturamento e uma enorme competição entre montadoras, porque uma das maneiras de minimizar a redução dos lucros é aumentar a participação de mercado", contou Rogerio Goldfarb, vice-presidente de assuntos corporativos da Ford no Brasil.

A grande competição, é claro, tem a ver com a crise não só na economia brasileira, mas também no setor automotivo. Em 2015, foram vendidos 2,57 milhões de automóveis -- uma queda de 26,6% em relação ao ano anterior.

Com o total de venda e produção no ano, segundo o presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Luiz Moan, é como se a indústria voltasse ao patamar de 2007 e 2006, respectivamente.

"Ou seja, tivemos um recuo de oito anos na comercialização. Esse ano não foi positivo, porque as questões políticas influenciaram em demasia a confiança do consumidor e contaminaram a economia de maneira forte."

Nem exportação (e o câmbio mais competitivo) salvou os resultados financeiros das montadoras brasileiras. Em valores, as exportações registraram queda de 8,7% no ano, chegando a US$ 10,4 milhões.

"Apesar de termos vantagem cambial, temos um desafio muito grande de custos. O câmbio ajuda, mas a resposta a este câmbio é mais lenta. Além disso, temos competidores de baixíssimo custo, como Índia, China, Coreia do Sul e outros. O mercado externo está cada vez mais difícil", explicou Rogério, executivo da Ford.

Se os cenários interno e externo não estão na melhor fase, o jeito é investir em algo que, historicamente, chama a atenção dos consumidores: a tecnologia.

"Tecnologia é fundamental para a questão da mobilidade. Se você perguntar tudo ao seu carro sem tirar as mãos do volante e sem tirar os olhos da estrada, com certeza, você vai aproveitar seu tempo no trânsito e ainda ter mais segurança. Isso significa mais facilidade para as pessoas e, para nós, maior competitividade", acrescenta Rogério.

Preço versus inovação

Apesar de a tecnologia ajudar a tornar os carros mais atrativos, ela também traz custos. E, em uma economia já delicada (com inflação, desemprego crescente e mais impostos), como aliar o aumento do preço destes carros conectados com o poder de compra do consumidor atual?

Segundo o executivo da Ford, esse é o principal desafio da montadora atualmente. "Em momento de crise e queda o volume de vendas, equiparar preços com o aumentos dos custos é muito difícil. Estamos operando em um ambiente inflacionário alto, então continuamos perdendo essa corrida em relação aos custos."

Questionado sobre os altos preços dos carros no Brasil, o executivo culpou impostos excessivos e o alto custo de produção. Não faz muito tempo, o HuffPost Brasil explicou por que os carros continuam tão caros, mesmo com vendas estagnadas.

"Balancear os custos com a inovação é o grande desafio. Mas, através dos tempos aprendemos que tecnologia é a solução. Grandes dilemas empresariais a gente resolve com tecnologia e é o que estamos tentando fazer aqui", afirma o vice-presidente.

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