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Retratos de sobreviventes do ebola dão vida às suas histórias

24/01/2016 14:01 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
DANIEL JACK LYONS

ebola

O fotógrafo Daniel Jack Lyons viajou para a África Ocidental em 2015 para documentar a vida dos sobreviventes do Ebola. Hawa Singbeh, um sobrevivente em Gbolakai-Ta, Libéria, recebeu uma câmera para tirar fotos que descrevessem a sua experiência durante o surto da doença.

No meio de um devastador surto de Ebola, no ano passado, um fotógrafo decidiu ir até Serra Leoa e a Libéria para ajudar os sobreviventes da doença a contar as suas próprias histórias.

O fotógrafo, que reside em Nova York, e o pesquisador de direitos humanos Daniel Jack Lyons viajaram para as vilas em Gbolakai-Ta, Libéria, e Rosanda, Serra Leoa, no verão de 2015 sob o pedido da organização sem fins lucrativos International Medical Corps. A meta era documentar o impacto do vírus nessas duas comunidades.

Lyon que tirou suas próprias fotografias, deu aos moradores das vilas câmeras para que eles, também, pudessem compartilhar as suas histórias na sua luta contra o Ebola.

A Organização Mundial da Saúde declarou oficialmente a Libéria livre de Ebola em setembro e Serra Leoa em novembro. O surto, que começou em março de 2014, matou ao menos 11.300 pessoas, relatou o Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

O WorldPost falou com Lyons sobre a sua experiência ao fotografar e pesquisar essas duas comunidades.


sobreviventes do ebola adam e lamin

Os sobreviventes do ebola Adam e Lamin de pé em frente à sua casa em Rosanda, onde 16 pessoas morreram de Ebola.



Por que é tão importante para os sobreviventes do Ebola tirar as suas próprias fotos e contar a sua história?

Eu trabalho como pesquisador de direitos humanos qualitativos além de fotógrafo. Sempre que existe um problema de saúde pública ou de abuso de direitos humanos, eu sou enviado a esse lugar para coletar informação anedótica através de entrevistas e grupos de discussão.

Nos últimos anos, eu venho me especializando em uma metodologia chamada Fotovoz, um método de pesquisa que requer dar às pessoas câmeras para que elas respondam com elas algumas perguntas. Eu começo o processo realizando discussões com os participantes onde eles formulam as perguntas e depois respondem tirando fotos.

A Fotovoz funciona bem para mim como fotógrafo. Sempre que estou em algum lugar, como quando estou numa pequena comunidade, ganhar confiança e ter acesso é geralmente o maior desafio de qualquer fotógrafo.

Para mim, ao fazer um retrato de alguém o importante é estabelecer uma conexão muito íntima com eles antes de mostrar a minha câmera. Conduzir esta metodologia tem sido uma excelente forma de ser aceito pela comunidade, ganhando acesso às minhas próprias intenções fotográficas também.

Trata-se de criar uma organização para comunidades que previamente não tinham muita organização para contar sua própria história.

Esteja onde estiver é realmente importante que as pessoas tenham vivenciado o problema – como o Ebola, neste caso – sejam as mesmas que contam a sua própria história e não uma outra pessoa que vem e observa e depois vai embora. De certa forma, trata-se de criar uma organização para as comunidades que previamente não tinham muita organização para contar a sua própria história.


mulheres rezando

As mulheres rezam por muitos que nunca saíram do mato, onde elas foram enviadas com um pote de medicina caseira e foram orientadas a retornar quando tivessem curadas do vírus.



Quais foram algumas questões que os participantes da Fotovoz perguntaram?

O Ebola parecia ser bem diferente na Libéria do que em Serra Leoa, e consequentemente as questões que eles precisavam lidar em Serra Leoa eram bem diferentes das questões na Libéria.

Quando eu estava em Serra Leoa havia ainda novos casos de Ebola aparecendo. O principal foco dos sobreviventes era fazer com que a sua história saísse de suas comunidades para que eles pudessem espalhar uma mensagem de prevenção. Isso foi fundamental porque muitas comunidades estavam bem desconfiadas dos médicos ocidentais que estavam lá estabelecendo centros de tratamento de Ebola. Muitas pessoas não iam ao centro e foi assim que comunidades inteiras acabaram sendo completamente devastadas.

Então a primeira questão que os sobreviventes em Serra Leoa se perguntavam era "Como eu sobrevivi ao Ebola?"

Depois eu fui para a Libéria, onde a doença estava mais sob controle do que em Serra Leoa. Mas a taxa de resposta de emergências na Libéria era muito mais lenta e existiam comunidades que estavam quase todas em quarentena, sem ninguém nem entrar nem sair.

As pessoas não sabiam em quem confiar e não sabiam o que fazer. Muitos interpretaram que eles mesmos tinham que encontrar uma forma de prevenção, que frequentemente se tratava de dar a alguém um pote de medicina caseira e enviá-los para o mato sem dizer nada até que eles voltassem melhor. Muitos foram para o mato sem jamais voltar. As questões dos liberianos eram relacionadas à sobrevivência.


casca de árvore

JOHN B. SACKIE "Esta é a casca de árvore usada por curandeiros na nossa comunidade para tratar o Ebola. O processo é lavar até que fique bem limpo e depois deixar de molho em água fria por algumas horas. Uma vez que o líquido era extraído, era dado para as pessoas doentes" John B. Sackie, um sobrevivente de Ebola do Gbolakai-Ta, disse a Lyons. "Este tratamento curou muitas pessoas em nossa comunidade".



Como foi a experiência para os sobreviventes do Ebola envolvidos no projeto?

Foi definitivamente uma experiência positiva em Serra Leoa, diferente da Libéria. Em Serra Leoa, as pessoas ficaram bem agradecidas de serem incluídas no processo de prevenção. Até então, as organizações internacionais vinham até essas pequenas comunidades e diziam

"Veja bem, você tem algo chamado Ebola, é assim que você previne", e colocavam pôsteres e faziam um trabalho social. Mas as pessoas realmente não se sentiam incluídas no processo. Elas só estavam recebendo instruções "Você precisa lavar as suas mãos e você precisa fazer isso ou aquilo".

Ter incorporado sobreviventes ao processo de criação de uma mensagem de prevenção, foi algo que eles agradeceram muito. Foi empoderador para os sobreviventes, muitos deles jovens adolescentes. Isso lhes deu um senso de terem adquirido um novo papel em suas comunidades. Isso lhes deu um senso de responsabilidade e empoderamento na sua comunidade ao mostrarem as suas fotos e falarem sobre elas de uma forma que espalha a mensagem de prevenção do Ebola.


vendedora de rosquinhas

"Eu vendo rosquinhas para sobreviver. Você pode ver isso neste pote aqui", disse Hellen Scott, residente de Gbolakai-Ta. "Durante a crise do Ebola e por muito tempo após a crise, ninguém comprava de mim. Isso foi bem difícil para mim financeiramente. Mas depois de um tempo, as pessoas na minha comunidade começaram a comprar rosquinhas novamente. Era um sinal que o estigma e o medo estava passando".



Em Libéria, eles continuaram me agradecendo, diziam, "Ninguém nunca nos pediu para falar contar as nossas histórias". Eu acho que esse foi um componente importante na Libéria porque eles defendiam a ideia de serem considerados sobreviventes da mesma forma que as pessoas que iam aos centros de tratamento eram consideradas sobreviventes. Ninguém nunca parou e nos perguntou, "O que aconteceu na sua comunidade? Fale sobre isso". Ter uma oportunidade para contar a história foi muito importante para eles.

A taxa de resposta nos dois países cada vez que você tem qualquer tipo de resposta emergencial é que as pessoas aparecem e desaparecem em ciclos. Existe muita gente que vem, que veio através de um contrato de um mês ou às vezes até menos do que isso e vários deles são voluntários. É difícil para as pessoas que estão morando lá ver tantas pessoas indo e vindo. É comum que não tenham tempo para perguntar como foi a experiência dos sobreviventes.

Eles continuaram me agradecendo, diziam, "Nunca ninguém nos pediu para contar as nossas histórias".

Quais foram alguns momentos marcantes durante o projeto?

Eu era constantemente lembrado e me espantava com a resiliência das pessoas nesses dois lugares. Existe tanta inovação social nessas comunidades, tanto quanto um senso de comunidade.

Ninguém abandonou ninguém. Mesmo em situações difíceis, as pessoas estavam ajudando seus vizinhos da melhor forma possível, ajudando uns aos outros quando o protocolo dizia "não toque ninguém".

Eu ouvi tantas histórias que demostravam esse nível de resiliência que eu jamais teria considerado ou vivenciado. Isso é algo que me tocou inúmeras vezes.


ebola

Hawa, uma garota da Gbolakai-Ta que sobreviveu o Ebola, pediu para ser fotografada no quarto em que nasceu e quase morreu.



Existem fotos específicas que possuem um significado especial para você?

Existe a foto de uma menina com tinta branca no rosto e ela está de pé em um quarto todo pintado em Gbolakai-Ta, Libéria. Essa garotinha veio até mim e disse, "Nós estamos destruindo a nossa casa hoje. Você tiraria uma minha foto dentro dela antes de partirmos?

Seus irmãos, irmãs e pais moravam em uma casa de um dormitório. Ela disse que tinha Ebola e foi orientada a ir para o mato. Seu irmão e sua irmã não sobreviveram, mas ela sim. Ela voltou do mato, reuniu-se com sua mãe e seu pai e eles se mudaram para uma casa muito maior onde uma outra pessoa havia morrido.

Ela disse: "Esse foi o quarto onde nasci. Quando eu saí daqui, jamais pensei que veria esse quarto novamente. Esse era o quarto onde eu quase morri. Significa muito para mim ser fotografada aqui antes da mundanã".

Quando eu olho essa foto, eu sempre me lembro desse momento.


esther e kadiatu

Esther e Kadiatu protegem a fronteira da sua vila de Rosanda, em Serra Leoa.



Existe uma outra foto que eu também gosto muito. Durante o Ebola, parte do protocolo de qualquer comunidade que tinha vários casos era fazer uma quarentena. O protocolo não permitia que ninguém que não fosse residente viesse para a comunidade. Em muitos vilarejos no meio da floresta, as pessoas poderiam entrar por múltiplos caminhos – não existiam paredes pela cidade.

Existe uma foto particular de duas mulheres de Serra Leoa e elas estavam de pé em uma das entradas de seu vilarejo. Você não conseguia nem perceber que era uma trilha – estava na floresta, com bananeiras por todos os lados – e elas simplesmente estavam ali de pé.

É uma coisa tão surreal ver essas mulheres tão poderosas. Ninguém queria mexer com elas.

O que você acha que fica perdido quando a mídia fala sobre os sobreviventes do Ebola?

Eu acho que em vários relatórios que eu tenho lido a narrativa é sobre a vitimização e realmente se trata das pessoas vítimas do Ebola. Parte do que eu gostaria de destacar nas minhas próprias fotos, seja com sobreviventes do Ebola ou de Fukushima, é focar no senso de empoderamento. Quando eu fotografo as pessoas, eu gosto de trazer para fora o que há de melhor nelas. De fato, boa parte do meu trabalho, relacionado aos direitos humanos, foca nos sobreviventes.

Para cada história triste poderia existir igualmente uma história empoderadora de alguém que atravessou grandes distâncias para proteger a sua família, eles mesmos ou a sua comunidade.

O significado invertido de sobrevivente poderia ser vítima, mas eu acho que a mídia que eu vi perdeu a chance de capturar a perseverança e a resiliência das pessoas que estão superando este obstáculo enorme – um vírus letal. Para cada história triste, poderia existir uma história igualmente empoderadora de alguém que atravessou grandes distâncias para proteger a sua família, eles mesmos e a sua comunidade.

Esta entrevista foi editada e condensada por motivos de clareza.

Veja mais fotos dos sobreviventes do Ebola e suas histórias abaixo.

  • Daniel Jack Lyons
    "Quando alguém que morava no complexo de Rosanda morreu de Ebola, Eisha levou os seus filhos para uma fazenda a 10 quilômetros dali, onde eles acamparam por três meses até que a epidemia estivesse sob controle na vila", escreveu Lyons.
  • Daniel Jack Lyons
    Esta anciã do vilarejo era a líder na época da crise, defendendo as pessoas que buscavam tratamentos ao mostrarem qualquer sinal de Ebola.
  • Daniel Jack Lyons
    Elvis B. Mokholo foi o único de cinco irmãos que sobreviveu ao Ebola.
  • Daniel Jack Lyons
    Este poço em Rosanda foi doado e instalado durante o auge da crise para incentivar os moradores da vila a lavarem as suas mãos. Foi o primeiro poço da vila.
  • Daniel Jack Lyons
    "No auge da epidemia, as pessoas não tinham como se congregar devido à natureza contagiosa da doença", escreveu Lyons. "Essa foto foi o primeiro casamento realizado em sete meses no distrito de Makeni, Serra Leoa".
  • Daniel Jack Lyons
    O cemitério para as vítimas do Ebola no distrito de Makeni, em Serra Leoa, tem mais de 600 covas.
  • Hawa Singbeh
    "Antes da crise nós tínhamos como costume comer juntos. As crianças da vizinhança próxima se aproximavam para ajudar a preparar uma enorme quantidade de comida que nós então comíamos como comunidade.

    Desde a crise, as pessoas não fazem mais isso, não tanto quanto faziam antigamente. Existe ainda muita divisão dentro da nossa comunidade desde que teve início a crise do Ebola " Hawa Singbeh, de Gbolakai-Ta, disse.

    "É por isso que eu preparei uma enorme refeição para todos nós, para demonstrar que nós podemos voltar aos nossos costumes habituais e podemos comer todos juntos novamente. Essa é outra forma que nós podemos superar o estigma em nossa comunidade".
  • Daniel Jack Lyons
    Irmãs sobreviventes em Rosanda, Serra Leoa.




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