ENTRETENIMENTO

O papel polêmico que ninguém quer que Beyoncé interprete

24/01/2016 13:34 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Montagem/Wikimedia

Há uma grande questão sobre a qual ninguém está falando...

No início do mês, circulou a notícia de que Beyoncé planejava escrever, dirigir e estrelar um filme sobre a vida de Saartjie “Sarah” Baartman. A reação foi imediata e furiosa.

Menos de um dia depois dos rumores, o representante da cantora disse à revista Bilboard que “Beyoncé, de maneira alguma, está vinculada a esse projeto. No entanto, é uma história importante que precisa ser contada”.

Não está claro, no entanto, se as duras críticas abafaram o projeto da cantora; no entanto, a polêmica despertou um debate significativo. Para entender a controvérsia, temos de entender quem era Baartman, e, por último, quem Beyoncé não é.

venus hotentote

Antes do hino de exaltação das curvas Bootylicious (algo como “bumbum delicioso”) do grupo Destiny’s Child, existiu Baartman, uma mulher nascida na África do Sul, vista como uma aberração na Europa do século 19 por seu físico “exótico”, com grandes nádegas, que eram exibidas em freak shows em Londres e Paris.

Conhecida como Venus Hotentote no palco, Baartman representou a visão da Europa sobre os africanos, como sexualmente primitivos e racialmente inferiores.

Quando tomei conhecimento sobre o projeto de Beyoncé fiquei chocada. Por um lado, a história pessoalmente trágica e significativa de Baartman merece ser contada.

Mas, uma estrela pop, mesmo do porte de Beyoncé, seria a pessoa certa para contá-la?

A resposta parece ser um sonoro “não”, principalmente de Jean Burgess, da organização Ghonaqua First Peoples, que representa povos originários da África do Sul:

“Ela não tem a dignidade humana básica para escrever a história de Sarah, muito menos interpretar o papel”, disse Burgess, em entrevista ao site News24. “Por que Sarah Baartman? Por que não uma mulher indígena norte-americana? Só posso ver arrogância em sua tentativa de contar uma história que não é sua.”

Concordo que essa narrativa, que está tão arraigada na história e legado da África do Sul, mereça a nuance e discernimento que apenas um sul-africano seria capaz de proporcionar. Mas, além da compreensão cultural que Beyoncé pode ou não ter, minha preocupação sobre a cantora interpretar Baartman é esta: Beyoncé não se parece nem um pouco com ela.

Isso pode parecer superficial, mas Baartman foi uma mulher violada, abominada e, em última instância, arruinada devido à sua aparência, e ver Beyoncé interpretando esse papel não seria apenas problemático, mas, também, um insulto à memória de Baartman.

Se Beyoncé, de pele clara e com curvas aceitáveis socialmente, realmente tivesse ido em frente com esse projeto, ela também roubaria o papel de uma atriz sul-africana com um certo tipo de corpo e aparência, com poucas oportunidades de atuação.

Caso Beyoncé tivesse de fato decidido prosseguir com esse projeto, ela teria se juntado a uma série de escolhas de elenco desconcertantes recentes, como Idris Elba interpretando Nelson Mandela em “O Caminho para a Liberdade”, e Zoe Saldana como Nina Simone, em “Nina”.

Por mais que esses atores sejam talentosos, ficaria aliviada se Beyoncé não entrasse tão cedo para esse clube da “Calçada da Vergonha” dos fracassos biográficos.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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