ENTRETENIMENTO

George R.R. Martin e seus fãs precisam parar de se azucrinar

22/01/2016 22:02 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
JEFF KRAVITZ VIA GETTY IMAGES

George R.R. Martin e seus fãs devem ser o que existe de mais próximo a um casal de revista de fofocas, mas no mundo dos livros. Em um dia, estão grudados; no outro, estão trocando farpas veladas através da mídia a respeito da falta de ética de trabalho dele e dos direitos gananciosos deles.

Tudo isso foi esquecido no começo de janeiro, num tipo de orgia do perdão e gratidão que tipicamente acontece após um iminente rompimento.

Martin anunciou, em um longo e doloroso post em seu blog, que havia perdido o prazo para finalizar The Winds of Winter ("os ventos do inverno", em português), o próximo livro de As Crônicas de Gelo e Fogo — a série de livros de fantasia na qual o programa da HBO Game of Thrones é baseado —, e que não sabia quando conseguiria mandá-lo à editora.

O autor, com certeza, havia se preparado para uma onda de fúria de seus leitores, especialmente tendo em conta as circunstâncias: a publicação do livro agora será adiada para depois da estreia da próxima temporada de Game of Thrones e, como esta temporada será baseada em The Winds of Winter, os leitores provavelmente verão alguns pontos da trama do novo livro revelados pela própria série.

No entanto, Martin declarou que recebeu enorme apoio. Os fãs comentaram no blog do autor: “Leve o tempo que quiser, sir” e “termine quando estiver pronto”, segundo informações do Guardian.

A reação positiva, disse Martin, “foi surpreendente” — uma avaliação que qualquer observador de seu relacionamento conturbado com os fãs assinaria embaixo.

Durante anos, seus leitores têm criticado o escritor, que permite ser visto fora de casa quando deveria, na opinião dos fãs, estar trabalhando incessantemente no próximo capítulo da série.

O frenesi causado pelo atraso na entrega de seus livros — os leitores se preocupam com a possibilidade de que o autor morra antes de terminar a série, ou que não termine seu próximo livro a tempo porque foi para a estreia de um programa — se tornou quase uma piada a essa altura.

É interessante ver as hordas salivantes dos fãs de Game of Thrones mostrarem seu lado humano para o homem que os proporcionou tanta alegria; um pequeno milagre de Ano Novo.

Mas, vamos cair na real, os fãs não são os únicos culpados no quesito controle de comportamento nesse jogo. Embora tenham se intrometido e exigido que Martin voltasse a escrever sobre Starks e Lannisters, o autor também tem se intrometido e exigido que os fãs parem de escrever sobre eles. Ou seja, Martin recriminou os leitores pelo crime de escrever fan fictions (ficção amadora escrita por fãs) – repetidamente.

“É uma atitude preguiçosa quando vocês simplesmente se apropriam dos meus personagens”, anunciou em um evento em Brisbane, na Austrália, em 2013. Em um post no LiveJournal, de 2010, ele foi ainda mais direto: “Meus personagens são meus filhos’... Não quero que as pessoas os roubem de mim, obrigado. Mesmo as pessoas que dizem que amam meus filhos. Ninguém tem o direito de abusar das pessoas de Westeros, exceto eu”.

Escritores desde Lev Grossman a Elizabeth Minkel têm discutido e defendido a arte da ficção de fãs, mesmo sob o ataque de autores poderosos, como Martin.

É importante notar que, embora Martin critique a preguiça artística da abordagem, a ficção de fãs é geralmente uma arte recreativa para superfãs, ou um campo propício para o treinamento de jovens artistas; mesmo se todos os autores aspirantes começassem a inventar seus próprios personagens como Martin sugere, ainda assim existiram as hordas de fãs que simplesmente querem imaginar suas rainhas e guerreiros favoritos em novas histórias.

E os riscos nem devem ser tão grandes, quando autores como Martin, J.K. Rowling e até mesmo Stephenie Meyer ainda estão fazendo tanto sucesso.

Meyer pode ser a autora com mais motivos para reclamar, mas ela mesma se baseou muito em figuras de linguagem literárias rasas para criar personagens sem graça, dificilmente reconhecíveis nos renomeados, não vampíricos Christian e Anastasia de Cinquenta Tons de Cinza, que tecnicamente surgiram no Crepúsculo da ficção de fãs.

Também vale a pena destacar que, apesar do argumento de Martin de que a ficção de fãs antes designava o gênero fanfics publicado em fanzines, e que “a Internet mudou tudo”, talvez a tradição literária mais antiga seja a apropriação e reutilização de personagens e narrativas. Para citar apenas um exemplo óbvio, praticamente quase todas peças de Shakespeare se basearam diretamente em uma história já existente.

A posse legal dos personagens fictícios, no entanto, é um conceito relativamente moderno.

A lei está do lado de Martin nessa história, especialmente na questão do lucro: os autores de ficção de fãs não podem escrever suas próprias versões de The Winds of Winter e publicar cada cópia por US$ 15,99 (cerca de R$ 66). Mas, depois que publica seus livros, o autor não pode controlar o que as pessoas pensam e sonham sobre eles.

Seus personagens podem ser como filhos, mas, ao publicar suas histórias, o autor também está dando um tácito consentimento a milhões de leitores para desenvolver estreitos laços com aqueles personagens. Uma vez que solta seus personagens no mundo, não pertencem mais ao autor.

Na mesma linha, Martin não pertence aos seus fãs. Ele não é moralmente obrigado a entregar novos livros dentro do prazo, e, como os leitores devem ter percebido com esse último rebuliço, essa panela de pressão também não é propícia para uma leitura de alta qualidade.

Ele é um ser criativo, não uma máquina com prazo de entrega, e seus leitores podem querer rapidez e qualidade, mas não podem exigir nem uma nem outra.

A Internet pode ter criado um problema para Martin: com tantas linhas de comunicação direta com e entre os fãs, é mais difícil do que nunca simplesmente ignorar a ficção de fãs e a oobra de arte do autor, as críticas sobre seu ritmo e a teorização febril sobre suas séries.

Martin pode não querer ouvir isso, claro, mas a ficção de fãs pode ser seu melhor amigo durante essas prolongadas e sitiadas esperas. Nada alivia mais a espera por um novo capítulo do que uma boa farra de fanfic, ou se envolver na própria fantasia sobre o que acontecerá em Westeros.

Não é um substituto para The Winds of Winter, mas mantém os leitores pensando e falando sobre algo, em vez de como ficaram enraivecidos ao ver Martin em uma convenção, quando queriam que ele estivesse terminando um rascunho.

Aqui está uma resolução de Ano Novo para George R. R. Martin e seus fãs: respirem bem, bem fundo, e parem de se azucrinar. Prometo, vocês serão mais felizes no final.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- 'Game of Thrones': HBO anuncia data de estreia da 6ª temporada

- 7 coisas que você pode fazer antes da 6ª temporada de 'Game of Thrones'

- 'Game of Thrones': Segundo teoria, Jon Snow é irmão gêmeo de outro personagem

Também no HuffPost Brasil:

Game Of Thrones 5ª Temporada: Os momentos mais marcantes


SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: