MUNDO

Islamofobia é crime! Estes são os muçulmanos que vivem, trabalham e oram nas mesquitas dos EUA

21/01/2016 19:49 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

menina acompanha seu pai nas orações

Numa pesquisa desanimadora da Public Policy Polling divulgada recentemente, 54% dos entrevistados se disseram a favor de que muçulmanos sejam proibidos de entrar nos Estados Unidos. Além disso, 30% dos eleitores republicanos nas primárias e 19% dos democratas se disseram a favor do bombardeio de uma área conhecida como Agrabah.

Diante dos sentimentos antimuçulmanos denunciados em todo o país, esses números são preocupantes. Mas quando pensamos que, como bem sabem os fãs da Disney, Agrabah é um país fictício em Aladim, eles são absurdos.

“Entendo a necessidade de segurança”, o fotógrafo Robert Gerhardt explicou ao HuffPost. “Entendo a necessidade de prevenir ataques aqui nos EUA e no mundo em geral. Mas essas cifras obtidas pelas pesquisas revelam quanto ódio existe contra muçulmanos.”

Gerhardt é o artista responsável pelo projeto de documentário “Muslim/American, American/Muslim, no qual ele trabalha desde 2010.


mulheres numa aula aprendem sobre a viagem do hajj

Mulheres aprendem sobre a viagem do Hajj. Centro Islâmico de Oklahoma, 2015



Nascido na Geórgia e criado na Pensilvânia, ele começou a trabalhar com a série de fotos em preto e branco feitas no interior e em volta de mesquitas em todo o país depois de observar uma onda semelhante de preconceito contra muçulmanos, cinco anos atrás. Na época, a onda começou como reação contra uma proposta de converter um convento em Staten Island em uma mesquita e centro comunitário.

Para Gerhardt, a reação antimuçulmana fez parte de um fenômeno mais amplo: comunidades muçulmanas na Califórnia, Wisconsin, Tennessee e Flórida estavam sendo alvos de semelhante repúdio público injusto. Seu objetivo inicial foi “procurar compreender e documentar a intersecção entre ‘muçulmano’ e ‘americano’”, fazendo fotos no Brooklyn na primeira noite do Ramadã em 2010. Hoje Gerhardt continua a fazer fotos em várias cidades dos Estados Unidos, na esperança de incentivar “um diálogo entre muçulmanos e não muçulmanos na América, visando apagar os limites que promovem a visão de ‘eles’ e começar a fomentar uma visão de ‘nós’.”

Enquanto os americanos choram os mortos em San Bernardino, Califórnia, e a perpetuação da intolerância em Staunton, Virgínia, o projeto de documentário de Gerhardt continua tão relevante quanto nunca. Procuramos o artista para conversar sobre a evolução de sua série fotográfica.


ouvindo o imã_ dar alhijrah_ fall

Ouvindo o imã, Dar Al-Hijrah, Falls Church, Virgínia 2013



Você iniciou seu projeto depois de observar a controvérsia em torno da proposta de construção de uma mesquita e centro comunitário em Staten Island, em 2010. Cinco anos mais tarde, seu projeto parece igualmente relevante. Como o projeto mudou ao longo do tempo?

Quando iniciei o projeto, a intenção era que fosse não apenas um documentário – sobre uma mesquita e uma comunidade no Brooklyn, onde passei o primeiro ano do trabalho --, mas também uma aprendizagem para mim. Antes de iniciar o trabalho, os únicos americanos muçulmanos que eu conhecia eram os motoristas dos táxis em que eu andava de vez em quanto e os sujeitos de quem eu comprava meu café pela manhã.

À medida que foi crescendo a polêmica em torno da mesquita proposta em Staten Island, percebi que muito do medo que as pessoas estavam expressando era o medo do que achavam que estava acontecendo nas mesquitas. Mas ninguém parecia ter passado muito tempo com a população muçulmana americana, nem passado tempo numa mesquita, para saber o que estava acontecendo.

Então resolvi que eu, como fotógrafo e pessoa curiosa, investigaria pessoalmente a história das comunidades muçulmanas americanas.


mulheres orando

Mulheres orando, Escola Mercy, Edmond, Oklahoma 2015



Os objetivos do projeto mudaram ao longo do tempo?

Não sei ao certo se mudaram, mas se ampliaram. Comecei cobrindo apenas uma comunidade no Brooklyn. Mas quando essa primeira parte estava concluída, percebi que uma comunidade apenas não contaria a história por inteiro. Então comecei a visitar outras, não apenas em Nova York mas em todo o país, com a esperança de mostrar ao público a diversidade da população muçulmana americana.

À medida que cresceu a reação negativa contra populações muçulmanas devido à proposta construção da mesquita em Staten Island, meu trabalho também se ampliou. E ainda não terminou. Continuo a viajar e fazer fotos para o projeto. Meu objetivo é cobrir as populações muçulmanas americanas, não necessariamente em todos os Estados, mas em todas as diferentes regiões do país.


jogador de basquete no parque

Menino joga basquete no parque, Brooklyn, Nova York 2011



Como você vê a cobertura recente dos muçulmanos americanos na mídia e a discussão mais ampla sobre o terror e a intolerância que vem sendo travada na grande mídia?

Acho que a resposta mais simples é: fiquei chocado. Não sou ingênuo a ponto de pensar que o racismo não exista mais no país. Mas o fato de que a intolerância parece beneficiar a posição dos políticos nas sondagens de intenção de votos é chocante.

As pessoas têm medo inerente das coisas que não compreendem ou que são diferentes daquilo que elas conhecem. A guerra global contra o terror desde o 11 de setembro, a ascensão do Daesh (Estado Islâmico), os ataques em Paris, o ataque na Califórnia e outros ataques terroristas pelo mundo afora, tudo isso reforça o medo das pessoas.

O problema é que as pessoas começam a notar as ações de alguns poucos e então as projetam sobre o resto da população. No caso aqui, sobre a população muçulmana. A cobertura constante na nossa grande mídia aqui nos EUA, o jeito como a mídia cobre os fatos neste ciclo noticioso 24 horas por dia – acho que isso realmente permite que as pessoas vejam o quadro mais geral e o entendam. O caso dos refugiados sírios é apenas mais um exemplo.

Muita gente quer impedi-los de vir para os Estados Unidos, sendo que os próprios refugiados só querem escapar de pessoas de quem os americanos têm medo.

A virulência dos ataques contra a população muçulmana americana é de partir o coração. Quando você tem cidadãos armados comparecendo diante de mesquitas, pessoas pixando alusões a Jesus nas paredes de mesquitas, símbolos nazistas pixados sobre cafés, muçulmanos sendo agredidos enquanto estão orando e homens e mulheres muçulmanos sendo agredidos fisicamente e com palavrões, não é mais uma simples discussão sobre intolerância. São crimes de ódio contra muçulmanos.


policial

Policial do trânsito de Nova York fazendo suas orações, Parque 51, Manhattan, Nova York 2012



Hoje, por mais que muita gente diga que esses ataques são errados, políticos destacados parecem estar alimentando o ódio, em vez de trabalhar para preveni-lo.

Você nasceu na Geórgia mas cresceu na Pensilvânia. Sua própria criação e sua experiência com a identidade americana influem sobre o projeto, e se sim, de que maneira?

Minha criação influenciou meu projeto, sim. Quanto à Geórgia, meu pai passou alguns anos no Exército. Eu nasci nesse Estado, mas quando tinha 2 anos minha família voltou para a Pensilvânia, que é o Estado do meu pai e minha mãe. Não me lembro de nada da Geórgia.

Cresci num subúrbio de Filadélfia. Sou o mais velho de cinco filhos. Meu pai era médico (ele está aposentado agora), nefrologista, num hospital respeitado no centro de Filadélfia. Minha mãe é enfermeira, mas ela não trabalhava quando eu era criança. Quando eu era pequeno, meus pais nos expunham – a mim e a meus irmãos – a muitas coisas, não apenas em Filadélfia e Nova York, mas também em viagens ao exterior. Eu costumava visitar o departamento do meu pai no hospital, e mais tarde passei dois verões trabalhando lá como office boy.


meninas lendo

Meninas lendo em sala de aula, Escola Aqsa, Bridgeview, Illinois 2012



Fiz o secundário na escola jesuíta St. Joseph’s Preparatory, em Filadélfia. Ali, ao lado das aulas normais, os jesuítas nos transmitiam a ideia de prestar serviços aos outros. Fiz sociologia na faculdade, com ênfase em antropologia e história da arte. Foi lá que me apaixonei pela fotografia, no primeiro ano.

Tudo isso alimentou meu interesse pelo mundo que me cerca e pelas pessoas em geral. Minha experiência com a identidade americana é um pouco mais complicada. Não sei ao certo como ela influiu sobre este projeto. Tirando o fato de que os muçulmanos americanos são tanto americanos quanto muçulmanos e que eu vejo a história deles como parte da história americana mais ampla. A história dos muçulmanos neste país vem de tão longe quanto o próprio país. Meu olhar sobre a América em geral é um projeto separado, intitulado “Drive Safely” (Dirija com Segurança).

Como você conhece as pessoas que vai fotografar?

Quando estou viajando, geralmente pesquiso para ver se há uma mesquita na região. Entro em contato com a mesquita para ver se posso visitá-la e fazer fotos. Em todo o tempo que estou fazendo este trabalho, nenhuma comunidade jamais me rejeitou. Sempre fui recebido de braços abertos em todas elas. Quando há exposições de meu trabalho, sempre convido a população muçulmana local da mesma maneira.

Que tipo de troca de ideias acontece durante uma sessão de fotos?

As trocas de ideias geralmente acontecem do modo normal. Vou à mesquita um pouco antes da hora das orações para conversar com o imã local e os líderes da mesquita (se estiverem presentes), para me apresentar e falar um pouco do que estou fazendo. Então começo a fotografar.

Geralmente alguns membros da comunidade vêm puxar conversa comigo, mais por curiosidade que qualquer outra coisa. Em alguns casos, membros da comunidade me levam para conhecer o lugar. Um senhor mais velho numa mesquita no bairro de Parkchester, no Bronx, insistiu em me levar para tomar chá e comer doces depois das orações.

No Centro Islâmico de Greater Oklahoma City, o imã Imad Enchassi passou dois dias comigo me levando para conhecer outras mesquitas e uma escola na área, além de me levar para comer em um dos melhores restaurantes paquistaneses que já conheci.

E eu continuo em contato com todas as comunidades que já fotografei. Sempre que o trabalho é exposto ou que alguma coisa é publicada sobre o trabalho, mando um e-mail a todas elas para lhes informar.

Você já sentiu alguma reação negativa ao seu trabalho? Alguma vez as pessoas que você pretendia fotografar hesitaram em trabalhar com você ou manifestaram hesitação em relação ao projeto como um todo?

Nunca senti nenhuma reação negativa das pessoas que fotografo. Quando apareço numa mesquita onde nunca antes estive, as pessoas ficam curiosas para saber por que estou ali com minhas câmeras. Geralmente me fazem perguntas sobre o projeto, sobre o que pretendo fazer e onde as fotos serão usadas. Mas depois disso e de conversar um pouco, as pessoas tendem a ficar descontraídas comigo.

Acho que às vezes é mais importante passar algum tempo conversando com as pessoas, falando um pouco de mim mesmo, ouvindo o que as pessoas têm a me dizer e ouvindo seus relatos, mais do que apenas ficar clicando. Deixo as crianças olhar minhas câmeras, já que elas sempre ficam fascinadas com isso. Já joguei basquete com alguns dos adolescentes que conheci. Outros me ensinaram a jogar críquete no parque e riram muito porque eu sou tão ruim.

Quando você passa um tempinho com as pessoas dessa maneira, elas tendem a se soltar, e no fim você faz fotos melhores.

Mas tive reações negativas de pessoas de fora da população muçulmana americana. Algumas vezes, quando meu trabalho foi publicado em blogs ou quando uma exposição foi anunciada online, algumas pessoas escreveram comentários críticos, geralmente sob a forma de declarações racistas.

Numa declaração em seu site na Internet você escreveu: “Para mim, ser fotógrafo é mais do que apenas fazer fotos do que vejo à minha frente”. Explique um pouco mais, por favor, o que você acha do papel do fotógrafo, extrapolando a arte.

Para mim, o verdadeiro poder da fotografia está em sua capacidade de contar histórias e mostrar às pessoas coisas que de outro modo elas talvez nunca vissem. Sei que fotos nunca vão levar um espectador a ter uma epifania, mas se levarem as pessoas a refletir ou a lançar um debate, essa é a meta do meu trabalho.

Tampouco acredito que haja uma diferença entre ser fotógrafo artístico ou não. Se existe uma divisão entre fotografia artística ou não artística, ela é confusa. Tudo depende de se e como o fotógrafo se situa em um ou outro lado dessa divisória.

Mas há conjuntos diferentes de regras. Como fotógrafo documental, qualquer tipo de edição da foto equivale a uma falsificação. Pode ser preparar uma tomada, combinar elementos de mais de uma foto ou cortar alguma coisa da imagem – nada disso é permitido. Já no mundo da fotografia artística, tudo isso é aceitável para você transmitir sua mensagem. E isso não é problema para mim. Desde que você não tente fazer uma coisa passar por outra.

Mas acho que o trabalho documental também pode estar incluído no mundo da arte, e está. Embora os sujeitos de alguns projetos documentais não sejam fáceis de se olhar, podem ser altamente artísticos, dependendo de como o fotógrafo capta o que vê. É isso que faz a melhor fotografia documental ser tão poderosa: ela transita nos dois mundos.

Você acha que todos os artistas, além de você, deveriam ter uma responsabilidade maior com seu trabalho?

Essa pergunta eu só posso responder desde meu próprio ponto de vista. Não falo pelo mundo da arte em geral ou da fotografia em geral. Eu, pessoalmente, acredito que os melhores trabalhos de arte precisam, sim, ser mais do que apenas algo bonito para pendurar na parede. A arte possui o poder de fazer as pessoas pensar, sentir e questionar, quer isso seja ou não apenas uma reação emocional. Quando você olha uma obra de Manet, Pollock, Rodin ou Otto Dix, todos possuem esse poder.

Ao mesmo tempo, não estou muito interessado na maior parte da arte contemporânea. Quando ando em Chelsea ou passo por galerias em outras partes de Nova York, pouco do que vejo pelas janelas das galerias me dá vontade de entrar para olhar mais de perto, mesmo que seja fotografia.

Não me faz sentir nada. Só porque um artista consegue vender seu trabalho por muito dinheiro ou consegue espaço numa galeria, isso não faz diferença para mim. Tenho mestrado em Belas-Artes e sei falar da teoria da arte, mas, se um trabalho é baseado apenas em alguma teoria obscura, não desperta meu interesse. Outras pessoas podem se sentir atraídas por essa arte de maneiras que eu não me sinto, e eu compreendo isso.

Essa é apenas a minha experiência. Sei que outras pessoas terão reações diferentes ao que veem. E sei que muitas pessoas vão discordar comigo em relação à arte contemporânea. Mas penso realmente que a arte precisa transmitir algo mais do que apenas uma teoria tirada de um livro de arte.

Trabalhando no campo da fotografia documental, você busca inspiração em fotógrafos passados?

Há muitos fotógrafos cujo trabalho inspira e influencia o meu. Penso que qualquer fotógrafo não apenas deve conhecer a história da fotografia, como deve estudar o trabalho de seus contemporâneos e antecessores.

Minhas duas maiores influências são Robert Frank e W. Eugene Smith. The Americans, de Frank, foi um dos primeiros livros de fotografia que me deixou maravilhado. O trabalho de W. Eugene Smith para a revista Life, seu projeto sobre Pittsburgh e seu livro Minimata são algumas das maiores fotorreportagens já feitas.

A coisa mais importante que aprendi com eles dois é a ideia de que as grandes fotorreportagens não são feitas em pouco tempo mas ao longo de semanas, meses ou até anos. Quanto mais tempo você passa com um projeto e quanto mais tempo passa com as pessoas que vai fotografar, mais as pessoas se abrem para você, e isso, por sua vez, lhe permite acessar momentos que de outro modo jamais poderia ver.


  • ROBERT GERHARDT
    Intervalo rápido durante partida de basquete, Brooklyn, Nova York 2011
  • ROBERT GERHARDT
    Mulheres em aula, Escola Aqsa, Bridgeview, Illinois 2012
  • ROBERT GERHARDT
    Refugiado muçulmano em casa, Fort Wayne, Indiana 2011
  • ROBERT GERHARDT
    Homem orando ao lado de seu carrinho de comida halal, Baixo Manhattan
  • ROBERT GERHARDT
    Rapaz estudando o Corão no trem Uptown 6, Manhattan, Nova York 2014
  • ROBERT GERHARDT
    Crianças assistindo ao desenho “Arthur” enquanto almoçam, Escola Mercy, Edmond, Oklahoma 2015



SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: