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Como a taxa básica de juros a 14,25% impacta negativamente sua vida

21/01/2016 09:07 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Thiago Correa Nori via Getty Images
Brazilian currency over the Newspaper with graphic. Economia brasileira com moeda em close de 1 Real sobre grA!fico.

Surpreendendo o mercado, a Selic, taxa básica de juros, foi mantida a 14,25% ao ano pelo Banco Central na noite desta quarta-feira (20).

Até então, o mercado apostava em uma alta entre 0,25 e 0,50 ponto percentual, uma vez que o presidente do BC, Alexandre Tombini, deixou claro na última ata do Copom (Comitê da Política Monetária) que a prioridade seria continuar aumentando os juros.

Porém, na última terça-feira, Tombini divulgou uma nota mostrando preocupação com o relatório "Perspectiva Econômica Global", do FMI (Fundo Monetário Internacional), que piorou a perspectiva de contração da atividade econômica brasileira em 2016, sem ver mais retomada do crescimento em 2017. Para o mercado financeiro, esse foi um sinal de mudança nas decisões do BC de continuar aumentando a Selic para conter a inflação.

Mas, afinal, como a taxa básica de juros influencia na minha, sua, nossas vidas?

A maioria das pessoas atrela a alta da Selic apenas aos juros mais caros do cartão e do cheque especial. Mas, segundo o conselheiro do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP) Ricardo Tadeu Martins, economista-chefe da corretora Planner, a Selic elevada impacta muito mais nossas vidas do que imaginamos.

"Juros altos mostram que alguma coisa na economia não está bem."

Primeiramente, a taxa básica de juros nada mais é que uma referência para os variados tipos de crédito que existem no mercado, seja o praticado no comércio, o empréstimo bancário, financiamento de casas e carros, de cartão de crédito, e assim vai.

Se a Selic aumenta, o custo de todos esses empréstimos tende a aumentar. "Como ela é referência, ela desencadeia uma série de ajustes da vida econômica do País e dos mercados financeiros."

Por que os juros não param de subir?

A Selic é a principal ferramenta do BC para conter a inflação, que fechou 2015 a 10,67%. A ideia é diminuir o consumo, e consequentemente tentar igualar a demanda com a oferta, por meio do encarecimento do crédito.

Com a subida dos juros, as pessoas vão pensar duas vezes antes de contrair uma dívida, por exemplo.

A estratégia, no entanto, é bastante contestada por economistas, que defendem que a alta dos juros estagna a economia brasileira, ao inibir o investimento na "economia real", dificultar o crédito para empresas e, como consequência, aumentar o desemprego no País.

O conselheiro da Corecon explica que o aumento da taxa básica de juros deixa os títulos públicos com rentabilidade indexada à Selic mais atrativos.

"O empresário ou investidor prefere aplicar seu dinheiro em títulos públicos, que são um investimento seguro, a investir na economia real, em novos projetos, na ampliação da produção, em novas máquinas", explica Ricardo. "Se ele está desestimulando a produção, vai ter menos produto disponível no mercado e o preço tende a aumentar. O consumidor pode pagar um preço mais elevado à vista ou parcelar, o que ficará muito mais caro."

O aumento do preço não é a única consequência da retirada de dinheiro na economia real para aplicação no mercado financeiro. Desestimular a produção significa cortar funcionários, o que aumenta o desemprego.

"O cenário econômico também pesa na decisão do empresário na hora de demitir. Se ele achar que a queda na produção é temporária, ele prefere não demitir. Mas, se ele acreditar que os tempos difíceis vão permanecer nos próximos seis meses ou nos próximos anos, ele vai reduzir sua produção e custos."

O Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec) fechou o ano de 2015 no patamar mais baixo desde que o indicador começou a ser pesquisado pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), em março de 2011. De acordo com a CNC, o índice ficou em 79,9 pontos em dezembro deste ano, 26,5% abaixo do mesmo período no ano passado.

A pesquisa revela que os empresários estão menos confiantes na situação presente da economia (-68,7%), do segmento comercial (-50,3%) e de suas próprias empresas (-40,7%).

Financiamento de imóveis e carros mais caro

Além do aumento nos preços e desemprego, a Selic alta também afeta o comércio em geral, uma vez que encarece os juros. Setores de bens duráveis, contudo, devem sentir muito mais as sucessivas altas da taxa.

"Para a maioria das pessoas, é impossível comprar um bem durável, como casa, apartamento ou carro, à vista. Como é um investimento caro, tem que parcelar de cinco a 20 anos. Mas quem vai querer entrar numa dívida cara com juros que estão muito altos e com medo de desemprego?", questiona o economista-chefe da Planner.

Além disso, Ricardo lembra que, em tempos de crise, empresários tendem a encarecer os juros ainda mais, tendo em vista o maior risco de calote. "O banco ou a loja leva em consideração esses fatores de risco para calcular os juros."

Mercado "traído"

Após a manutenção da taxa, o mercado financeiro se sentiu traído pelo Banco Central. Para os economistas, Tombini vinha até então, por meio de seus documentos e discursos, direcionando as expectativas do mercado para uma elevação da taxa básica em 0,5 ponto porcentual, ressaltando seu compromisso com a trajetória de convergência da inflação para a meta central de 4,5% até 2017 e o objetivo de evitar que a inflação fechasse 2016 acima do teto de 6,5%, como ocorreu em 2015.

Mas a nota da última terça-feira deixou a impressão de que o BC, pressionado por demais membros do governo para frear a alta dos juros, aproveitou o relatório do FMI, que não fez nada além de mostrar o que os números da atividade - e o próprio mercado - vêm atestando há meses, para corrigir a rota das expectativas. O saldo é um impacto fortíssimo na já abalada credibilidade do BC.

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