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Olimpíadas do Rio vivem enxurrada de problemas a 200 dias do início das competições

18/01/2016 14:01 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
J.P.ENGELBRECHT/ PMERJ

Faltam 200 dias para o início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Ao invés de festa, a aproximação da data causa calafrios nos organizadores e em quem vive na capita fluminense. Não são poucos os problemas e não apenas nas áreas de competições. Já há um claro indicativo que a população terá de engolir um bocado a seco para ser uma boa anfitriã.

“Não é evitar que as pessoas venham, mas fazer com que as pessoas que venham saibam que não terão um cenário de facilidades no momento que adoecerem no Brasil... Vamos ter uma Olimpíada em plena crise, com população aumentada e risco de não ter para onde correr”, afirmou o presidente do Sindicato de Médicos do Rio de Janeiro, Jorge Dazre.

O relato, feito no início deste ano, é consequência da grave crise que a saúde estadual enfrenta há meses. Nem mesmo a ajuda do município e do governo federal resolveu a questão. Para Dazre, é inegável que o quadro terá reflexos no atendimento aos turistas que estiverem na cidade para as Olimpíadas. O sindicato inclusive ameaçou entrar na Justiça contra o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) por crime de responsabilidade.

“A saúde teve uma gestão temerária durante os últimos anos, e o governador Pezão não é novo no governo, ele já convivia com a crise que o Estado vive há algum tempo. Essa situação se agravou mais durante seu governo”, avaliou o presidente da entidade. “Hoje há uma falência decretada no setor da saúde pública, e precisamos interromper um ciclo de impunidade na saúde do Rio”, emendou.

No mercado de trabalho, reportagem do jornal Folha de S. Paulo mostrou que até 35 mil trabalhadores podem perder o emprego ao final das obras para as Olimpíadas na cidade. De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Pesada Intermunicipal do Rio, Nilton Duarte Costa, “não há perspectiva de novas obras” para o reemprego desta mão de obra na capital fluminense.

Prioridade aos turistas no transporte

Além da saúde e do emprego, o carioca terá de lidar com um sistema de transporte ainda mais carregado durante as Olimpíadas. Em entrevista ao jornal O Dia, o secretário municipal de Transportes, Rafael Picciani, já adiantou que as competições e os meios de transporte (metrô, BRT) que tiverem maior demanda dos turistas serão prioritários, obrigando quem vive na cidade a buscar outros meios – que serão oferecidos, ele garantiu.

“O morador do Rio tem o direito de saber que aquele modal vai estar lotado de gente indo para o jogo. Ele não quer ir no tumulto, quer pegar outra opção que o tire dessa confusão”, afirmou Picciani ao jornal.

“É possível que em alguns dias de pico na Barra, por exemplo, o metrô da Linha 4 não comporte o cidadão do dia a dia mais os espectadores dos Jogos. Daremos preferência ao público dos Jogos e direcionaremos os outros modais, o ônibus, o BRT, para uso do cidadão comum”, complementou.

A medida de priorizar o transporte a quem esteja se deslocando entre as competições é rotina nas cidades olímpicas, porém isso não impede que moradores se sintam tratados como ‘cidadãos de segunda classe’, já que precisam ter paciência suficiente para se deslocar pela cidade sem Olimpíadas – uma rotina estafante para alguns.

Obras atrasadas e mais problemas

As autoridades do Rio procuram minimizar todos os problemas que estão sendo enfrentados. Os que mais os preocupam, porém, repousam nos equipamentos das competições. O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), tomou a questão para si a ponto de aumentar a dívida da capital fluminense, em apoio ao combalido governo Pezão.

De acordo com reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, Paes assumiu gastos do governo estadual, aumentando a dívida do município para R$ 11,325 bilhões em agosto de 2015. O valor representa 58,69% da receita corrente líquida do município e está longe do teto de 120% fixado pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Porém, é dez pontos porcentuais maior que em 2011, ano encerrado com dívida de R$ 6,831 bilhões (em valores atualizados), ou a 48,2% da receita.

“Dívida nunca é bom. O legado olímpico sairá caro, a cidade recebeu investimentos, sim, mas a um custo muito alto. O cidadão é que vai pagar por esta falta de juízo do prefeito”, afirmou ao jornal a vereadora Teresa Bergher (PSDB), que realizou um estudo sobre o tema. Já o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB) não está preocupado com isso, procurando enfatizar que há prazos dilatados para os pagamentos. É tempo de exaltar outras coisas.

“Somado tudo que a prefeitura gastou em saúde e educação, de 2009 até agora, incluindo 2016, são R$ 65 bilhões. Em estádios, a prefeitura do Rio gastou R$ 650 milhões nestes oito anos. Um por cento do que a gente gastou em saúde e educação. Não há esse dilema”, exaltou Paes, durante a inauguração da Arena Carioca 1, que sediará jogos de basquete, rúgbi e basquete sobre cadeira de rodas.

Por outro lado, o Centro de Tênis do Parque Olímpico consumiu R$ 149,6 milhões em dinheiro do governo federal, de acordo com o GloboEsporte.com. O local é um dos que está com obras atrasadas, em meio a um debate jurídico que se tornou um verdadeiro ‘empurra-empurra’ entre a organização e o consórcio responsável.

De um lado, o consórcio, formado pelas construtoras IBEG, Tangran e Damiani, reclama que a prefeitura atrasou os repasses e os projetos básicos para as obras no Centro de Tênis, o que a Empresa Municipal de Urbanização (RioUrbe) nega. Em dezembro, mais de 200 funcionários da obra foram demitidos, sem, contudo, receberem a verba rescisória e o pagamento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Por causa disso, os operários realizaram pelo menos três protestos nos primeiros dias do ano.

O Centro Olímpico de Tênis tem uma quadra central e duas secundárias permanentes, além de outras 13 provisórias que serão construídas para a Olimpíada uma ao lado da outra, sendo sete com capacidade para 250 espectadores cada e outras seis de aquecimento. As obras já estão 95% prontas, faltando finalizar as quadras de apoio, que terão capacidade para 2 e 3 mil espectadores.

Já o Centro de Hipismo também está com obras atrasadas, tendo um custo estimado em R$ 157,1 milhões de investimento público, assim como o velódromo e o estádio de Remo nas Olimpíadas. No caso do velódromo, o evento-teste que estava marcado para março foi adiado para maio (a pista não ficaria pronta a tempo).

Nada, porém, que preocupa o prefeito do Rio. Nem mesmo a questão em torno da poluição na Baia de Guanabara e na Lagoa Rodrigo de Freitas tira o seu sono. “Não é uma questão olímpica (...). O local de provas na Lagoa não é um problema e onde as provas de sailing (vela) irão acontecer, é uma parte limpa da Baía de Guanabara”, disse Paes.

E sobre os atletas que teriam adoecido após competir nos eventos-teste? O prefeito tem outras versão. “Não é verdade, nenhum atleta adoeceu. Eles adoeceram porque foram ao Maracanã e depois comeram cachorro-quente. Isto não é seguro de se fazer, não só no Rio”, revelou.

Sem conforto, sem energia e sem propaganda

Como parte do esforço de se manter dentro do orçamento de R$ 7,4 bilhões de recursos privados, a organização dos Jogos segue realizando cortes. Embora a compra de ar-condicionados tenha sido mantidas, TVs não serão mais instaladas nos quartos de cada atleta. Já os bilhetes de viagens serão adquiridos para trajetos durante a semana, primando pela economia de dinheiro.

Outro problema envolve o fornecimento de energia elétrica para três das quatro áreas onde ocorrerão as competições. O abastecimento temporário é garantido por geradores, acionados em momentos de queda de energia. Sem esse sistema, no caso de um pico de luz durante a competição, o resultado de uma competição poderá não ser registrado.

Cabe ao governo estadual fazer a contratação para as regiões de Deodoro (zona oeste), Maracanã (zona norte) e Copacabana (zona sul), com o sistema temporário orçado em R$ 160 milhões – na Barra da Tijuca, a responsabilidade pelos R$ 300 milhões é do governo federal –, mas há falta de recursos para honrar o compromisso. Um projeto em análise na Assembleia Legislativa (Alerj) prevê R$ 170 milhões em incentivos fiscais à companhia que fornecer a energia temporária. Todavia, não há data para sua apreciação.

E os problemas não acabam aí. O Comitê Organizador só conseguiu preencher 3 mil das 12 mil vagas de voluntários necessários para as Olimpíadas – uma nova campanha deverá ser lançada em breve. Em meio a tudo isso, ainda sobrou para a presidente Dilma Rousseff (PT). A Procuradoria da República em Goiás questionou a União pelo gasto, até o momento, R$ 25,6 milhões na campanha "Somos todos Brasil", que tem como mote a realização dos Jogos Olímpicos.

“Seu objetivo é estimular na sociedade sentimentos favoráveis à presidente da República, ao seu governo e à coalizão partidária que lhe empresta sustentação, num momento em que, como 'nunca antes na história deste País', estão mais fragilizados politicamente, enfrentando elevadíssima rejeição social, inclusive, com processo de impeachment já deflagrado na Câmara dos Deputados, cujo resultado dependerá sobremaneira das manifestações da sociedade que acontecerão nos próximos meses”, escreveu o procurador Ailton Benedito de Souza, ao pedir a suspensão imediata da propaganda.

Até mesmo o Ministério Público Federal (MPF) encaminhou uma recomendação à Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República para que a propaganda seja suspensa.

(Com Estadão Conteúdo, Reuters e Agência Brasil)

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