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15/01/2016 18:35 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

O que o Ziggy Stardust de David Bowie nos ensina sobre o luto

JUSTIN TALLIS via Getty Images
TOPSHOT - A tribute balloon is pictured in front of a mural of late British singer David Bowie, painted by Australian street artist James Cochran, aka Jimmy C, in Brixton, south London, on January 13, 2016 two days after the announcement of Bowie's death. Music legend David Bowie was famously private during his lifetime -- and in death, as a string of questions about the circumstances of his passing remained unanswered. His official social media accounts had announced the shock news of his death at 69 on January 11, 2016: 'David Bowie died peacefully today surrounded by his family after a courageous 18-month battle with cancer,' adding a request for privacy for the grieving family. AFP PHOTO / JUSTIN TALLIS -- RESTRICTED TO EDITORIAL USE, MANDATORY MENTION OF THE ARTIST UPON PUBLICATION, TO ILLUSTRATE THE EVENT AS SPECIFIED IN THE CAPTION / AFP / JUSTIN TALLIS (Photo credit should read JUSTIN TALLIS/AFP/Getty Images)

Em 1976, o cineasta britânico Nicolas Roeg dirigiu o cult de ficção científica O Homem que Caiu na Terra.

O filme, baseado no romance de mesmo nome de Walter Tevis, de 1963, conta a história de Thomas Jerome Newton, um extraterrestre humanóide que, em busca de água para seu planeta seco, encontra-se tragicamente preso na Terra.

Em uma das escolhas de elenco mais fatídicas da história do cinema, o papel principal foi para o falecido David Bowie, o músico que ficou famoso graças a uma canção batizada de “Space Oddity” (esquisitice espacial) e que adotaria o pseudônimo mítico de Ziggy Stardust.

“Bowie, esbelto, elegante, remoto, evoca este alienígena com tanto sucesso que pode-se dizer, sem ironia, que este papel foi feito para ele”, escreveu o crítico Roger Ebert em 2011. Como resultado, o crítico Joshua Rothkopf chamou O Homem que Caiu na Terra de “o filme de gênero mais intelectualmente provocativo da década de 1970”.

No papel de Newton, Bowie mostra as angústias de um ser hiper-inteligente que passa pela transição de viajante fadado a magnata tecnológico e a objeto de experimentação da CIA. Bowie, assumindo a persona do Thin White Duke, representou com facilidade o papel de cortar o coração. Seu personagem passa facilmente de um refugiado alienígena desamparado a um membro pleno da sociedade terrestre e vice-versa, em uma adorada alegoria da ficção científica.

Mas, além da adoração dos fãs, o filme explorou uma emoção com a qual os devotos de Bowie estão muito familiarizados: a tristeza. Enquanto o mundo chora a morte de David Robert Jones esta semana, vale a pena olhar para o cantor no papel de Newton. Especialmente porque “Lazarus”, a adaptação musical de “O Homem que Caiu na Terra”, co-escrita por Bowie e Enda Walsh, está em cartaz em Nova York.

“Na sua essência, ‘Lazarus’ é uma meditação de duas horas sobre tristeza e esperanças perdidas”, escreveu Kory Grow, da Rolling Stone. Também é uma descrição exata do filme.

Durante toda a estadia de Newton na Terra, ele é constantemente lembrados de sua esposa e de seus filhos, que sucumbem lentamente à seca. Inicialmente, Newton trabalha incansavelmente e sem sucesso para consertar sua nave espacial, na esperança de voltar para casa e para seu povo. Mas seus planos são frustrados. Funcionários do governo descobrem a identidade alienígena de Newton e optam por prendê-lo e submetê-lo a uma série de exames médicos. Só depois de anos de cativeiro e quase tortura é que Newton percebe que sua “prisão” -- um apartamento de luxo no interior de um hotel -- não tem fechaduras.

Ele foge, mas para quê? Sua casa, ele imagina, não sobreviveu.

O livro de Tevis e filme de Roeg não tentam encobrir as complexidades da perda. O personagem de Bowie é envolto numa sensação esmagadora de desespero, que aumenta e diminui conforme ele tem sucesso ou fracasso em sua tentativa de se disfarçar. Mas Newton nunca esquece seu desejo de se reunir com sua família -- uma emoção potente que se fez presente em filmes posteriores, como a obra-prima icônica “E.T.”, de Steven Spielberg. Ao contrário do alienígena amigável dos os nossos sonhos de infância, no entanto, o desejo de Newton não é suficiente para levá-lo de volta para casa.

Roeg nos deixa com uma cena que reflete poeticamente sobre o destino de Newton. Durante toda a trama longa e maluca, ele conseguiu se manter agarrado a um senso de esperança. Assim, ele grava uma mensagem final, destinado a ser transmitida para sua casa alienígena. Infelizmente, o filme termina antes de descobrirmos se a sua família ainda está viva. Em vez disso, ele desmaia num café, aparentemente embriagado.

É uma cena triste; não há como negar o final infeliz. Mas Roeg e Bowie revelam, de forma não tão irônica, a humanidade real da tragédia e do amor. Somos capazes de sentir uma profundidade de emoções não contida pelas circunstâncias. E, embora o desespero absoluto possa dominar qualquer pessoa, a esperança é uma sensação estranha e persistente. Ao lembrar do homem que teve vários nomes, incluindo Thomas Jerome Newton, é a esperança que brilha mais forte que o desespero ou a perda.

“Há um starman esperando no céu”, cantou Bowie em 1972, quase quatro anos antes do filme. “Ele gostaria de vir conhecer-nos, mas ele acha que ele ia explodir nossas mentes.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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