COMPORTAMENTO

Controle de natalidade voluntário pode ser solução para mudança climática

08/01/2016 16:32 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
PHILIPPE HUGUEN via Getty Images
Picture taken on January 28, 2013 in Lille shows pills of Diane 35, an acne drug often prescribed by doctors as a contraceptive. ANSM, France's health regulator, has started an inquiry into Diane-35, after four deaths have been linked to the drug made by Bayer, the German pharmaceutical company, authorities believe. AFP PHOTO PHILIPPE HUGUEN (Photo credit should read PHILIPPE HUGUEN/AFP/Getty Images)

diane contraceptive

Uma população crescente significa maior pressão ambiental. A solução poderia estar nos direitos das mulheres.

Na Etiópia, o ativismo ambiental pode parecer um pouco estranho para alguns. Profissionais de saúde são vistos de porta em porta entregando folhetos sobre a restauração florestal no país, ao mesmo tempo em que distribuem preservativos.

O esforço faz parte da organização População, Saúde e Meio Ambiente (PHE, na sigla em inglês) — Consórcio Etiópia, que tem como objetivo explicar aos moradores a complicada relação entre superpopulação e seu impacto no meio ambiente.

O país tem visto o aumento da população e o esgotamento das terras causado pela seca, mas agora está focado nos esforços de reflorestamento, que também incluem planejamento familiar.

Acesso ao controle de natalidade voluntário — que tipicamente significa pílulas, preservativos e DIUs — para reduzir o índice de 40% de gestações indesejadas por ano no mundo todo reduzirá nossa pegada de carbono coletiva, e um crescente número de países está levando isso em conta em seus planos de mudança climática, apontam especialistas.

“Mais pressão populacional está criando muita carga sobre o meio ambiente.”

“Mais pressão populacional está criando muita carga sobre o meio ambiente — bem como sobre os sistemas de assistência médica, de educação e desemprego”, disse ao The Huffington Post Yetnayet Asfaw, vice-presidente de Estratégia e Impacto da EngenderHealth, ONG com sede na cidade de Nova York que controla a PHE Etiópia.

“E mais e mais governos estão reconhecendo as inter-relações. Vemos o planejamento familiar como uma resposta.”

De quem é a culpa no final das contas?

A realidade é que, enquanto a maior parte do crescimento da população mundial está ocorrendo na África e na Índia, o consumo de energia de países industrializados causa um maior impacto no meio ambiente.

Um estudo conduzido pelo estado americano de Oregon em 2009 revelou que uma criança nos Estados Unidos emite 160 vezes mais emissões de carbono do que uma de Bangladesh.

E, nos Estados Unidos, reduzir o número de gestações indesejadas pode diminuir as emissões em margens muito superiores do que esforços como reciclagem, tornando os lares mais eficientes em termos de energia e limitando viagens.

O jornal Los Angeles Times destacou que o debate sobre população e mudança climática pode soar como se as nações desenvolvidas estivessem dizendo aos países em desenvolvimento para reduzir as taxas de natalidade. Mas países como os EUA têm grande parcela de culpa.

“Em países desenvolvidos, existem reduções no consumo que são benéficas globalmente para a mudança ambiental”, disse Jason Bremmer, vice-presidente associado do Escritório de Referência da População, em entrevista ao HuffPost.

Ele destaca que é essencial ter esse tipo de conversa e fazer essas conexões, desde que sejam adequadas.

Antes de tudo, um direito imperativo moral das mulheres

Em princípio, especialistas destacam o fato de que fornecer à população mundial acesso ao controle voluntário de natalidade é, antes de tudo, uma questão moral que, a propósito, tem um efeito ambiental positivo.

“Precisamos fazer planejamento familiar, empoderar as mulheres e reduzir o casamento infantil para diminuir a taxa de natalidade, porque isso é o correto para os indivíduos. E, além disso, as pessoas terão um benefício ambiental.”

“Precisamos fazer planejamento familiar, empoderar as mulheres e reduzir o casamento infantil para diminuir a taxa de natalidade, porque isso é o correto para os indivíduos. E, além disso, as pessoas terão um benefício ambiental”, disse Bremmer.

Qualquer tipo de conexão entre população e mudança climática muitas vezes remete a questões enraizadas em igualdade de gênero e pobreza, disse Asfaw, da EngenderHealth.

Ela forneceu cenários como exemplo no mundo em desenvolvimento, no qual uma mulher não praticaria o controle de natalidade porque, culturalmente, ela não é empoderada para pedir que um homem use preservativo. Ou poderia viver em um país que não tem estradas pelas quais ela conseguiria ter acesso a uma clínica.

A EngenderHealth também trabalha em outras localidades como o Texas, fornecendo informações sobre planejamento familiar voluntário para estudantes que estejam recebendo orientação que se restringe à abstinência sexual.

Relaxe, isso não tem a ver com aborto. Então, por que ninguém quer falar sobre o impacto da população no meio ambiente?

Especialistas chamam a atenção para o fato inegável que a mudança climática, saúde reprodutiva e planejamento familiar são questões que envolvem políticas públicas.

Quando políticos e especialistas falam sobre planejamento familiar voluntário, são chamados de “eugenistas” e “nazistas”.

Em 2009, a então secretária de Estado dos EUA Hillary Rodham Clinton disse que deveríamos relacionar a mudança climática à superpopulação. Ela foi rapidamente massacrada pela mídia. Além disso, existe uma questão de percepção.

Bremmer destacou que um grande equívoco é pensar que reduzir a taxa de natalidade inclui o aborto. Mas a assistência de planejamento familiar voluntária tem regras que asseguram que as verbas não sejam usadas para a interrupção da gravidez ou campanhas relacionadas ao tema.

“Os Estados Unidos são um caso único no qual ainda estamos paralisados na política da questão. Se temos uma administração favorável ou não determina se vemos apoio para o planejamento familiar.”

"Os Estados Unidos são um caso único no qual ainda estamos paralisados na política da questão”, disse Bremmer. “Se temos uma administração favorável ou não determina se vemos apoio para o planejamento familiar.

Normalmente há menos dinheiro e mais restrição à prática sob uma administração republicana. Mas o resto do mundo não opera dessa forma.”

Corey Bradshaw, professor da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Adelaide, na Austrália, destacou o fato que proporcionar às mulheres alternativas relacionadas à saúde reprodutiva, educação e caminhos para sair da pobreza é essencial para qualquer solução — para a mudança climática e outras questões.

“Dar às mulheres direitos iguais em termos de salário e tratamento geral em países em desenvolvimento não é algo que tenhamos conquistado ainda”, disse. “É um bom começo.”

Não quer dizer que planejamento familiar seja uma poção mágica na luta contra a mudança climática

Embora haja discussão sobre quais estratégias ambientais são mais eficazes e menos onerosas, apenas o planejamento familiar voluntário não é suficiente para fazer grande diferença.

Bremmer diz que o foco deve ser em múltiplas estratégias em massa, incluindo soluções de longo prazo como remover combustíveis fósseis da eletricidade e redes de transporte, e soluções de curto prazo, como reduzir o lixo e consumo diários.

Com uma população atual global de cerca de 7,3 bilhões de pessoas e projeções para o fim do século apontando para algo entre 7 bilhões e 17 bilhões, dependendo das taxas de natalidade, nenhuma solução pode ser rotulada como uma poção mágica.

Especialistas dizem que toda solução climática precisa ser discutida, já que as trajetórias das populações são incertas. A população mundial inchou devido ao maior índice de sobrevivência durante a idade reprodutiva, maiores taxas de natalidade e padrões migratórios em geral, segundo as Nações Unidas.

Bradshaw analisou os números do planejamento familiar e diz que, sozinho, o impacto do controle de natalidade sobre a mudança climática é um componente muito pequeno.

“O planejamento familiar não representa um enorme ganho em relação à inovação tecnológica.”

"O planejamento familiar não representa um grande ganho em relação à inovação tecnológica”, disse Bradshaw. “Se mantivermos todas as outras coisas equilibradas e dependermos apenas do planejamento familiar, faríamos algumas reduções, mas ainda estaríamos aumentando nossas emissões.”

O professor conduziu um estudo em 2014 que concluiu que o planejamento familiar ajudará, mas apenas no longo prazo.

Ele destacou uma série de cenários no estudo “Human Population Reduction Is Not a Quick Fix for Environmental Problems” (Redução da População Humana Não é Uma Solução Rápida Para os Problemas Ambientais) nos Procedimentos da Academia Nacional de Ciências, em 2014.

Bradshaw usou a “zona de perigo” de aumento de 2 graus Celsius da temperatura global como referência. O professor afirmou que, para reduzir as emissões poluentes que mantenham o planeta abaixo desse nível, seríamos forçados a reduzir não apenas o número de novas gestações indesejadas — mas também diminuir a população entre 60% e 80%.

“Isso é obviamente imensurável”, disse, acrescentando que, se dependêssemos apenas do planejamento familiar, a luta contra a mudança climática seria como dar um passo para frente e dois passos atrás. “Não seria tão ruim, mas, ainda assim, muito triste. Não quero que as coisas sejam apenas menos piores.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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