MULHERES

Prêmio internacional de quadrinhos exclui mulheres, é alvo de boicote e reabre votos

07/01/2016 19:45 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

O prêmio Grand Prix da organização francesa de quadrinhos Angoulême causou controversa ao não incluir uma mulher sequer em sua lista de 30 indicados neste ano.

No entanto, uma ameaça de boicote fez tudo mudar.

Conhecido por ser um dos principais do meio – já reconheceu artistas icônicos como Bill Watterson (criador da tirinha Calvin & Haroldo), Robert Crumb e Will Eisner – o prêmio, concedido no Festival Internacional de Quadrinhos Angoulême, tem sido contestado por vários quadrinistas internacionais, que têm se organizado para um boicote.

Florence Cestac, a única mulher a ganhar o Grand Prix de la ville d'Angoulême desde seu início em 1974, iniciou a campanha com um post em seu blog. Em seguida, a quadrinista Jessica Abel o traduziu para o inglês, de modo que a campanha passou a ter ainda mais alcance.

Aproximadamente doze quadrinistas indicados ao prêmio neste ano retiraram seus nomes da lista. São Brian Michael Bendis, Christophe Blain, François Bourgeon, Charles Burns, Pierre Christin, Daniel Clowes, Etienne Davodeau, Milo Manara, Riad Sattouf, Joann Sfar, Bill Sienkiewicz e Chris Ware, segundo o Mary Sue.

Todos são eles são figuras conhecidas dos quadrinhos, seja por trabalhar para editoras como Marvel e DC ou na cena independente, underground ou europeia.

Sfar escreveu no Le HuffPost que não queria seu nome em uma lista tão "anacrônica" quanto a anunciada.

"Eu simplesmente não quero participar de uma cerimônia tão desconectada das realidades dos quadrinhos contemporâneos. Trinta nomes, sem uma mulher, é um tapa naqueles que devotaram suas vidas criando e amando esta arte."

Cestac fez o cartum abaixo:

boicote cartum

Começando da esquerda para a direita, os personagens dizem:

"É o 43º Festival Angoulême e apenas uma mulher foi eleita ao Grand Prix!"

"Mesmo?"

"Tem certeza?"

"Bem..."

A frase na parte inferior do cartum diz: "Sim, eles nem ao menos se lembram!"

quadrinhos prêmio

"Mulheres? Que mulheres?", diz o primeiro gato.

"Nós procriamos apenas entre homens aqui", completa o outro, na arte de Gally.



Julie Maroh, autora de Azul É a Cor Mais Quente, também contribuiu com a campanha:

we do it too

O 13th Dimension chegou a fazer uma lista de 13 mulheres que poderiam ser reconhecidas pelo prêmio.

A página de indicados foi tirada do ar.

Franck Bondoux, diretor executivo do festival, disse ao Le Monde que, "infelizmente, há poucas mulheres na história dos quadrinhos. Essa é a realidade".

"Similarmente, se você for ao [Museu do] Louvre, encontrará poucas mulheres artistas."

Em comunicado oficial, o Angoulême disse que "não pode mudar a história dos quadrinhos" e anunciou que incluiu duas mulheres na lista: Marjane Satrapi (Persépolis) e Posy Simmonds (Gemma Bovery), cujos nomes não foram contemplados por não terem sido votados o suficiente.

No entanto, depois, a premiação decidiu extinguir a lista completamente, e deixar que seus membros votem pelo ganhador do Grand Prix – ou ganhadora. Saberemos disso durante o festival, que acontece entre os dias 28 e 31 deste mês.

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