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Como autorretratos fizeram o sonho de uma artista sem-teto se tornar real

07/01/2016 21:44 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
COLLECTION OF ROBERT PARKER AND ORREN DAVIS JORDAN

glamourosa

Em seu dia a dia, Lee Godie foi uma mulher sem-teto que sobrevivia vendendo suas pinturas nas gélidas ruas de Chicago.

Ela guardava os seus pertences em vários guarda-volumes pela cidade, tomava banho em hotéis e dormia em bancos, ao ar livre, apesar do clima congelante.

Entretanto, em seus autorretratos tirados de uma cabine telefônica da rodoviária Greyhound de Chicago, Godie se transforma em uma "It Girl" da era de 1920, vestida dramaticamente com casacos de pele, usando broches e enormes chapéus, em pose indiferente como se fosse a mais glamorosa estrela de cinema.

Com cada vestuário individual e com cada pose, uma nova e reluzente personagem nascia.

É a palpável tensão entre as duas vidas de Godie – a andarilha batalhadora e a cobiçada artista de cinema – que faz com que suas imagens sejam tão encantadoras. Ela adornava as pequenas fotos impressas em preto e branco com vários enfeites, às vezes com caneta às vezes com pintura, outras vezes com lápis de olho e batom borrados nos lugares certos. Em certa ocasião, Godie esfregou chá instantâneo no seu rosto para dar a impressão de falso bronzeado.

flores


O embelezamento extremamente zeloso das suas imagens apenas serve para enfatizar a dificuldade que esperava por Godie fora da cabine telefônica.

Os seus olhos vidrados e sua pele dura desmentem a sua personalidade de mega estrela, resultando em uma visão confusa que retrata da mesma forma a pobreza e a riqueza e o vazio entre elas.

"Eu não celebro o meu aniversário", disse certa vez Godie. "Eu celebro o meu status como artista".

Além de fazer brilhar o caráter reservado de Godie, sua afirmação também capta a forma que ela convida a sua fabricada mitologia a incluir a sua história pessoal, renunciando à sua data de nascimento natural a favor do seu reinado eterno como amada artista.

De acordo com a lenda popular a posse de sua identidade como artista começou em 1968, quando Godie, com cerca de 60 anos, foi abalada profundamente por uma exposição impressionista no Instituto de Arte de Chicago. Logo após o show, tremendo toda e suada, Godie ficou de pé e se declarou publicamente uma impressionista francesa, de fato, uma "muito melhor do que Cézanne".

Desde então, ela pintou. Muito. As pinturas de Godie são retratos planos de senhoras da alta sociedade, beldades com os olhos arregalados usando chapéus de abas largas e maquiagem e lábios pintados de cor vermelho cereja.

Desde sua autoproclamada inauguração no mundo da arte em 1968 até 1990, quando ela tinha 82 anos, Godie vendeu seu trabalho todos os dias nas ruas de Chicago, carregando o seu portfólio em uma grande pasta negra.

batom vermelho


Os seus quadros foram vendidos por cerca de 20 ou 30 dólares – quer dizer, se ela gostasse de você. "Ela tinha as suas telas meio que enroladas" explicou o proprietário da galeria Carl Hammer ao jornal britânico The Telegraph.

"Se ela estivesse interessada em vendê-las para você, ela deixava [a tela] abrir para que você pudesse ver mais. Se ela não gostasse, ela então enrolava para o outro lado."

Durante a sua carreira, Godie tornou-se uma figura icônica no cenário artístico de Chicago, conhecida por andar, um dia usando uma toga e no seguinte, um casaco de peles. Ela cantava e dançava quando interagia com os seus fãs o que dava um elemento de performance à sua incessante arte.

No website Your Memories of Lee Godie ("as lembranças de Lee Godie", em tradução livre) estranhos compartilhavam suas interações favoritas com a artista.

"Trabalhei para a Prefeitura de Chicago por três anos" relembrou Ronald D. Fetman. "Todos os dias, após a meia-noite quando o meu turno acabava eu ia a pé até o meu apartamento. Enquanto passava pela área próxima à Avenida North Michigan, 666, eu via Lee Godie dormindo no pátio em uma banca de concreto entre dois arranha-céus, agarrada ao seu grande portfólio negro. Estava, quase sempre dormindo sob um clima congelante, abaixo de zero. Nem preciso dizer que, Lee era uma mulher forte".

Apesar de seu exuberante carisma e tendência para a performance, Godie era reservada e não falava sobre o que tinha acontecido em sua vida. De acordo com informação da Galeria Black Sheep, Godie foi casada e teve três filhos antes de que sua carreira na arte começasse.

O seu casamento havia se desintegrado e seus dois filhos tinham falecido, o que potencialmente contribuiu para sua escolha de vida nas ruas. Em 1988, Godie se reuniu novamente a sua filha Bonnie Blank e eventualmente se mudou para sua casa após o diagnóstico de demência. Ela ficou lá até a sua morte em 1994.

autorretrato


A vida de Godie foi caracterizada por uma dualidade paradoxal. Por um lado, seus sonhos de grandeza, feitos de notoriedade artística e elegância eterna. E de outro a realidade da vida nas ruas, cheia de tragédias não contadas e dificuldades inimagináveis.

Quarenta anos atrás, Godie poderia parecer estar delirando, desfilando pela cidade e proclamando a si mesma como uma artista extraordinária. Agora, é claro, Godie se tornou o mito que ela sempre propagou, uma artista cuja obra se vende por 15 mil e não 20 dólares.

Olhando para trás, os autorretratos de Godie incentivam um legado de fotografia teatral que inclui a fotógrafa vitoriana Julia Margaret Cameron, que imaginou os seus objetos de arte como figuras clássicas, religiosas e literárias; Ana Mendieta, que transformou o seu corpo em formas naturais hibridas; e Cindy Sherman, que reformulou a sua imagem fotográfica para ficar parecida aos vários papeis que as mulheres interpretam.

Hoje, muitos artistas, especialmente aquelas das comunidades marginalizadas e silenciadas, estão usando o autorretrato como uma arma de mudança, empregando o autorretrato fotográfico como uma forma de transformação pessoal e uma revolução difundida.

uma artista


Agora, Godie é lembrada como uma mestre artista desconhecida -- uma artista que opera fora do mundo da arte popular. Mesmo assim, diferentemente da maioria dos artistas do gênero, Godie estava bem consciente de seu status como artista. Ela tinha conhecimento e paixão pela história da arte e era vista frequentemente dando voltas no Instituto de Arte de Chicago ou na biblioteca pública.

"Ela estava hiper-consciente do mundo da arte, hiper-consciente de ser uma artista" explicou Karen Patterson para a Brut Force. "Sua vida toda foi dedicada a ser artista".

No fim, suas imagens impactantes não só criaram uma personagem pela duração da pose de Godie, elas formaram uma mitologia que agora é inexoravelmente relacionada à sua persona e legado. No rosto dos retratos encantadores e chocantes de Godie, desvanecem os detalhes obscuros de sua vida. Os fatos agora viraram lendas. A lenda é agora um fato.

Lee Godie: Self-Portraits estará exposta até dia 8 de fevereiro, 2016 no John Michael Kohler Arts Center in Wisconsin.

divando

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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