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Um ano depois, criador do 'Je suis Charlie' fala sobre o fenômeno que nem ele mesmo conseguiu 'entender'

06/01/2016 19:28 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Três palavras. Uma imagem. Em 7 de janeiro de 2015, às 12h52, um certo Joachim Roncin publica no Twitter uma mensagem que ele acredita ser pessoal: “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie). Roncin jamais pode imaginar que a mensagem se tornará, em apenas alguns minutos, um slogan que o mundo inteiro usará como demonstração de solidariedade.

Desde aquele 7 de janeiro, “Je suis Charlie” foi falado por todas as bocas, visto em todas as fotos de perfil nas redes sociais, nos cartazes das manifestações, nas primeiras páginas dos jornais e até mesmo em comunicações oficiais de algumas cidades. Um ano depois, a força da mensagem resiste. Sem querer, esse diretor de arte e jornalista musical parisiense criou o slogan para várias outras manifestações de solidariedade mundo afora.

O próprio Joachim Roncin diz que o “Je suis Charlie” não lhe pertence. Com certeza é por esse motivo que ele fala pouco do assunto e, quando o faz, menciona “aquele negócio lá”. Mas, um ano depois dos atentados contra o jornal satírico francês, quando começa uma semana de homenagens e três placas em memória às vítimas serão inauguradas com a presença do presidente François Hollande e das famílias, o criador do “Je suis Charlie” aceitou falar sobre o fenômeno que nem ele mesmo conseguiu “realmente entender”.

joachimroncin

Le HuffPost: Onde você estava em 7 de janeiro de 2015?

Joachim Roncin: Estava numa reunião na redação da revista Stylist. Um jornalista que estava no Twitter nos avisou (do atentado). Paramos a reunião sem saber exatamente o que estava acontecendo. Naquele momento falava-se de “ataques”, de “tiros” no Charlie Hebdo. Corremos para o computador para saber mais.

No Twitter, as informações apareciam a conta-gotas. Percebi que algo terrível tinha acontecido.

E quando ninguém conseguia encontrar palavras, você criou uma frase e uma imagem...

Foi uma coisa automática, porque faço isso todos os dias como diretor de arte, juntando os temas com os elementos à disposição. Neste caso, a capa do Charlie Hebdo. O logotipo.

Olhei para ele por dois segundos e tentei entender que reação ele gerava em mim.

O que senti foi estupefação, incredulidade. Difícil saber como veio a ideia. Tudo aconteceu numa fração de segundos. Tuitei aquele negócio alguns minutos após o anúncio dos ataques, por volta de 12h50, e depois tudo aconteceu muito rápido.

Acho que me evocou a infância, a adolescência, a maneira como me educaram, a impertinência.

Você era leitor do Charlie Hebdo?

Não. Já tinha lido uma outra vez, mas não comprava toda semana. Via algumas edições na casa do meu pai. Li o Hara Kiri. Foi por isso que ele me lembrei dessa época. A possibilidade de rir de tudo e de contestar por meio do riso.

E seu reflexo foi criar uma imagem e publicá-la no Twitter?

Sim, mas jamais tive a intenção de criar um viral. Em nenhum momento foi meu objetivo. A ideia era realmente passar uma mensagem pessoal. Uma coisa muito pura.

Quando disse “Je suis Charlie” em 7 de janeiro, aquelas três palavras não eram de maneira alguma políticas, como costuma ser o caso comigo. Era só uma maneira de expressar o fato de que eu não tinha medo, de que fora atingido, minha visão da democracia, minha visão da liberdade de expressão. Foi isso o que quis expressar, de forma rápida.

Nos dias seguintes, lemos várias análises sobre o sentido profundo dessas três palavras. O Washington Post falou do inconsciente coletivo em torno da formulação “Eu sou”. Outros se perguntaram sobre o “sou”. Queriam saber se era o verbo “ser” ou o verbo “seguir” (em francês, a conjugação dos dois verbos na primeira pessoa do singular é idêntica). O que você acha dessas interpretações e dessa busca por sentido?

Quando escrevi, não havia nenhuma reflexão do tipo. A mensagem era pura. Era uma forma de respeito pelas famílias das vítimas. Um jeito simples de dizer “Sou solidário”.

Depois, citei minhas fontes. Evidentemente, citei Spartacus, de Kubrick, pois é um filme que conheço (uma das cenas famosas do filme é a captura de escravos. Perguntam quem do grupo é Spartacus, em troca da liberdade. Nenhum deles se manifesta, para que todos tenham o mesmo destino, dizendo “Não, eu sou Spartacus”). Citei Kennedy (“Ich bin ein Berliner”, sou berlinense). Também “We are all Americans” (somos todos americanos), depois dos atentados de 11 de setembro. Todas foram referências.

Mas, com tantas as análises e sobreanálises, podemos fazer as palavras e imagens dizerem o que queremos que elas digam. Houve uma análise (http://www.lemonde.fr/idees/article/2015/05/19/le-simplisme-d-emmanuel-todd-demonte-par-la-sociologie-des-je-suis-charlie_4635826_3232.html), que não foi minha, sobre a marcha de 11 de janeiro. Ela dizia que a manifestação era uma grande farsa e que não representava a demografia francesa. Tudo o que sei é que em 11 de janeiro houve uma grande comunhão, uma grande solidariedade para com as vítimas.

O importante é lembrar que pessoas foram mortas por desenhar. Não há como não ser contra isso. Não temos o direito de matar por causa de desenhos. É uma frase que poderia ser dita por uma Miss França, mas é verdade. E é o que eu quis dizer no dia 7 de janeiro.

Quando um slogan ganha projeção mundial, há opiniões contrárias. Há polêmica, críticas.

Você acredita que o slogan saiu do seu controle?

Era o que eu queria. Me desapeguei dele bem rápido. Não queria que ele me pertencesse.

É uma mensagem pessoal, que tuitei para 400 seguidores. O slogan seguiu seu caminho, mas não fui o responsável por seu sucesso. As redes sociais foram. Portanto, se as pessoas se reconhecem nele e aprovam a mensagem, ótimo. Ela pertence a todo mundo.

Nunca tentei registrar a marca. Além disso, procurei o Inpi (órgão responsável pela proteção da propriedade intelectual na França) quando soube que havia gente tentando registrar a marca “Je suis Charlie”. Para mim, ela deve ser livre, sem dono – nem mesmo eu. Mesmo sem saber que eu tinha essa relação com o slogan, o Inpi divulgou um comunicado dizendo que não aceitaria registros ligados ao “Je suis Charlie”.

Mas isso não impediu que pessoas tentassem se apropriar do slogan. Algumas fizeram coisas belas, outras, coisas engraçadas. Também houve coisas repugnantes, como “Je suis Charlie Coulibaly” ou “Je suis Charlie Martel”, que saíram antes que as vítimas fossem enterradas. Isso me deixou louco.

Você entrou em contato com os sobreviventes do atentado ao Charlie Hebdo?

Sim, com certeza. Foi uma loucura. Eu, um simples cara atrás da tela, jogo três palavras na internet e a imagem dá quatro voltas ao mundo. Foi surreal... Francamente, não entendo por quê.

Mas havia uma coisas que me perturbava: eu não tinha entrado em contato com as pessoas do Charlie Hebdo e não sabia o que elas estavam achando daquilo tudo. Tinha medo que eles entendessem errado minhas intenções. Foi por isso que falei tão pouco do assunto! Não queria parecer inconveniente. As vítimas foram os funcionários do Charlie Hebdo, os clientes do supermercado Hyper Cacher, os policiais... Não eu!

Na véspera da publicação da primeira edição do Charlie Hebdo depois dos atentados, dia 13 de janeiro, fui convidado a participar do programa “Grand Journal”, do Canal+, com funcionários do Charlie Hebdo. Recusei o convite, mas disse que adoraria conhecer a equipe do jornal para conversar. Eles disseram “sim” e fui correndo.

Conheci Zineb e Luz. Foi um encontro incrível. Eles me abraçaram e elogiaram o slogan. Tirei um peso enorme das minhas costas! Disse para mim mesmo: “Tudo bem, eles entenderam”.

Luz me disse algo sublime, que jamais vou esquecer e que me fez chorar muito. Ele falou sobre a marcha de 11 de janeiro:

“Sinceramente, Joachim, não sei se o domingo teria sido tão importante se você não tivesse escrito essas palavras”. Fiquei profundamente tocado, e foi nesse instante que chorei como criança.

Houve várias versões do “Je suis Charlie” nas correntes de solidariedade. Podemos mencionar o “Eu sou Raif” em apoio ao blogueiro saudita Raif Badawi. “Eu sou Túnis” depois do ataque ao Museu Bardo. Você aprova essas iniciativas?

Com certeza! A partir do momento que vimos um slogan da ADN defendendo a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a democracia. Sim. Não há como não apoiar.

Mas não vou apontar pontos positivos nem negativos. Como o “Je suis Charlie” não me pertence mais, não é meu papel.

Também vimos várias versões humorísticas do slogan. “Je suis, je suis, je suis Julien Lepers”, por exemplo. Qual sua opinião sobre essas apropriações?

Acho engraçado! Quer dizer que o negócio virou um símbolo pop. E sabe quando me dei conta? Quando vi o slogan no fim de um episódio dos Simpsons. Disse para mim mesmo: “Ah, agora entrou para o mundo pop”.

Agora, esse negócio virou uma massa de modelar que toma a forma de várias causas, de várias formas de humor etc. Me lembro do “Je suis Chablis”, por exemplo.

Na noite de 13 de novembro, me mandaram um “Je suis en terrasse” (algo como “estou numa mesa de calçada”, em apoio às vítimas dos atentados de novembro). Algumas das versões mantêm o espírito combativo.

Mas nem tudo é tão bom. Perdão, mas não acho que encanadores e chaveiros precisem encher nossas caixas de correio com flyers que dizem “Je suis utile” (Eu sou útil). Quando é comunicação pura, sem nada por trás, acho que fica fora do contexto.

Você nunca condenou publicamente uma utilização do “Je suis Charlie”?

Logo no começo, quando vi camisetas e bonés estampados com “Je suis Charlie”. E esses produtos ainda estão à venda. Dizem que parte das receitas será revertida para as famílias das vítimas ou para o Charlie Hebdo, mas isso é obviamente mentira. Não duvido da sinceridade das pessoas que compram esses produtos com a intenção de demonstrar solidariedade, mas as pessoas que os vendem só querem saber do dinheiro...

A única organização com que trabalho é a Repórteres Sem Fronteiras, que lançou uma camiseta. Os recursos são usados para apoiar a liberdade de imprensa.

Você está envolvido com a Repórteres Sem Fronteiras?

Eles foram os primeiros a entrar em contato comigo sobre o uso do “Je suis Charlie”. Respondi que sim, sem problema. E desde então venho trabalhando com eles. Faço parte do conselho de administração dos Repórteres Sem Fronteiras e participo da luta em defesa da liberdade de expressão em todo o mundo.

O que o “Je suis Charlie” mudou para você, pessoal e profissionalmente?

Antes eu tinha convicções, mas não me envolvia. Agora me envolvo. Me envolvo com os Repórteres Sem Fronteira, como disse.

Também visito escolas. Explico o que significa liberdade de expressão e difamação. Desmonto clichês sobre a imprensa e tento mostrar aos jovens que eles não podem levar a sério tudo o que leem na internet.

Do ponto de vista profissional, nada mudou. Me procuraram, mas recusei. Mantive a cabeça fria, sabendo que, se me abordaram naquele momento, não foi pelos motivos certos. Não quero incentivar as pessoas que só me enxergam através do prisma do “Je suis Charlie”.

Um ano depois, o que lhe resta do “Je suis Charlie”?

Continua sendo uma luta pela liberdade de expressão. Qualquer coisa que mereça ser celebrada. Até 7 de janeiro, era tudo na França. Vimos que não é mais o caso.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Le HuffPost e traduzido do francês.

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