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01/01/2016 13:02 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

2016: O ano em que o desemprego vai marcar dois dígitos no Brasil, alerta chefe no BNDES

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Um Brasil com mais desempregados certamente nos espera ao longo deste ano. Se, em 2015, o País foi palco de taxas de desemprego recordes, com mais de 8 milhões de desempregados, este novo ano será pior, com taxa de desemprego batendo os dois dígitos.

A previsão é do economista Fabio Giambiagi, chefe do Departamento de Gestão de Risco de Mercado do BNDES, um dos maiores especialistas brasileiros de finanças públicas, autor das obras Reforma da Previdência e Brasil – Raízes do atraso.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, o economista avisa que os trabalhadores vão sentir ainda mais o efeito da crise econômica em 2016. "Vai ultrapassar os 10%", sobre a taxa de desemprego medida pelo IBGE.

"Em poucos anos, estamos saindo de uma situação em que estávamos acostumados com um padrão referencial de 5% para uma taxa de desemprego para um ano em que eu não me espantaria se ficasse entre 11% e 12%."

fabio giambiagi

Fabio Giambiagi faz projeção da economia brasileira em 2016

Se a alta se confirmar, esta seria a maior taxa de desemprego já registrada pelo IBGE.

Contudo, Giambiagi pondera um ponto fundamental: a PME (Pesquisa Mensal do Emprego) vai parar de ser divulgada pelo IBGE, substituída inteiramente pela Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, iniciada em 2012. Até 2015, as duas pesquisas eram publicadas, sendo que a Pnad, na média histórica, sempre divulgou uma taxa mais elevada que a PME.

"Enquanto a PME daria uma taxa de desemprego entre 9% e 10% em 2016 ,a Pnad daria entre 11% e 12%."

Mesmo assim, o percentual é bem preocupante. No terceiro trimestre de 2015, a taxa de desemprego medida pela Pnad ficou em 8,9%.

Em números absolutos, a população desocupada no País, mas à procura de emprego, chegava a nove milhões de pessoas. Se a taxa subir para 12%, serão mais ou menos 12 milhões de desempregados. "Nível de dois dígitos é um elemento muito emblemático."

O desemprego tem avançado a níveis históricos por conta da delicada situação econômica no Brasil. Fatores como inflação, juros altos, dólar valorizado diante o Real, confiança dos consumidores e empresários, além da queda de investimentos no País, influenciam o índice.

Um exemplo simples: com a inflação alta, o consumo das famílias tende a cair e, portanto, a produtividade de uma empresa também, para a produção se equilibrar com a oferta. Se a empresa produz menos, ela vai ter lucro menor e, consequentemente, cortar empregos.

2016: Juros altos, dólar caro e pequeno alívio nos preços

O que explica em parte o aumento do desemprego é a manutenção e até piora dos fatores que influenciam a taxa. O economista prevê um primeiro semestre difícil, com a continuação das tendências observadas ao longo doe 2015.

A inflação, por exemplo, deve aumentar nestes primeiros meses de 2016, pressionada por ajustes de início de ano na educação, como escolas e material escolar, e condomínio.

"Depois destes meses, a tendência é de queda. Poderemos observar uma trajetória declinante, esperando que, até o final do ano, pode chegar até ao teto da meta no final do ano, de 6,5%", projeta.

O possível alívio da inflação em relação a 2015, segundo o economista, se deve à trégua das altas nos preços administrados, como da energia, que no ano anterior tiveram sucessivos aumentos. "Acho que a tendência é de que o BC aumente os juros, o que certamente vai ser um elemento negativo de curto prazo para a dinâmica da atividade, mas, será um movimento consideravelmente importante para recolocar a inflação dentro da banda [meta]."

A Selic, taxa básica de juros da economia, é a principal ferramenta do Banco Central para controlar a inflação. Se a taxa de juros sobe, o crédito fica mais caro, o banco consegue frear o consumo e, como consequência, a inflação cai. Por outro lado, em tempos de baixo consumo, a taxa básica de juros pode cair, aquecendo, assim, o mercado de crédito e de consumo.

Giambiagi analisa que o Banco Central está "preocupado" com a possibilidade do teto da inflação ser ultrapassado pelo segundo ano consecutivo. "A curto prazo, o que determina a dinâmica da inflação são os juros [Selic] e o câmbio."

"Eu costumo dividir a trajetória [da inflação] do regime de metas do governo PT em três etapas: uma foi até 2009, quando era um regime regido estritamente de acordo com o manual. Funcionava como um reloginho -- inflação subia, juros subiam, inflação descia, juros caíam. E se for pegar o período de 2005 a 2009, este regime praticamente acertou a meta. De 2010 até 2014, a gente teve um regime híbrido, que controlava a inflação, mas a meta não era mais o centro, e sim no espaço superior da banda [teto da meta]. O objetivo era em torno de 5,5% e 6,5% e todo mundo entendia que o governo faria o que fosse necessário para que a meta não fosse superada. Em 2015, o próprio teto foi superado. É desejado que não aconteça uma suspensão do regime de metas por um ano, mas muita gente entende e aceita, no pressuposto de que depois de 2015, o regime seria restabelecido. Agora, se novamente o governo não alcançar sequer o teto, aí iremos nos perguntar: qual é o regime, afinal?"

Sobre o câmbio, o economista prevê que, assim como em 2015, a variação do dólar ante o Real será influenciada pelo cenário político e pelo exterior, mas deve ficar no mesmo patamar de 2015, em média. Ou seja, dólar a R$ 2 não se verá tão cedo.

Apesar de o dólar valorizado frear o consumo no exterior e diminuir as viagens internacionais dos brasileiros, ele ajuda a balança comercial do Brasil, assim como incentiva o turismo nacional.

Já sobre os juros, a previsão é que só comecem a baixar em 2017. "Durante boa parte de 2016 vai ser difícil."

O País também sentirá os efeitos da retirada do selo de bom pagador pelas duas agências de classificação de risco, Standard & Poor's e Fitch, afirma Giambiagi.

"O problema é que isso afeta, sobretudo, os fundos de pensão. Eles exigem que pelo menos duas agências tenham grade de investimento para manter as aplicações no País. Então, o rebaixamento é relevante, pois vai sair muito dinheiro do Brasil."

O economista vê como certo o rebaixamento pela Moody's, mas acredita que o impacto será um pouco menor. "Já tendo ocorrido dois rebaixamentos, o efeito será limitado. 100% dos analistas já sabem que ela vai rebaixar também, senão ficará muito destoante."

Entre os setores que mais vão sofrer com a continuação da crise econômica neste ano, estão aqueles associados a investimentos. "Além do País perder o selo de bom pagador, outros investimentos e empresas serão impactados pelos desdobramentos de operações contra a corrupção, como a Lava-Jato. Enquanto o panorama não clareia, serão anos horríveis em matéria de investimento."

Por outro lado, Giambiagi vê uma melhora nos setores ligados à exportação, pela valorização do dólar.

O setor de serviços, um dos maiores geradores de emprego, também deve ter um ano ruim, mas tende a ter alguma melhora no final do período.

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