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Este artista quer chamar a sua atenção para a violência contra negros nos Estados Unidos

28/12/2015 16:54 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
cortesia do artista

O artista contemporâneo Michael Paul Britto trabalha com diversos materiais e gêneros de impacto, incluindo a escultura e vídeos, mas seus trabalhos mais contundentes são suas colagens.

Para comentar a situação vivida pelos homens negros nos Estados Unidos, Britto recorta e cola as imagens chocantes ou dolorosas que vemos ser compartilhadas na grande imprensa e nas mídias sociais, criando formações novas e perturbadoras.

Na amálgama estranha acima, ele justapõe imagens de Michael Brown, jovem que foi assassinado pela polícia, com as de Darren Wilson, o policial que o matou. Através das imagens em camadas, aparece uma silhueta de duas figuras idênticas que se entreolham, com armas escondidas às suas costas.

Em sua mostra mais recente, Something in the Way of Things, ele montou uma visão remixada da vida americana, algo que forma um contraste marcante com a vida que nos foi prometida.

Sua visão está repleta de brutalidade e silêncio, medo e ignorância. Britto mistura imagens glamurosas de anúncios e editoriais de moda com outras, perturbadoras, de uniformes do KKK, armas e corpos caindo pelo espaço.

A ambiguidade das figuras aponta para o número incontrolável de vítimas da violência, muitas das quais desconhecidas, sem nome.

Procuramos Britto pouco antes de sua mostra começar, para saber mais sobre suas expectativas para a exposição.

reach inside procure dentro

REACH INSIDE (PROCURE DENTRO), MATERIAL: PLACA DE GESSO, RECORTE DE REVISTA

The Huffington Post: Vamos começar falando do título de sua exposição, Something in the Way of Things (Alguma coisa no caminho das coisas). Qual é a relação entre seu trabalho e o poema de Amiri Baraka com o mesmo título?

Michael Paul Britto: Os trabalhos desta exposição mostram algumas das coisas que se interpõem no caminho das coisas. Coisas como alcoolismo, brutalidade policial, depressão, desesperança.

Houve algum momento determinado, algum fato ou alguma inspiração que levou você a tratar da situação atual dos negros na América?

Fiquei mais consciente da situação do negro na América quando comecei a trabalhar com jovens, ensinando arte a eles.

Hoje trabalho numa escola de segundo grau alternativa para jovens desprivilegiados no Lower East Side de Manhattan. Também me inspiro muito em minha experiência própria de vida por ser um homem negro vivendo nos Estados Unidos da América.

Você pode falar um pouco mais das premissas e ideias equivocadas difundidas pela grande mídia e que você procura combater com esta exposição?

A grande mídia é muito hábil em termos de retratar os homens negros sob uma ótica negativa e de reforçar estereótipos. Nove vezes em cada dez, se um crime é cometido por um homem de cor, a mídia divulga que o suspeito ou responsável pelo crime foi um homem negro. Isso raramente acontece com homens de qualquer outra nacionalidade.

Outra coisa: tirando o âmbito dos esportes, a grande mídia raramente elogia ou difunde as realizações dos homens negros.

Sua mostra abrange materiais diversos, incluindo colagens. O que você acha do uso de colagens para tratar desses temas?

Gosto da ideia de pegar alguma coisa conhecida e usá-la para comentar um problema social. No caso de minhas colagens, as imagens das quais corto minhas silhuetas guardam relação direta com a postura do sujeito da obra.

the overseer o capataz

THE OVERSEER (O CAPATAZ), MATERIAL: PLACA DE GESSO, RECORTE DE REVISTA

O que suas imagens comunicam que não é acessível pelas manchetes e reportagens, a linguagem escrita ou mesmo a documentação em vídeo?

Acho que minhas imagens revelam uma verdade ou um sentimento verdadeiro. Muitas pessoas não gostam de tratar do alcoolismo, depressão dependência de drogas ou sentimento de desesperança. Essas são algumas de minhas verdades. Fico feliz por contar com a arte para me ajudar a superar minha vivência com muitas dessas questões.

Que papel você acha que a arte desempenha no momento político atual? Você acha que o artista tem a responsabilidade de ter um papel de ativista?

Acho que a arte não está exercendo papel suficiente em nosso momento político atual. Poderíamos estar fazendo mais. Acho que o artista tem o direito de ser tão responsável quanto quer, mas, no meu caso, acho que a arte deve ser militante. Quero que meu trabalho provoque trocas de ideias e informe as pessoas.

O que você espera comunicar através desta mostra?

Minha esperança é que esta exposição traga esperança a pessoas que sofrem com alguns dos problemas tratados por meu trabalho, mostrando a elas que não estão sozinhas. E, quem sabe, levar outros a terem um pouco mais empatia com pessoas que podem estar passando por experiências semelhantes.

A exposição Something in the Way of Things, de Michael Paul Britto, ficou até 19 de dezembro no Aljira, a Center for Contemporary Art, em Newark, Nova Jersey.

  • Surrender #2 (Rendição nº 2)
    Michael Paul Britto
    Material: placa de gesso, recorte de papel de revista
  • Bottle Blond #1 (Loira de Garrafa nº 1)
    Michael Paul Britto
    Material: garrafa de vidro, tampinha plástica, cabelos sintéticos
  • Build (Construir)
    Michael Paul Britto
    Material: arcos, recorte de papel de revista
  • A Night With Beau Willie Brown (Uma noite com o namorado Willie Brown)
    Michael Paul Britto
    Material: garrafas de vidro, vinil cortado
  • Target Practice (Tiro ao Alvo)
    Michael Paul Britto
    garrafas de vidro e vinil cortado (2015) Cortesia do artista
  • The Problem (O Problema)
    Michael Paul Britto
  • Pressure (Pressão)
    Michael Paul Britto
    arcos, recorte de papel de revista, 12 x 16 polegadas (2015)
  • Catch A Fall (Capture uma queda)
    Michael Paul Britto
    Arcos e recortes de revista, 12 x 16 polegadas (2015)
  • Control (Controle)
    cortesia do artista
    Arcos e recorte de revista, 12 x 16 polegadasn (2015)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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