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A política precisa de exercícios: por que todos os candidatos a primeiro-ministro da Espanha praticam esportes

28/12/2015 16:26 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
CHRISTOPHE SIMON via Getty Images
Ten years old athlete from Bahrain, Alzain Tareq, reacts after the preliminary heats of the women's 50m butterfly swimming event at the 2015 FINA World Championships in Kazan on August 7, 2015. AFP PHOTO / CHRISTOPHE SIMON (Photo credit should read CHRISTOPHE SIMON/AFP/Getty Images)

De esquerda ou de direita. De um lado ou de outro. De centro ou mais extremista.

Não importa o lugar onde se posicionem ou a ideologia através da qual os eleitores os identificam, os quatro candidatos a primeiro-ministro da Espanha que disputaram as eleições em 20 de dezembro têm uma coisa em comum: adoram esportes e praticam alguma atividade física.

Mariano Rajoy (Partido Popular - PP), Pedro Sánchez (Partido Socialista Operário Espanhol - PSOE), Pablo Iglesias (Podemos) e Albert Rivera (Cidadãos) comentaram o assunto inúmeras vezes durante o último ano. Todos concederam entrevistas (alguns mais do que outros) e falaram sobre a necessidade de se praticar algum esporte semanalmente, não tanto por questões físicas, e sim para o equilíbrio mental.

Mais do que uma questão física

Albert Rivera, candidato do Cidadãos, tinha 26 anos quando ingressou na política, e tudo que usava ficava grande. Acabou deixando de lado certas coisas, inclusive a natação, o esporte que praticava desde os 11 anos e com o qual se tornou campeão de natação da Catalunha, aos 16 anos. Ganhou peso (compare o novo Rivera com o do cartaz de 2006) e perdeu o equilíbrio.

“Cometi o erro de me fechar. De renunciar ao que gosto, de deixar de fazer esporte...”, disse em entrevista a Risto Mejide no programa Al Sillón, do canal Antena 3, no começo de novembro.

“Pensei que o melhor era me concentrar nesta vida [da política] e, por essa razão, durante dois ou três anos não fui feliz, pensei até em desistir.”

políticos

Mariano Rajoy: 40 minutos de academia por dia (esteira ou aparelho elíptico) e caminhadas nos finais de semana. “Faço caminhadas de uma hora e meia."

Pedro Sánchez: Correr uma média de 7 quilômetros, três vezes por semana, num bom ritmo (10 km/hora).

Pablo Iglesias: Meia hora de corrida leve três vezes por semana e, musculação, duas vezes. Também tem um aparelho elíptico em casa.

Albert Rivera: ‘Spinning’ na academia e natação uma vez por semana. “Não corro, porque ‘spinning’ e nadar emagrecem mais.”

O caso do líder do Cidadãos é um exemplo claro de como o esporte proporciona equilíbrio àqueles que estão sob situação de estresse ou pressão. Por isso, nove anos depois, Rivera voltou a incluir a atividade física em sua rotina.

“Há dois anos decidi voltar a me exercitar. Faço uma sessão de spinning uma vez por semana e tento nadar sempre que posso. Em minha agenda há duas coisas intocáveis: minha filha e o esporte”, dizia à La Otra Crónica do jornal El Mundo, em fevereiro de 2015.

Na inumerável lista de razões existentes para se levantar do sofá todos os dias, existem várias relacionadas ao bem-estar mental.

Alejo García-Naveira, psicólogo do esporte e coordenador do grupo de Psicologia do Esporte do Colégio Oficial de Psicólogos de Madri (COPM), destaca no livro Psychological Health and Needs Research Developments que a prática de atividade física e esporte “ajuda a reduzir a ansiedade, os níveis de estresse e depressão, e estimula e apoia as capacidades cognitivas”.

Além disso, contribui para favorecer a saúde que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), “é um estado de completo bem-estar físico mental e social, e não apenas a ausência de distúrbios ou doenças”.

sem estresse, sem insônia e mais felizes

“Eu, nessa altura da vida, já não dou conselhos a ninguém, com exceção de um: faça um pouco de esporte, porque é muito bom fisicamente e te dá equilíbrio”, dizia o ainda primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, no início de dezembro, na casa do apresentador de TV Bertín Osborne, e repetia o mesmo dias depois no programa La Sexta Noche, do canal LaSexta.

O líder do PP gosta de repetir que a atividade física “é boa para tudo e, além disso, não atrapalha ninguém”.

Por isso, viaja sempre com tênis para treino na mala e, todas as manhãs, investe 40 minutos na esteira da academia do Palácio da Moncloa, sede do governo espanhol, em Madri.

“Às vezes, combino a esteira com o elíptico, e depois nos finais de semana, quando estou um pouco mais livre, faço caminhadas de uma hora e meia mais ou menos. Mas tento fazer isso todos os dias”, disse na entrevista a Bertín.

“Faz muito bem” são as palavras que Rajoy não se cansa de repetir, e tem toda a razão.

“A atividade física “faz muito bem” para dormir melhor. Segundo especialistas em medicina do sono, fazer algum tipo de esporte (não profissional) facilita o sono e o torna mais reparador quando realizado pelo menos três horas antes de dormir.

E é por isso que a maioria dos políticos opta pelas primeiras horas do dia (não é apenas uma questão de agenda) para calçar o par de tênis.

Rajoy se exercita na esteira e no aparelho elíptico às 7h da manhã, enquanto o líder socialista Pedro Sánchez sai para correr bem cedinho. “Gosto muito de correr. Ajuda a clarear as ideias, despertar e começar bem o dia”, disse em entrevista ao jornal La Razón.

Além disso, segundo o site da Fundação do Coração, a prática esportiva reduz os níveis de ansiedade e ajuda a um maior controle do estresse emocional. “As pessoas que praticam mais esporte costumam ser mais tranquilas e enfrentam os problemas de uma forma mais leve.”

Isso porque a prática regular de exercícios diminui a produção de cortisol, um hormônio que costuma ser liberado em situações de estresse e está relacionado com o aumento da pressão arterial, dos níveis de açúcar no sangue e que tem um efeito imunossupressor sobre o corpo. Ao mesmo tempo, eleva a produção de endorfinas, os chamados hormônios da felicidade. Daí a ideia de que se exercitar nos torna mais felizes.

Os políticos e a corrida

Nadar, andar, correr... Não existe uma fórmula mais eficaz do que a outra; cada um (políticos ou não políticos) deve escolher sua favorita. “O terno tem de ser sob medida. A chave está em cada um encontrar o esporte que mais se adapte às suas necessidades e características pessoais”, afirma García-Naveira.

pablo iglesias e ana rosa quintana correndo vallec

Pablo Iglesias e Pedro Sánchez encontraram na corrida um parceiro perfeito. “Corro meia horinha e bem de leve. Quase sempre vou sozinho, com fones de ouvido, e escuto muito rap”, dizia o líder do Podemos a Ana Rosa Quintana, durante uma sessão de treino.

O madrilenho continua morando em Vallecas, o bairro onde sempre viveu, e onde corre. “Agora sou mais conhecido e me param, por isso fiz algo que nunca pensei que iria fazer: comprei um [aparelho] elíptico”, revelou ao jornal esportivo AS.

Pedro Sánchez é disciplinado, e a corrida é imprescindível em sua agenda semanal. Corre duas ou três vezes por semana, independentemente da cidade onde esteja (Barcelona, San Sebastián...). Assim como Pablo Iglesias, o socialista também usa fones de ouvido, embora em seu caso escute músicas de grupos indie espanhóis como La Habitación Roja ou Los Planetas.

Mais que uma moda

A corrida de Iglesias e Sánchez, a natação de Rivera ou a caminhada de Rajoy não são uma novidade na agenda dos políticos. John Carlin revela em seu livro O Fator Humano que Nelson Mandela já fazia uso desse tipo de rotina para manter a cabeça no lugar durante os anos do Apartheid. “

Descobri que o exercício rigoroso era uma saída excelente para a tensão e o estresse”, afirmava o mandatário, que disse a famosa frase: “O exercício é a chave para a saúde física e da mente”.

Da mesma forma, Barack Obama faz 45 minutos de cardio na academia pessoal e, às vezes, joga basquete com os amigos; Nicholas Sarkozy, por sua vez, não abandonou a academia nem a corrida enquanto esteve no Palácio do Eliseu (2007-2012).

Outros exemplos de políticos espanhóis atletas incluem os ex-primeiros-ministros José Luis Rodríguez Zapatero e José María Aznar, que também combinaram o poder com a prática esportiva. De fato, o segundo levou seu personal trainer (Bernardino Lombao) a Moncloa, que o fez correr e fazer abdominais, além de ajudá-lo a lidar com a pressão.

“Na minha opinião, é imprescindível que os políticos de alto nível estejam em forma, porque, com tanta tensão e tanta pressão, ou você faz exercícios ou tem de se dopar. Não há outra maneira de render”, defendia em uma entrevista ao jornal ABC, em 2011.

Essa mesma ideia foi (e ainda é) defendida por Zapatero, que voltou a fazer exercícios quando chegou ao poder e, desde então, não parou, chegando inclusive a correr meias maratonas.

“Uma das coisas que me deixam mais felizes na vida é correr”, revelou em uma extensa entrevista ao site runners.es.

Agora, corre mais por prazer do que qualquer outra coisa, mas, quando estava em Moncloa, praticava esportes por necessidade. “Antes dos debates tentava correr e, caso conseguisse, chegava com muito mais vitalidade e mais preparado para debater com Mariano Rajoy durante horas.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo El Huffington Post e traduzido do espanhol.

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