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'As pessoas aqui pensam que não têm futuro, estão sem rumo e totalmente perdidas', diz vítima da tragédia em MG

26/12/2015 11:19 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
Leandro Taques/MAB

O que antes era um parque de exposição hoje é um parque de lama. A praça, local de confraternização dos moradores, transformou-se no ponto de encontro dos lamentos. Essa é a atual situação de Barra Longa (MG), município que foi atingido diretamente pela lama despejada pelo rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco (Vale/BHP Billiton), no dia 05 de novembro.

A lama tóxica desceu morro abaixo passando por cima e destruindo por completo algumas comunidades do município de Mariana (MG) e seguiu destruindo tudo ao longo de três rios: Gualaxo do Norte, Carmo, Doce até chegar ao mar no litoral do Espírito Santo.

Na cidade de Barra Longa, a lama atingiu áreas rurais e urbanas onde casas foram completamente destruídas. Dono de um estabelecimento comercial, Rômulo Fernandes de Almeida morava há 16 anos em uma casa nas proximidades do Rio do Carmo.

Emocionado, Rômulo relembra como foi à chegada da lama no quintal da sua casa. “A gente conhecia aqui, quando chove o rio transborda e enche os quintais, mas no outro dia a água ia embora. Só que dessa vez foi diferente, a gente não estava esperando. Ficamos acordados com as lanternas nas mãos em alerta esperando a lama chegar, quando fomos ao quintal tinha uma 8 metros de altura. Corremos muito e a lama já estava em nossos pés. Se o rio não tivesse represado e feito esse contorno, automaticamente teria levado todos nós aqui”, recorda.

A família do comerciante teve o quintal, sua casa e parte de seu estabelecimento comercial invadido pela lama, trazendo prejuízos incalculáveis. Rômulo conta que todo o estoque de seu armazém foi levado pela água, junto com os freezers e aves que estavam no pátio da casa. “Aqui nesse quintal, que está tomado pela lama, tinha um pomar grande com vários tipos de fruta, uns duzentos pés de mandioca, cana, uma horta, galinheiro. Morreram todas as criações, perdemos galinhas, pato e peru. Prejuízo incalculável”, lamenta.

samarco

O comerciante faz parte de uma comissão que, juntamente ao Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), busca discutir e propor uma pauta de reivindicação com as famílias, intermediando as negociações entre a empresa Samarco e os atingidos. Segundo o membro da comissão, a pauta tem tido poucos avanços e a comunidade permanece mobilizada. “Colocaram um monte de funcionário da Samarco, que estão desinformados sobre a pauta e que trabalham na linha de produção e outras frentes da empresa e que desconhecem a realidade local”, explicou.

O crime ambiental e social provocado pela Samarco tem causado pânico na população ribeirinha. As famílias atingidas estão inseguras, principalmente em relação às medidas de reparação e recuperação que serão tomadas. “Aqui está depressão total. As pessoas vendo que perderam tudo. As pessoas aqui pensam que não têm futuro, estão sem rumo e totalmente perdidas, não sabem se voltam para casa de pânico. As pessoas estão em pânico achando que a outra barragem irá estourar”, afirmou.

"Mesmo que eles nos indenizem, não vai ter dinheiro nenhum que pague a história da nossa vida"

Junto com a lama tóxica, esparramada após o rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, veio a tristeza, a incerteza e principalmente um sentimento de impotência das famílias ribeirinhas que vivem às margens do Rio Doce.

Vendedores de leite de cabra, o casal Sebastião Cirilo de Souza e Lúcia Maria de Andrade vivem em uma pequena casa no distrito de Cachoeira Escura, município de Belo Oriente (MG). O distrito dependia diretamente do Rio Doce para captação e distribuição de água para a comunidade.

Morando na beira do Rio Doce há mais de 70 anos, Sebastião diz que o aborrecimento foi momentâneo quando viu a lama tomar conta do rio. “Eu nunca vi coisa igual, esse barro cada dia desce mais rio abaixo. Eu fui atingido e muito, não tem quem não foi atingido aqui”, relatou.

Apesar de todo o prejuízo material e emocional, até o momento a Samarco não fez o levantamento das perdas e nem procurou o casal para informar se receberão algum tipo de reparação ou indenização. “A gente espera que, pelo menos, a Samarco resolve a questão do nosso acesso à água. Eu e minha esposa já não estamos mais em condições de saúde para ficar carregando água para dentro de casa”, afirmou.

rio doce

Seu Sebastião considera que essa tragédia não foi um acidente. “Isso aí foi o maior crime ambiental que eu já vi na minha vida, mesmo que eles nos indenizem, não vai ter dinheiro nenhum que pague a história da nossa vida e das demais famílias que do Rio Doce se sustentavam. Porque não olharam e arrumaram essas barragens antes para evitar esse transtorno todo?”, questionou.

Dona Lúcia reclama das dificuldades para acessar água. “Na idade que estou minhas pernas não aguentam mais ficar carregando água de lá para cá e quando chego lá na bica tem aquela fila para poder pegar uns litros de água que usamos pelo menos para o café e para a comida”, contou.

De acordo com Camila Britto, militante do Movimento dos Atingidos Por Barragens (MAB) – que está compondo a Frente Lute pelo Rio Doce –, relata a negligência da Samarco em relação ao levantamento das famílias atingidas. “O número total de atingidos é bastante incerto, porque ainda não existe um levantamento completo e preciso e o critério que a Samarco vem utilizando provavelmente vai deixar muitas pessoas sem indenização”, explicou.

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