COMPORTAMENTO
22/12/2015 11:18 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Esqueça as camisas de flanela: É a cena punk feminista que salva o rock de Seattle

Mommy Long Legs


São onze da noite de uma sexta-feira na Pine Street, no bairro Capitol Hill, em Seattle, e o quarteirão está fervilhando com gente jovem entrando e saindo de boates e bares. Um grupo de pessoas de vinte e poucos anos se congrega em volta de um pau de selfie. Elas dão risadinhas e apontam seus rostos vermelhos, suados e sorridentes na direção da câmera. Uma mulher passa por ali, oscilando em cima de seus saltos de dez centímetros enquanto se apoia um pouco no braço do namorado. Virando a esquina, um mano de fraternidade, bêbado e usando camisa polo, deixa pender desalentadamente a cabeça em um beco, e vomita as batatas que comeu há pouco no diner de preços salgados ali perto. O amigo, com um boné do Seahawks ao contrário, berra obscenidades ininteligíveis para uma mulher que passa por ali usando minissaia, cujas lantejoulas brilham na rua mal iluminada.

No meio desse apocalipse de bróders saturados de vodca, há esperança. Na esquina seguinte, saindo dessa zorra, está o Cockpit, um espaço de música e artes DIY queer. É um lugar mágico, embebido de místicas luzes tecnicolor, e decorado com um manequim vestido em roupa de bondage. O espaço tem até mesmo um loft amplo e um balanço. É colorido, absurdo, tem uma vibe de outro mundo, e é inquestionavelmente queer. Apesar da presença vibrante do Cockpit, nos dois últimos anos, os ataques às pessoas que se identificam como LGBTQ dispararam no bairro, historicamente identificado com o movimento.

O bairro de Capitol Hill mudou extraordinariamente nos últimos anos. Antigo coração da comunidade queer de Seattle e epicentro da cena artística, a vizinhança hoje é lar de numerosos e imensos condomínios pré-fabricados, bares excêntricos e smoothies verdes de vinte dólares. Surpreendentemente, em meio a crescente gentrificação, parte da cena de música e artes de Seattle continua a crescer, em especial a música, a arte e o ativismo feministas. No decorrer dos últimos anos, enquanto grupos foram desfeitos como os queridinhos do indie-pop Death Cab for Cutie e os barbados do Fleet Foxes, os integrantes das bandas alternativas mais renomadas de Seattle deixaram de consistir basicamente nos caras brancos e tristonhos usando camisas de flanela, e passaram a ser mulheres de bandas francamente feministas. Nesse ano, por exemplo, as bandas veteranas da cena Tacocat e Chastity Belt vêm ganhando atenção nacional, e bandas mais novas, como Mombutt, La Luz e Mommy Long Legs surgiram.

Essas bandas, e suas letras de construção implicitamente feminista, subvertem as normalidades da história da música alternativa ao abordar questões importantes como gentrificação, assédio nas ruas e liberdade sexual. Bree McKenna, baixista do Tacocat e do Childbirth diz: "Nunca me sentiu tão orgulhosa e feliz de participar da cena de artes de Seattle". Ela conta que o feminismo é "um assunto da minha música porque é uma parte importante das minhas experiências de vida. Vivenciar o sexismo, a homofobia e a discriminação influenciou muitos elementos da minha vida cotidiana, que eu acabo investigando na minha música." Ela continua: "Tendo sofrido muitas dessas coisas nos meus anos de formação, fico extra feliz ao ver que as vozes sub-representadas estão gritando o mais alto possível."

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