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14/12/2015 21:37 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

'As cidades não são nada se a cultura não puder ser criada e incentivada', diz o 'anarquiteto' Rohan Shivkumar

Reprodução/Facebook

Ele se autodenomina "anarquiteto" e defende que a arquitetura deve oferecer "soluções para moldar as forças do desenvolvimento ou até mesmo resistir contra elas, se necessário". Num mundo marcado pela desigualdade, o indiano Rohan Shivkumar prega um olhar mais crítico dos arquitetos, para que estes busquem "transformações reais por meio da prática da arquitetura".

Para Shivkumar, que é autor do blog Anarquitect sobre cinema e a relação entre cultura e a arquitetura, as artes são intrínsecas à cidade, "espelhos nos quais nos enxergamos e também oferecem possibilidades de mudança".

Shivkumar participou do What Design Can Do, conferência internacional criada para conectar os designers aos principais problemas sociais desta era, no último dia 8, em São Paulo. Ao HuffPost Brasil, Shivkumar falou sobre o papel dos arquitetos nos dias de hoje - especialmente em grandes centros como Mumbai e São Paulo - e a relação entre as pessoas e a cidades.

Leia, abaixo, a entrevista completa:

1. Você se classifica como “anarquiteto”. O que quer dizer com isso?

Penso que, se a arquitetura é a forma de arte mais ligada às estruturas de poder, ela tem de ser chacoalhada por dentro para se tornar mais relevante. Acho que foi por isso que juntei arquitetura com “anarquia” – um desejo de destruir os sistemas hegemônicos de poder. O blog começou há dez anos como uma resposta ao que eu via acontecer na cidade à minha volta: mudanças rápidas estavam arruinando comunidades mais antigas. Queria arquivar essas mudanças por meio da minha experiência pessoal. Aos poucos, o blog também virou um lugar para falar de outras formas culturais, especialmente cinema, pois acho que elas oferecem novas maneiras de repensar o papel, os métodos e as responsabilidades da arquitetura. O blog nunca teve a intenção de ser um espaço para escrever sobre arquitetura de forma acadêmica. O formato permite ser informal, observador e às vezes descaradamente pedante. O tom pode variar, talvez um reflexo das emoções conflitantes de deparar com essa cidade em mutação – da incredulidade à surpresa, à raiva e à tristeza.

2. Qual é o papel da arquitetura na transformação de países em desenvolvimento com grandes centros urbanos, como Brasil e Índia?

Com o ritmo de desenvolvimento na Índia – novas “cidades inteligentes” sendo planejadas, projetos de infra-estrutura em quase todas as cidades e políticas que sustentam o redesenvolvimento em grande escala de tecidos históricos --, é fácil que os arquitetos se pluguem nesses projetos sem uma postura crítica. Participar dessas transformações pode deixar até mesmo os arquitetos mais sensatos cegos para o efeito real que as mudanças terão nos ambientes construídos. Os arquitetos acabam se tornando meros instrumentos de forças de polarização social e danos ambientais. Mas, no fervor triunfal da autocongratulação, eles se recusam a enxergar as consequências de seus atos. Na verdade, eles acabam racionalizando tudo com argumentos elaborados. Acho que é um desserviço para a ideia da arquitetura.

Se a arquitetura é a profissão cuja missão é criar um melhor habitat humano, então os arquitetos têm de oferecer ideias e soluções para moldar as forças do desenvolvimento ou até mesmo resistir contra elas – se necessário --, oferecendo ideias alternativas. Esse espírito utópico é parte integral dos gestos arquitetônicos e não deve ser esquecido. Infelizmente, esse espírito hoje em dia é cooptado pelo mercado, e os arquitetos se tornaram commodities. Arquitetos-estrela falam em abordagens “únicas e originais” que na verdade não trazem nada de novo e meramente mascaram as mesmas abordagens do passado, só que com roupas novas. Retomar essa inquietude do pensamento arquitetônico – é importante ser crítico dessa cultura de “gênios” individuais e permitir uma abordagem mais multidisciplinar e não-egocêntrica do design.

3. Em seu trabalho, você une cultura e urbanismo. Como a cultura pode ser usada como ferramenta para que as pessoas tenham uma relação mais próxima com cidades como São Paulo e Mumbai?

Infelizmente, vivemos numa época em que possam ser feitas perguntas como esta. As artes oferecem às sociedades humanas os ingredientes essenciais para criar comunidades, construir uma civilização e uma cultura. Elas são espelhos nos quais nos enxergamos e também oferecem possibilidades de mudança. As cidades não são nada se não forem lugares em que essa cultura possa ser criada, incentivada e cultivada.

Mas, nas cidades de hoje, isso é considerado mero “entretenimento” e, portanto, quase descartável. A única utilidade delas é nos divertir quando não estamos ocupados com coisas mais “importantes”. Em Mumbai, essa desconfiança em relação às artes fica aparente quando nos damos contas de que a cidade, apesar de ser há mais de cem anos o centro da indústria do cinema indiano – uma das maiores do mundo --, só reconheceu o cinema como indústria no ano 2000; antes disso ele era considerado uma arte “menor”. Na verdade, até hoje Mumbai tem poucos espaços para arte e cultura, e os que existem são caros demais ou então de difícil acesso, por causa da burocracia governamental. O novo plano de desenvolvimento da cidade não corrige esse problema. Essa desconfiança em relação à cultura parece ter origens em uma desconfiança generalizada em relação a ideia de um domínio verdadeiramente público em Mumbai. Vista como potencialmente perigosa e subversiva, a cidade não incentiva a criação, cercando os jardins e suspeitando das aglomerações públicas. Mas toda cidade cria seus próprios modos de autoexpressão. Em Mumbai, iniciativas comunitárias, ONGs, coletivos de arte e arquitetura tentam encontrar espaço para a arte e a cultura. Mas ainda são ilhas que raramente se comunicam entre si. O cinema, como forma de arte, com sua natureza fundamentalmente pública, pode oferecer uma alternativa. Como arquitetos e planejadores urbanos, temos de encontrar maneiras de nos engajar, para criar uma nova ideia de domínio público.

4. Você também é educador. Como criar uma nova visão urbana a partir da educação dos jovens?

Acredito que, pelo menos na Índia, o espaço para uma verdadeira educação arquitetônica está desaparecendo aos poucos. A academia deveria ser o espaço de pesquisas, onde surgem novas ideias. Mas ela foi cooptada pelo mercado. Tornou-se meramente um espaço para a produção de funcionários que se encaixem no modelo de produção existente. O resultado disso é que ideias que desafiem o status quo são muitas vezes consideradas perigosas e rapidamente sufocadas. Por outro lado, muitas escolas de arquitetura se entregam ao mundo da fantasia – no qual os problemas são bizarros, e as soluções, mais ainda. O objetivo é que os estudantes exercitem a imaginação. Mas o resultado é que eles não são treinados para olhar para o mundo de forma crítica, buscando transformações reais por meio da prática da arquitetura. Como educador, acredito que temos de reconquistar o espaço acadêmico como um espaço de ideias e pesquisa – onde possamos criar indivíduos capazes de contribuir para o mundo não somente como engrenagens de uma máquina, mas como pessoas capazes de repensar a arquitetura, de torná-la mais eficaz.

5. As grandes cidade do Brasil e da Índia têm periferias extremamente pobres, onde a população vive em casa muito precárias. Como o urbanismo olha para essa questão e o que pode ser feito para mudá-la?

Na Índia, o planejamento das casas populares foi moldado pelas maneiras como as próprias favelas são imaginadas. Inicialmente, elas eram vistas como doenças das cidades – e a ideia era erradicá-las. O governo lançou vários programas de limpeza das favelas – os moradores eram retirados de suas casas e realocados em periferias distantes. É uma solução terrível, pois as pessoas perdem acesso ao trabalho e à cidade. Depois, quando as comunidades passaram a ser vistas como parte da cidade, houve a tentativa de colocar a população em casas de melhor qualidade. Mas as construções eram de baixa qualidade e não atendiam às necessidades dos moradores. E o número de casas era insuficiente. Quando a Índia passou de um país socialista para uma economia de mercado, criou-se um novo plano, que inclui a iniciativa privada. Mas nenhum deles foi capaz de criar moradias suficientes para as populações das favelas. Todos esses planos foram forçados goela abaixo da população. Também houve movimentos de resistência – mas, até agora, eles não foram capazes de demonstrar sua viabilidade em termos da escala do problema.

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