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Mais experiente, Fabiana Murer mira no ouro para Rio 2016: 'Somos capazes de fazer mais do que imaginamos'

12/12/2015 18:18 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

rugby 2

Fabiana Murer ficou a 5 centímetros de voltar a ser a campeã mundial no salto com vara. A medalha de prata - já que a cubana Yarisley Silva levou a melhor - teve a merecida comemoração. Com os 4,85 m obtidos no Mundial de Atletismo de Pequim, na China, a brasileira igualou sua melhor marca, que já durava quatro anos. "Esses anos como atleta me deram uma confiança maior para arriscar coisas que talvez eu não arriscava. Aprendi a entender as atletas, estudar as fraquezas e os pontos fortes", disse.

Mais importante do que o resultado que fala por si e de mais uma medalha para ostentar, a atleta, já garantida entre as maiores do atletismo brasileiro em todos os tempos, conseguiu uma outra vitória num último 26 de agosto: superar o fantasma dos Jogos Olímpicos de 2008 de Pequim, quando as varas de Fabi sumiram e ela precisou competir com aparelhos emprestados. O resultado, como se sabe, acabou não sendo dos melhores na primeira vez que a brasileira passou pelo estádio Nacional de Pequim, o famoso Ninho de Pássaro.


fabiana murer

Fabi chega para os Jogos Olímpicos em ótima fase



Só por isso o ano de 2015 já mereceriam ter espaço reservado entre os melhores da vitoriosa carreira da paulista de 34 anos. Além do segundo lugar no Mundial, Fabi faturou a prata também nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, novamente atrás somente da rival que representa a ilha dos irmãos Castro. A saltadora tem esperanças de que no próximo ano, disputando a Olimpíada no Rio de Janeiro, as coisas podem ser um pouco diferentes. Como? Com muito trabalho: "Posso melhorar no meu salto, na minha técnica (de salto) para, quem sabe, sair com o ouro olímpico".

Na conversa com o HuffPost Brasil, a atleta fala sobre a expectativa de pódio, das vitórias, medos, a ansiedade de se apresentar em casa e até do machismo no esporte. Confira os melhores momentos do papo:


fabiana murer

Em 2015, Fabi igualou sua melhor marca: 4,85 m



HuffPost Brasil: Os últimos meses trouxeram vários bons resultados para você. No ranking, no Pan, no Mundial... Se você pudesse escolher, a Olimpíada teria sido neste ano?

Fabiana Murer: Difícil falar... (risos). Foi um ano realmente muito bom para mim. Nos treinos e nas competições. Me sinto mais experiente do que antes. Depois de tanto tempo competindo, indo bem, indo mal... tudo isso me preparou para competir bem. Quero estar ainda mais preparada ano que vem. Mas isso depende de todo o treinamento. Posso melhorar no meu salto, na minha técnica (de salto) para, quem sabe, sair com o ouro olímpico. É difícil competir em alto nível. Mas estou me preparando para uma medalha. Qualquer uma me deixaria contente.

No começo do ano você falava em quebrar o recorde sul-americano (4,85 m) que é seu. O que você coloca como meta para o próximo ano além da Olimpíada? Como você pretende usar o primeiro semestre para chegar voando nos Jogos?

Começo a competir no final de janeiro. Depois vem a temporada em pista coberta com competições pela Europa. No meio de março tem o Mundial em pista coberta nos Estados Unidos. Vai ser uma competição importante para acompanhar o ritmo pensando na Olimpíada. Faço o Ibero Americano no Rio em maio. Todas essas são competições importantes. Faz um mês que voltei a treinar e preciso ficar atenta à parte física para evitar lesões. Também quero melhorar a parte técnica, que é o meu forte. É o que me fez estar entre as melhores do mundo.

A torcida brasileira é bastante exigente. Mesmo nos esportes em que ela não acompanha tanto de perto, ela exige demais dos atletas. Como você se prepara para uma Olimpíada em casa? Tem alguma preparação psicológica específica? Você adotou alguma mudança por conta disso?

Não faço nada específico pensando na Olimpíada. Ela é mais uma competição importante, como o Mundial. Estou encarando assim. Lógico que tem essa pressão maior por conta da torcida e da mídia, que vai estar em cima. Mas estou tentando encarar como se fosse uma competição em outro país. Sei que é diferente por ser no Brasil, mas todos esses anos me deram experiência para ficar tranquila. Sei fizer uma boa preparação, se conseguir passar por todas as etapas dos treinos, vou chegar bem. Exatamente como foi este ano de 2015.

Para qualquer atleta, a experiência pesa. Passar por derrotas, vitórias e por momentos de ansiedade e medo. Tudo isso ajuda. Você já passou por duas Olimpíadas. O que mudou na Fabiana nesses anos todos?

Muita coisa mudou! O que não mudou foi a vontade de buscar medalhas. Mas chegar mais tranquila para a prova e saber qual tática utilizar em cada competição. Isso é muito importante. Precisa acompanhar como estão os resultados das adversárias e entender quais são as alturas necessárias para chegar às medalhas. Às vezes você precisa passar uma altura ou outra. É preciso fazer isso. Deixar passar e partir para o próximo salto. Esses anos como atleta me deram uma confiança maior para arriscar coisas que talvez eu não arriscava. Como saber entender as atletas, estudar as fraquezas e os pontos fortes. Na primeira Olimpíada é aquela vontade de fazer. Essa vai ter vontade, mas com muito mais inteligência.

Queria escapar um pouquinho dos temas diretamente esportivos agora... Para além da expectativa da Olimpíada, tem a parte humana do esportista. Há um cenário de retrocesso dos direitos para as mulheres na Câmara e um país com uma enorme cultura machista. Queria saber como foi construir a carreira no esporte com todo esse clima? Você se lembra de ter passado por algum episódio de preconceito?

Nunca tive problema nenhum com isso. A minha prova é muito nova... Talvez até por esse machismo. Porque antes se pensava que as mulheres não poderiam fazer uma prova como salto com vara, que as mulheres não aguentariam o impacto. Por isso, o salto com vara é uma prova nova. Só em 2000 é que a modalidade feminina se tornou olímpica. Mas as atletas provam que é possível, sim. E as pessoas gostam de ver as mulheres na prova. É plástico, é bonito.

O atletismo tem um caminho certo, vamos dizer assim. Homens e mulheres recebem as mesmas premiações. Não existe diferença em relação a isso. A situação é a mesma para qualquer um. As atletas tiveram até uma ajudinha com o reconhecimento mundial da Yelena Isinbayeva. Com ela batendo os recordes, sendo campeã, acabou mostrando mais a prova para o público. Isso nos deu reconhecimento.


fabiana murer

Sem preparação especial para competir em casa. A atleta aposta na experiência




Você anunciou sua aposentadoria para o final da Olimpíada. São os últimos passos de uma carreira bastante vitoriosa. Mas e as meninas que querem viver do esporte, que querem ser a nova Fabiana? Qual seria o conselho que você daria para uma menina que queira viver do esporte?

Sempre gostei de esporte. Desde pequena meus pais incentivaram. Eu construí minha vida e sou a pessoa que sou por causa do esporte. Ele me deu oportunidades de conhecer outras pessoas, de viajar, entender outras culturas. Tenho amigos fora do País por conta disso. Me abriu muitas portas. É uma vida dura, sacrificante, como qualquer profissão, e você precisa abrir mão de algumas coisas para conseguir o que quer. Mas não me arrependo de nada. De perder viagem com amigos, formatura... nada. Sempre foi minha vida estar no esporte. Diria que é preciso muita disciplina, muita dedicação, superação, pensar em como conseguir os primeiros objetivos. Comigo aconteceu de eu me surpreender. Nunca achei que seria campeã do mundo, mas eu consegui. Nós precisamos saber que somos capazes de fazer muito mais do que imaginamos.


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