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12/12/2015 15:46 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

A vida de José Aldo daria um filme. E deu mesmo. Conheça o maior astro brasileiro do UFC

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“Você quer ficar do lado da torcida do Aldo ou do lado do adversário?

Foi a primeira pergunta de Edge Schaydegger, um dos assistentes de direção. “Vou ter que fingir que estou torcendo?”, respondi, preocupada com um possível mico. “Sim, e muito”, Ed disse. “Tem área de imprensa na cena? Eu posso interpretar uma jornalista, porque isso eu sei fazer.” O assistente gostou da ideia e me mandou pro figurino. Quinze minutos depois, eu saía da salinha com um par de brincos novos (os meus eram grandes e podiam refletir as luzes do cenário) e um terninho (sob protesto: “Nenhum jornalista se veste assim no dia do evento”, reclamei). Quando voltei para o set, no entanto, me colocaram bem ao lado do octógono oficial do UFC, que havia sido montado na véspera. “Tem umas papeletas aqui de juiz lateral. Olha com atenção pra cena de luta e finje que está anotando. E fala de vez em quando nesse microfoninho”, orientaram. “Ah, e não levanta de jeito nenhum quando a câmera estiver rodando, pra não ser atingida por ela.”

Naquela manhã de setembro, o Ginásio Poliesportivo de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, era o cenário do penúltimo dia de gravação de Mais Forte que o Mundo — A História de José Aldo, longa-metragem com previsão de estreia em 14 de janeiro, produzido pela Paris Filmes e dirigido por Afonso Poyart. É uma cinebiografia de José Aldo Júnior, campeão desde 2011 dos pesos-penas (até 65 quilos) do UFC, organização de MMA mais bem-sucedida do mundo. Aldo é também o número 1 do ranking peso por peso da franquia, o que o torna o maior atleta de artes marciais mistas do planeta. Num país com tantos bons esportistas, com ricas histórias de vida, ele foi escolhido para ser o protagonista dessa produção que custou R$ 5 milhões de reais com um dos mais criativos diretores de cinema do país, cujo maior sucesso é o arrojado Dois Coelhos.

“O Sandi [Adamiu, diretor de expansão e acionista da Paris Filmes] me ligou um dia, depois de ver o trailer do meu filme, dizendo que a gente tinha que filmar juntos e que pensava em algo sobre MMA”, ele contou em uma tarde de outubro, sentado em seu amplo apartamento no Alto de Pinheiros, em São Paulo. “Nunca fui de luta e dei um Google: ‘lutadores de MMA brasileiros’. Apareceu um clipe do José Aldo, uma compilação de cenas da carreira. Pensei: ‘Nossa!’. Daí vi que ele tinha uma história pessoal diferente. E fui atrás pra comprar os direitos.”

Poyart diz que viu na história dele todos os elementos necessários: vida difícil, força de vontade, luta por um sonho, superação.

“E tem um lance com o pai, que é uma história marcante. É um herói, mas tem uma faceta de vilão ao mesmo tempo, é ambíguo”, conta o diretor.

José Aldo da Silva Oliveira Júnior nasceu bastante pobre, na periferia de Manaus. O pai, pedreiro, vez ou outra exagerava na bebida – e os maus-tratos dele fizeram com que a mãe abandonasse a família. “A primeira lembrança que tenho da minha infância é dos jogos de futebol na rua com a molecada”, conta o atleta, todo suado sentado ao meu lado sobre um saco de pancadas, depois de uma sessão forte de treino na academia Upper, no dia mais quente do ano até então no Rio de Janeiro. “Eu queria mesmo era ser jogador, mas logo entendi que Manaus não tinha força no futebol. Sabia que seria esportista de alguma forma, porque era o que eu gostava de fazer e no que era bom. Fui então fazer capoeira”, lembra. Dela, passou para o jiu-jítsu. “Comecei a ganhar campeonato de jiu-jítsu, vinha pro Rio competir e aparecia na revista, daí que pensei: é isso que vou fazer, é isso que quero.” A capital do Amazonas ficou pequena demais para ele – Aldo resolveu então mudar-se para o Rio, com uma mão na frente e outra atrás.

Cento e setenta figurantes estavam na cena da luta entre José Aldo e Mark Hominick – na vida real, o UFC 129, em abril de 2011, foi o evento com mais público até então, com 55 724 espectadores no Rogers Centre, em Toronto, no Canadá (o recorde foi quebrado na Austrália em 14 de novembro último, com 56 214 pessoas).

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José Loreto na pele do astro do UFC

José Loreto, o ator global que interpreta José Aldo no filme, chegou à cena de roupão e chinelo de dedo. Seu rosto havia sido maquiado e estampava a cicatriz que José Aldo ganhou na infância, quando caiu de cara na grelha quente de churrasco.

O ator subiu no octógono, teve a bandagem ajeitada. Antes de a cena começar a ser rodada, treinou a coreografia da luta com Dirlei “Mão de Pedra” Broenstrup, profissional de MMA, que faz o papel de Hominick.

“As lutas principais do filme, cenas mais longas, eram coreografadas”, contou José Loreto mais tarde para mim. “Tinha muita repetição de cena, mas também muito improviso. Tomei cotovelada, soco, chute de verdade. Fui embora um dia da gravação com o cérebro balançando de tanta porrada. Mas eu queria dar essa sinceridade pro filme.” Chamado para fazer o teste para ser um personagem criado por Poyart, uma espécie de alter ego de Aldo (papel que ficou com Rômulo Arantes Neto), Loreto conquistou o diretor e o posto de ator principal. Depois de escolhido, o faixa preta de judô, que não sabia nada de boxe e muay thai, passou a treinar essas modalidades exaustivamente.

“Tinha um personal para treinar muay thai e MMA, treinei jiu-jítsu e um pouco de boxe, como eles fazem mesmo. Fiz muito sparring [treino que simula luta]”, diz o ator. “Eram pelo menos duas horas de luta por dia, além de uma hora de preparação com crossfit. Mais importante do que aprender e fazer as técnicas perfeitamente, o que eu queria mesmo era ter a vivência de um lutador, essa rotina desgastante de luta e treino. Foi difícil, cansativo, exaustivo.”

No set, quando começa a gravação da primeira cena, entendo por que me pediram para não levantar de jeito algum. Poyart inventou uma grua giratória que, com a câmera em uma extremidade, ficava rodando em torno do octógono em alta velocidade, para pegar o ringue de todos os ângulos. Não foi a única invencionice do diretor. No dia anterior, uma geringonça em formato de semicírculo, com 30 câmeras GoPro em sequência, foi usada pela equipe para gravar cenas de luta, também em 360 graus. Os takes foram feitos várias vezes, em diversos ângulos. No fim deles, entrava o pessoal da maquiagem para ir “machucando” José Loreto e Mão de Pedra. “Pega isso, esse transe dele”, disse Poyart para o câmera, enquanto Loreto fazia algo muito característico de José Aldo no começo das lutas. Ele fica de cabeça baixa, meio pulando, meio dançando, sem levantar o olhar – como diz Poyart, quase num estado alterado de consciência. “Fico refletindo sobre tudo que fiz no treino. E visualizando: se ele fizer isso, faço assim. Também faço oração pra que eu saia sem lesão nenhuma”, conta Aldo sobre o momento.

André Pederneiras, ou Dedé, é uma das principais figuras na vida de Aldo. O treinador foi quem acolheu o garoto quando ele chegou de mala e cuia no Rio de Janeiro. “Se eu disser que me lembro com exatidão de quando vi o Júnior pela primeira vez estou mentindo”, conta ele, sentado em um banco de madeira de sua academia, no Flamengo, no Rio. “Naquela época, chegava gente de fora toda hora, todo mundo duro, pedindo para dormir na academia. Mas me lembro que ele me disse que tinha vindo para ficar. Os outros vinham para passar um tempo, treinar uns 20, 30 dias. O Júnior disse que não ia embora.”

Quem levou Aldo (ou Júnior, como Dedé e os amigos o chamam) para o Rio foi Marcos “Loro” Galvão, amigo de treino de jiu-jítsu de Manaus. Loro já estava por lá quando recebeu uma ligação de Aldo, pedindo ajuda para sua mudança. Foi avisado de que a vida era dura, que ele teria que dormir no chão da academia. Não desistiu – economizou trabalhando com o pai como servente de pedreiro para comprar a passagem de ida de avião. No aeroporto, sem grana para o ônibus, foi a pé até a academia de Dedé. Aldo e Loro dormiam até tarde, para não gastar no café da manhã, e dividiam marmita. O amigo recebia uma bolsa de 200 reais – e, com ela, bancava os dois.

“Ele era muito pequeno e franzino”, conta Dedé, que, na época, não tinha uma equipe de MMA, apenas de jiu-jítsu. “Mas uma coisa me chamou a atenção: mesmo daquele tamanho, treinava de igual pra igual com os caras muito maiores.” Quando a equipe começou a migrar para o MMA, a sorte de Aldo também mudou. Dedé havia casado uma luta de um atleta seu, Tony “Mendigo”, com um lutador de Minas Gerais. Dias antes do evento, Mendigo sumiu. Quando ia contar para o pessoal de Minas o que acontecera, soube que o adversário havia se machucado. Ofereceram outra luta no lugar, na categoria de 65 quilos. “Liguei pro Júnior e perguntei se ele queria estrear no MMA. ‘Claro!’, foi a resposta. Ele foi pra lá e venceu a luta. No fim, recebeu um cheque de 800 reais. E disse: ‘Cara, nunca vi tanto dinheiro na vida!’. Ele tinha aceitado a luta e nem sabia que ia ter grana.”

Foi na academia de Dedé Pederneiras que, em 2005, José Aldo conheceu a mulher de sua vida, Vivianne Oliveira (Cleo Pires no filme). Nascida na classe média alta de Curitiba, ela se mudou com a família para o Rio depois que o pai, engenheiro da Petrobras, foi transferido. Foi treinar muay thai na academia e teve a ajuda de Aldo na preparação para uma luta. “Lembro de ele ser magriiiinho”, me disse Vivianne, na lanchonete da Upper. Os dois se aproximaram depois da luta de Vivi e começaram a namorar. “A primeira vez que subi um morro na vida foi quando fui conhecer a casa dele. No começo me assustei. Tinha arma, tiroteio. Eu chorava, foi terrível. Mas já estava envolvida com ele. A única coisa que me segurava era o amor.”

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A repórter se tornou figurante do filme

Vivi e o marido foram longamente entrevistados algumas vezes por Afonso Poyart para a construção do roteiro de Mais Forte que o Mundo. O casal sabe que o longa retrata a vida de José Aldo, mas também traz uma dose de criação. “Diria que tem uns 25% de ficção”, diz Poyart. “Escrever um roteiro sobre alguém vivo tem uma complicação, que é não poder livremente ir criando coisas. Mas acho que conseguimos preservar a essência. Mexi um pouco aqui e ali para tornar a história um produto cinematográfico, com uma narrativa envolvente. Não é um documentário. Aldo só me pediu para não colocar ele fazendo duas coisas, bebendo e batendo em mulher, porque disse que isso ele nunca faria.”

Entre os fatos reais, a luta contra Mark Hominick, da qual participei como figurante, foi um marco na carreira do atleta. Era a primeira vez que ele defendia o cinturão do UFC – Aldo era campeão do WEC, evento comprado pelo UFC meses antes. “Foi depois dessa luta que a carreira dele deslanchou de verdade, ele passou a ser mais conhecido”, diz Vivianne. “A primeira vez que vi Aldo lutar foi no WEC, e me lembro que pensei na época o mesmo que penso hoje: fiquei impressionado com sua capacidade atlética”, conta Dana White, o presidente do UFC. “Tem um vídeo em que ele, de repente, salta no ar com uma joelhada voadora. É uma das coisas mais inacreditáveis que já vi. Sempre me impressiono com a técnica dele em pé. É realmente um lutador perfeito.”

Depois de sua estreia no MMA, que nem registrada oficialmente está, José Aldo fez 26 lutas. Perdeu uma única vez (“quando aceitou a luta porque precisava de grana. Desde então, jurou que nunca mais lutaria por dinheiro”, conta Dedé), em 2005, no Jungle Fight. O atleta não sabe o que é ser derrotado há 18 lutas, há dez anos. No UFC, tem sete defesas bem-sucedidas de cinturão. Ganhou bastante dinheiro, o suficiente para ter uma vida confortável.

Na cena da luta contra Mark Hominick, tive a companhia de dois outros figurantes. Um era amador como eu, Eduardo Leandro, que foi parar lá porque mora perto do ginásio onde a gravação aconteceu e uma amiga, da produção do longa, o convidou. Ao nosso lado estava um ator, Carlos Doria, que me era familiar. “Não está reconhecendo ele? É o Papai Noel, aquele bem famoso”, disse Eduardo. Carlos é proprietário da Doria Eventos, uma agência de papais noéis (“todos com barba natural”). Descobri, portanto, o que o bom velhinho faz no resto do ano.

Depois de uma hora e meia de gravação, chegaram no ginásio duas presenças ilustres. Rodrigo Minotauro Nogueira, ex-campeão do finado e saudoso evento Pride e do UFC, foi com Giovani Decker, presidente do UFC no Brasil, visitar o set. Poyart aproveitou para pedir que gravassem também uma cena como figurantes, torcendo para José Aldo. “Em 2005, eu era promotor de um evento, o Minotauro Fight. Sempre prestava atenção em caras novos e estava ouvindo falar muito do Aldo”, me contou Rodrigo, agora um atleta aposentado e embaixador do UFC, cuja missão é encontrar lutadores promissores para a organização. “Um dia surgiu um evento em Salvador, uma vaga nos 60 quilos. Chamei o Aldo. Ele morava na academia, precisava de grana, então paguei adiantado. Esta é uma categoria em que se estapeavam por uma vaga. Só que, quando botei ele, todo mundo começou a dizer que estava lesionado. Falei com ele: ‘Acho que estão correndo de você’. Ele, muito simples, me disse que precisava do dinheiro. E se ofereceu pra lutar muay thai e boxe no evento, porque estava preocupado em ter recebido e não lutar. Eu disse pra ele ficar com a grana que estava tudo certo. Mas brinco que me deve até hoje essa luta.”

O próximo desafio de José Aldo é certamente o mais esperado pelos fãs. Ele enfrenta, em 12 de dezembro, em Las Vegas, o irlandês Conor McGregor, no UFC 194. Conor tem o cinturão interino dos pesos-penas. Os dois deveriam ter lutado em julho, no UFC 189. Aldo, porém, sofreu uma fratura na costela a poucos dias da luta e desistiu dela. O americano Chad Mendes foi encaixado no lugar e uma disputa de cinturão interino foi criada e o irlandês venceu. Com a desistência, José Aldo perdeu US$ 4 milhões – ou R$ 15 milhões. Por que ele não aceitou a luta, mesmo lesionado, e embolsou a grana – já que, se perdesse, certamente a revanche seria marcada para breve? Muita gente se perguntou isso, inclusive eu. “Jurei que nunca mais ia lutar por dinheiro”, ele me disse. “Foi muito corajoso da parte dele não aceitar a luta”, afirma a esposa. “A gente pensou muito nisso. Pô, também somos filhos de Deus! Era uma grana que dava pra se aposentar, um dinheiro que nunca vimos na vida. Mas, pra ele, é mais do que dinheiro. São anos de carreira, é o cinturão, é o ego.”

Conor é um atleta duro. “Ele representa um perigo real para Aldo”, afirma Alexandre Matos, do site MMA Brasil, um dos maiores especialistas do país no esporte. “Trocar em pé com o Conor é arriscado, o sujeito é muito forte e tem ótima capacidade de finalizar lutas.” Mais do que seu jogo, Conor é conhecido por ser falastrão, daqueles que sabem muito bem usar sua imagem para promover os combates – e, claro, ganhar dinheiro. O oposto de seu adversário. Para o bem e para o mal. “Aldo é introvertido, não faz questão de aprender a falar inglês – lembrando que ele trabalha para uma empresa americana. Poderia se esforçar para ser mais vendável. Ele, inclusive, seria o principal beneficiário.”

Caso Aldo perca, a estreia do filme será três semanas antes da revanche que deve ser marcada. Ele me diz que sempre trabalha com a hipótese da derrota. “No dia em que pensar que não vou perder nunca, vai ser minha derrota. O melhor que faço é treinar todo dia, me cobrar. Ser hoje melhor do que fui ontem. A cabeça é meu ponto forte. Eu podia ter dado muito errado por causa da minha história de vida. Mas não dei por causa da minha cabeça.”

Enquanto trabalhava na edição do filme, que teve mais de 200 horas de gravação, Poyart me prometeu que não vai cortar minha cena do longa. Portanto, preste atenção: sou uma moça de terninho sentada ao lado do Papai Noel, com um lápis na mão. A produção do filme confiscou a caneta esferográfica que eu havia levado para o set. “É melhor você usar um lápis. Não sei se usam BIC no Canadá”, foi a justificativa. Mas não pisque, porque posso passar despercebida.

No fim de nosso papo na lanchonete, Vivianne me fala: “Quando olho pra trás, penso: ‘Caramba, nossa vida daria um filme’”. E, depois de um breve intervalo, ri: “E deu mesmo, né?”.

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