COMPORTAMENTO
18/11/2015 20:09 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

Desculpe, Kate Winslet. Pode ser 'vulgar', mas precisamos, sim, falar de salários

Marc Piasecki via Getty Images

Assim como os pais precisam ter com seus filhos aquela "conversa embaraçosa" sobre sexo, as pessoas precisam ter com seus colegas de trabalho aquela "conversa embaraçosa" sobre salários.

Celebridades como Jennifer Lawrence vêm se manifestando sobre a vergonhosa disparidade salarial entre homens e mulheres em Hollywood. Mas essa conversa sobre dinheiro está deixando a atriz britânica e também celebridade Kate Winslet sem jeito, conforme ela disse esta semana em entrevista à BBC.

“Estou tendo um problema grande com estas conversas”, falou Winslet, que atua no filme recém-lançado “Steve Jobs”, ao programa “Newsbeat” da BBC. “Entendo por que esse assunto está vindo à tona, mas talvez seja uma coisa britânica. Não gosto de falar de dinheiro. É um pouco vulgar, não?”

Winslet não é a única a sentir-se constrangida em falar de dinheiro. Em uma conferência sobre a disparidade sexual entre homens e mulheres realizada recentemente no Harvard Club, em Nova York, Elizabeth Weingarten observou que a maioria das pessoas preferiria falar de sua vida sexual que de seu salário.

“Perguntar à minha mãe quanto meu pai ganhava era mais difícil que perguntar sobre sexo”, falou Weingarten, vice-diretora da New America Foundation e autora de um artigo longo sobre transparência salarial publicado na edição deste mês da revista More.

E, assim como os pais precisam ter com seus filhos aquela conversa sobre sexo, as pessoas precisam ter com seus colegas de trabalho aquela conversa sobre salário. Uma conversa aberta sobre dinheiro – aquele tipo de papo que deixa Kate Winslet incomodada – é uma das melhores maneiras de combater a discriminação salarial e a disparidade salarial entre homens e mulheres.

kate winslet

A atriz Kate Winslet disse à BBC que essa conversa toda sobre salários a está deixando sem jeito

Quando as mulheres têm informações verdadeiras sobre o que outras pessoas estão ganhando, estão mais bem posicionadas para reivindicar sua parcela justa.

“A transparência salarial é a melhor proteção contra a discriminação de gênero, racial ou de orientação”, disse recentemente Dane Atkinson, executivo-chefe da firma de analítica SumAll, falando à Society for Human Resource Management (Sociedade de Gerenciamento de Recursos Humanos). Na empresa dele, as informações salariais são abertas a todos os funcionários, fato que, segundo ele, simplifica muito os processos de contratação e negociações.

Está ficando mais fácil descobrir quanto as pessoas ganham, graças a empresas como a SumAll, que estão apostando na transparência (a Whole Foods também pratica a transparência salarial) e graças especialmente a sites como GlassDoor e Payscale, que divulgam informações salariais autorrelatadas.

De acordo com dados do governo federal americano, em todos os tipos de trabalho as mulheres ainda recebem US$0,78 por cada US$1 pago a homens na mesma função.

Mesmo quando se levam em conta outros fatores, como experiência de trabalho e setor econômico, as mulheres recebem menos que os homens, desde executivos-chefes a caixas de bancos. A situação é ainda pior para as mulheres negras e hispânicas.

jennifer lawrence

A atriz Jennifer Lawrence vem falando abertamente sobre a disparidade salarial entre homens e mulheres.

Weingarten observa em seu artigo que no setor público e nos empregos sindicalizados, onde os salários são do conhecimento público, a disparidade salarial é mais baixa –respectivamente US$0,89 e US$0,91.

Durante décadas, Lily Ledbetter, gerente de uma fábrica da Goodyear no Alabama, recebeu menos que os gerentes homens que trabalhavam ao seu lado, até que, finalmente, alguém lhe mandou uma cartinha anônima contando o que estava acontecendo.

Ela processou a empresa, e o processo chegou até a Suprema Corte. Apesar de ela ter perdido a ação, sua luta inspirou uma lei federal que facilita as coisas para trabalhadores que querem processar seus empregadores por discriminação salarial.

Apesar de a questão da discriminação salarial entre homens e mulheres ter sido objeto de litígio na Suprema Corte e discutida pelo presidente, ela só ganhou destaque mais amplo quando o grito de guerra foi ecoado por atrizes de Hollywood.

Documentos vazados durante o ataque cibernético contra a Sony no começo deste ano revelaram que Jennifer Lawrence estava recebendo por seu trabalho no filme Trapaça (American Hustle) menos que seus colegas de elenco homens, ou “as pessoas sortudas que têm pênis”, como ela disse em um texto recente.

Os documentos vazados também revelaram um desnível salarial entre executivos e executivas da Sony.


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A atriz Charlize Theron usou as informações obtidas do vazamento para negociar um salário melhor para ela mesma.

Deborah Kolb, autora de Negotiating at Work: Turn Small Wins Into Big Gains , disse ao Huffington Post recentemente que armar-se com informações sobre salários lhe dá condições de negociar um contrato ou acordo melhor.

“Se você tem boas informações na hora de ir pedir um aumento, isso é bom”, disse Kolb, professora emérita do Simmons College e assessora de executivas em questões relativas a negociações e salários.

Segundo dois estudos, as mulheres têm resultados melhores em negociações sobre salários quando possuem informações concretas sobre salários.

As informações podem ser especialmente úteis na hora de negociar o salário que você vai receber em um emprego novo. Segundo Kolb, é mais difícil pedir um aumento a seu empregador atual depois de descobrir que você está recebendo um valor injusto, mas existe uma maneira inteligente de fazê-lo.

A ideia é apresentar a questão como um problema sistêmico. “Posso dizer ao meu chefe: ‘Podemos estudar os salários em nosso grupo? Acho que pode haver um problema nessa área.’ Apresente a coisa como um problema para a empresa, não como um problema pessoal”, ela recomendou.

Uma ex-funcionária do Google revelou recentemente que criou uma planilha para profissionais da empresa de tecnologia, na qual alguns deles compartilhavam suas informações salariais. Segundo ela, o documento trouxe à tona algumas discrepâncias. E a empresa acabou dando aumentos aos profissionais.

Antes de eu deixar a empresa cerca de 5% dos meus ex-colegas tinham colocado seus salários na planilha para todo o mundo ver. As pessoas pediram e receberam salário igual com base nos dados da planilha.

Conhecimento pode ser poder, mas falar sobre quanto você ganha não é tão fácil. Explicando que ela tem sorte e está satisfeita com o que ganha – que, obviamente, está muitíssimo acima do que ganha a maioria das pessoas --, Winslet falou:

“Me parece estranho estar falando disso assim abertamente”.

Mas, como mostrou J.Law, figuras públicas como Winslet ajudam mais quando superam seu incômodo em falar de seus salários altos e falam sobre justiça salarial.

Weingarten contou que, quando pediu aos especialistas que advogavam transparência salarial para dizer quanto ganham, nenhum deles quis falar.

E, apesar de estar escrevendo sobre o assunto, admito que me sinto meio nervosa diante da ideia de dizer ao sujeito ao lado quanto eu ganho (desculpe, Ben!).

Mesmo assim, dizer aos seus colegas de trabalho quanto você ganha não é ilegal. A troca de informações sobre salários entre colegas é protegida por uma lei trabalhista da época da Grande Depressão. Portanto, se você acha que está recebendo menos do que merece, é do seu interesse começar a fazer perguntas.

É claro que a transparência por si só não vai resolver a disparidade salarial entre homens e mulheres – mas ajuda.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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