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16/11/2015 21:40 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Lama tóxica pode contaminar toda a cadeia biológica na região do Rio Doce, alerta geólogo

ELISEU DAMASCENO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Mensurar os danos da tragédia de Mariana, resultado do rompimento de duas barragens de rejeitos, é praticamente impossível. Essa é a avaliação do geólogo Márcio Santos, que há 14 anos faz pesquisa de minerais.

Em entrevista o HuffPost Brasil, o mestre em Gestão Ambiental afirmou que a vida dos moradores da região foi devastada e fez um prognóstico para o futuro da área.

"O sonho foi destruído, assim como a raiz dele. Além de não poder mais voltar para onde viveram, os moradores estão desagregados, cada um em um lugar. (…) Muitos ali vão ter que contar com familiares que moram fora ou vão depender de caridade."

O dano ambiental, segundo ele, é outro que se arrastará por anos. De acordo com Santos, há dois problemas pela frente: contaminação do ecossistema e a dificuldade de recuperação do rio Doce.

Na avaliação do professor no noroeste de Minas, a Samarco, controlada pela Vale e pela BHP, responsável pelas barragens rompidas, vai judicializar o acidente e sobrará para o Estado reconstruir a área afetada pelo tsunami de lama — processo que é caro.

Paralelo a isso, tudo que foi banhado pela lama poderá estar contaminado. As substâncias tóxicas nos organismos dos moradores da região tornam as pessoas mais suscetíveis a doenças.

O rompimento das duas barragens no último dia 5 deixou pelo menos 9 mortos, 15 desaparecidos e mais de 600 desabrigados. Os danos deixaram Governador Valadares (MG) sem água e ultrapassaram a barreira do estado. Cidades do Espírito Santo próximas à região também corre risco de desabastecimento.

Leia a íntegra da entrevista com Márcio Santos:

HuffPost Brasil: Quais danos sociais provocados pelo desastre?

Márcio Santos: Existem diferentes tipos de danos provocados. O maior é a perda do patrimônio dos moradores da região, no caso de quem permanece vivo. Quem morreu, não tem como estimar o dano. Para os viventes, o patrimônio foi devastado, eles perderam tudo. Essas comunidades rurais são sustentadas em um modo de vida de relações de parentesco, em uma pobreza que não chega a ser miséria. Dá para sustentar o filho e desejar uma escola melhor. Mas esse sonho foi destruído, assim como a raiz dele. Além de não poder mais voltar para onde viveram, os moradores estão desagregados, cada um em um lugar. Eles vão seguir para periferias de cidades grandes, como mão de obra mal preparada em um lugar onde se exige qualificação profissional. Este é o resultado da tragédia no curto prazo. Para longo, vai ser reconstruir a pessoa. Muitos ali vão ter que contar com familiares que moram fora ou vão depender de caridade.

E para o meio ambiente?

As mineradoras sempre afirmam deliberadamente que o material não é tóxico. Do ponto de vista ambiental, isso é uma grande falsidade. Estão presentes no minério diferentes metais pesados; associado a ele tem pelo menos manganês, que em elevados níveis é tóxico. As mineradoras enriquecem o minério e jogam o rejeito na barragem. Ou seja, também tem fósforo. Esses dois todos sabem que existem porque estão em escala maior, mas os outros, ninguém sabe. Ficamos na ignorância.

O que acontece com toda aquela lama?

Aquela lama que ficou vai correr a vegetação e se solidificar. Vai formar uma capa e esterilizar toda a área por onde passou. Mas não dá para saber os efeitos disso. Só agora os órgãos vão estão preocupados em estudar as características dessa lama para saber nível de toxicidade dela para elementos. Ela pode contaminar toda a cadeia biológica, esterilizar a terra. Essa capa com certeza traz prejuízo ao solo, mas o problema não é só esse. Os seres vivos sempre procuram se adaptar ao ambiente onde estão, vão viver e extrair daquele meio algum nutriente. Se tem contaminante, vai passar para a bactéria, para planta, fungo. Os contaminantes às vezes podem fazer mal a um ser vivo e não a outro, mas permanecem ali na cadeia biológica. A água já está imprópria para o consumo. Vai ter que tratar por anos para ela ficar minimamente livre de materiais tóxicos. Quem dependia dessa água não tem o que fazer. É impossível o consumo dela. Será preciso um estudo bastante aprofundado para saber o nível de contaminação.

Representando perigo para toda população…

Sim. Um animal se alimenta de bactéria, ocorre a interação e aquilo vai no processo de bioacumulação. Se você come uma planta, seja fruto ou raiz, que tem um teor de material pesado, ele vai permanecer no seu organismo. Se você continua se alimentando, ele vai se acumulando. São elementos de difícil eliminação. Alguns levam muitos anos para eliminar. Há elementos tóxicos que o corpo elimina, mas outros o corpo não consegue. A população local vai ter que conviver, pelo menos por um bom tempo, com água de caminhão pipa, doações. Será preciso ir atrás de novas águas.

E se a pessoa continuar a consumir?

Os metais pesados ficam alojados principalmente na medula e no cérebro. O corpo produz energia pelas mitocôndrias, que formam o ATP. Um dos elementos para esse processo é o fósforo, da mesma família do arsênio. Se há arsênio, ele não consegue finalizar o processo. O primeiro passo é a falta de energia, que se reflete em desânimo, cansaço, memória curtam dor de cabeça. Com o avançar desse processo de acumulação da substância, os danos vão crescendo. A pessoa fica suscetível a qualquer doença, como câncer, diabete, pressão alta, problemas reprodutivos.

Há chance de recuperação do rio Doce?

Leva-se muito tempo para restaurar ou melhoras as condições dos rios. Existem tecnologias, mas são muito caras. Há uma área degradada, com água contaminada. Primeiro é preciso eliminar toda a fonte de contaminação. Muitos locais terão que fazer dragagem e tirar esse material da margem. Ainda assim, não será possível voltar à situação original, mas pode se tornar menos ofensiva à saúde humana e a dos animais. A recuperação será um processo que levará anos. Resta saber se o Ibama e os demais órgãos ambientais vão conseguir fazer que a Samarco faça esse trabalho.

Qual o papel do governo?

Não é o melhor caminho aplicar uma multa de R$ 250 milhões que a empresa pode recorrer, em um processo que levará anos, enquanto o meio ambiente está contaminando as pessoas. Já vimos que não é uma coisa imediata. Recuperar o rio Doce vai acabar se tornando um trabalho do governo. O serviço de despoluição será pago pelos cofres públicos. Quando há dano, ele é socializado. A sociedade vai pagar.

Como a barragem pode ter se rompido?

Os maciços da barragem são feitos de terra compactada, é argila. Ela é considerada impermeável, mas é porosa. Não dá para passar um fluxo de água, mas é capaz de absorver um grande quantidade de água. Essa água vai impregnando a parede da barragem. O maciço vai aguentando uma pressão cada vez maior e a água atua como lubrificante. Se houver um pequeno abalo sísmico, a tendência é que esse corpo argiloso se movimente, sempre para baixo por causa da gravidade. O perigo é iminente.

Toda barragem corre este risco?

Em Paracatu [cidade no noroeste de Minas] tem uma barragem que está cheia, a de Santo Antônio. Ela é quatro vezes maior que a de Mariana, que rompeu. O problema de rompimento existe, há fissuras nessa barragem. Nesse caso, ainda há outro material pesado, o arsênio, por ter ouro. O arsênio é considerado um dos elementos mais tóxicos. Em alta quantidade, ele pode matar em poucas horas. Na região, 70% das pessoas têm nível de arsênio no corpo maior que o estabelecido pelo Ministério da Saúde.

A tragédia de Mariana

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