MUNDO
14/11/2015 13:50 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Somos todos parisienses, de novo

Pablo Blazquez Dominguez via Getty Images
MADRID, SPAIN - NOVEMBER 14: A woman with a French flag painted on her face looks on after a minute of silence in tribute to the victims of yesterday's Paris attacks out Madrid's Town Hall on November 14, 2015 in Madrid, Spain. At least 127 people have been killed and over 200 injured in a series of terrorist attacks in Paris, France on Friday night. (Photo by Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images)

Mais uma vez, somos todos parisienses.

Mais uma vez, os ideais de liberdade e paz estão sob ataque nas ruas que ajudaram a dar à luz a ideia de que, na vida moderna, uma não existe sem a outra.

Mais uma vez, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, apareceu num púlpito em Washington para declarar solidariedade americana à França – e para prometer que um ataque contra a sociedade francesa é um ataque às ideias de decência, modernidade e sanidade.

E, mais uma vez, o mundo – ou a parte que não ama o assassinato e odeia a paz – deve se levantar e simplesmente dizer: basta.

Com a chegada de uma noite fria em Washington, um lúgubre Obama se encaminhou para a sala de imprensa da Casa Branca. Seu semblante era austero, como se tivesse sofrido uma perda na família.

E de fato houve: mais violência em Paris, mais mortes, mais golpes terríveis contra uma cidade e um país que ajudaram a criar os ideais modernos de “liberdade, igualdade e fraternidade”.

A França, disse o presidente, enlutado mas determinado, é “o aliado mais antigo” dos Estados Unidos, e Paris representa “valores atemporais de progresso humano” num momento em que esses próprios valores estão sob ataque.

Nosso antigo aliado, acrescentou ele, tem sido um parceiro essencial dos Estados Unidos nas campanhas antiterrorismo ao redor do mundo. O que o

Obama não disse, mas sugeriu, é que a França em geral, e Paris em particular, sofrem como resultado disso.

A luta dos franceses, portanto, é a nossa luta.

Os ataques aparentemente coordenados em Paris deixaram dezenas de mortos.

O presidente da França, François Hollande, apareceu na TV francesa logo depois do pronunciamento de Obama.

Ele parecia mais abalado que entristecido. Hollande afirmou que as fronteiras do país estavam fechadas e que o Exército foi convocado a Paris. Depois de incidentes terroristas no passado – os ataques contra a sede do jornal satírico Charlie Hebdo e contra um supermercado, e um recente ataque frustrado num trem-bala --, Hollande soou como chefe de polícia.

Desta vez, ele soou como um líder de uma nação em guerra – assim como Obama, em tons mais brandos.

Os terroristas, disse Hollande, querem usar sangue e caos para amedrontar a população francesa e, por extensão, outros países democráticos e seculares ao redor do mundo.

Mas ele teve de admitir na noite de sexta-feira que “há motivos para sentir medo”.

De fato.

Como a França será capaz de receber a colossal reunião do mês que vem sobre a mudança climática, que deve atrair milhares de delegados de todo o mundo?

Como a França vai fechar suas fronteiras num momento em que milhares de refugiados da Síria e de outras partes do mundo buscam um abrigo seguro?

Por outro lado, que tipo de segurança esses refugiados podem esperar?

Se a França é o alvo “soft” definitivo – uma cidade aberta num país secular e provocador --, como ela pode se proteger nessa nova guerra? Uma cidade aberta, de cafés nas calçadas e parques públicos, Paris é, em seu layout e seu estilo de vida, o exemplo dos ideais agora ameaçados pela violência.

A resposta para essas e outras perguntas é ao mesmo tempo simples e complicada.

O medo terá de ser substituído pela calma, pela coragem e pela vida que os parisienses conhecem. As coisas vão mudar, mas não o bastante para matar a chama eterna que queima na Cidade Luz.

Por quê? Porque não pode haver liberdade se Paris for prisioneira. O mundo sabe disso. O mundo aprendeu essa lição duas vezes no século passado.

Vamos todos aprendê-la de novo – e parece que isso será necessário.


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