COMPORTAMENTO

Como é passar quatro dias no Monsters of Rock Cruise, um cruzeiro cheio de metaleiros cabeludos

09/11/2015 20:34 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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Pagar US$ 100 mil (R$ 379 mil) para balançar em um navio entre Miami e as Bahamas onde a única música permitida é o heavy metal. Acredite. Desde 2012, 3500 pessoas desembolsam algo em torno desse valor para fazer parte do Monsters of Rock Cruise (ou Morc), cruzeiro anual que reúne os maiores nomes (desconhecidos) do hard rock dos anos 80.

O cruzeiro no qual embarquei no meio deste ano era o quarto realizado com a temática música e heavy metal. Criação dos amigos norte-americanos Larry Morand e Gene Aldridge, as centenas de cabines divididas nos 18 andares da embarcação costumam ser preenchidas numa velocidade maior do que a de um solo de Eddie Van Halen, após serem anunciadas na internet. As 35 atrações que cruzavam a entrada do MSC Divina aguçavam a curiosidade de outras embarcações, prontas para zarpar. Se os nomes dos artistas pouco importavam para os curiosos – “Cinderella é um desenho da Disney, não?”, “Tesla é o nome de um inventor”, “Europe é um continente” – os cabelos espalhafatosos, as botas de couro e a maquiagem carregada traduziam perfeitamente o período de onde saíam. Uma porta dimensional parecia ter arremessado os anos 1980 para dentro do navio. Outra que não parecia entender a graça daquela turba ruidosa e animada era a recepcionista que checava as passagens e os passaportes. “Tenho uma boa e uma má notícia para você”, ela disse ao conferir meu documento. “A boa é que sua cabine está confirmada, é a 7196. A má é que, passando por aqui, você não tem mais como voltar.” Retribuí com uma risadinha sem graça.

No MSC Divina, cinco palcos serviriam para amplificar a nata do hard rock daquele período. No principal, diante da piscina, Eddie Trunk (apresentador do televisivo That Metal Show e espécie de embaixador do heavy metal) insuflava o público com piadas e o chamava para assistir ao primeiro show da noite, dos americanos do Tesla. “Vamos esquecer nossos problemas e os nossos empregos por estes próximos quatro dias! E comprar os CDs dos artistas que estão aqui!”, gritava Trunk, ressaltando ainda mais o ar anacrônico da empreitada. Famílias, casais, solteiros e coroas – que envelheceram junto às bandas a que ainda são devotos – respondiam aos gritos e se colocavam serenamente à frente da enorme estrutura montada em cima do deck de madeira. Tudo tão calmo e relaxado que por um momento pensei estar em um navio onde o reggae ditava o som e as drogas. Só era possível ver um atropelamento de pessoas em direção aos bares lotados de cervejas, bourbons e drinques especialmente criados com a temática heavy metal. Tudo pago. Os US$ 1 mil davam direito a pensão completa num amplo restaurante que funciona 24 horas, mas apenas com sucos, águas e chás. Morand conta que no cruzeiro inaugural, em 2011, logo no primeiro dia ficou desfalcado de Jack Daniel’s e Coors Light. “Para este Monsters, triplicamos a quantidade de bebidas de um cruzeiro comum”, contou com orgulho. Postar aquela selfie obrigatória com seu artista favorito também custa. E caro. São US$ 30 por 100 minutos de wi-fi.

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Do deck, desci para um dos palcos menores para assistir a um improvável herói. Antes, é bom lembrar que, mesmo que você tenha consumido toneladas de hambúrgueres, hot dogs ou o menu repleto de frituras no almoço ou no jantar, caminhar de um palco para o outro ajuda a manter a silhueta menos repulsiva. São 300 passos de uma extremidade à outra do navio, que levam, em média, três minutos em um ritmo bom. A programação tem início diariamente às 10h e se estende até a madrugada, quando artistas diversos se reúnem para uma jam que celebra hits como Don’t Stop Believin’, do Journey, e Rock and Roll All Nite, do Kiss. Voltando ao herói, quando desço para um andar intermediário do navio e entro no Golden Jazz Bar, reparo num sotaque conhecido. Carlos Chiaroni está de joelhos, lágrimas nos olhos e pulso fechado – o brasileiro de São Paulo repete cada sílaba que sai da boca do cantor Ron Keel. É a quarta vez de Carlos no Morc. “São minhas férias de todos os problemas. Venho com meus amigos, deixamos as mulheres em casa e somos felizes por quatro dias seguidos”, conta ele, que é dono da loja Animal Records, na Galeria do Rock, em São Paulo.

Para o brasileiro, Keel não deve nada para uma estrela como Mick Jagger. “É meu maior ídolo”, deixa claro. “Venho todos os anos para vê-lo, conversar, saber o que está fazendo.” Ron Keel, hoje com 54 anos, está no elo perdido entre o heavy metal praticado na Inglaterra no fim dos anos 1970 e o hair metal de nomes como Bon Jovi e Poison do meio dos anos 1980. Chegou a vender 5 milhões de cópias dos álbuns de sua banda, Keel, mas depois decidiu se enveredar pela música country quando percebeu a decadência do gênero no início dos anos 1990. Converso com Keel depois de o cantor finalizar uma longa discussão com sua esposa no deck do navio. A maioria dos artistas leva suas famílias para dentro do cruzeiro. Com cachês que giram entre US$ 5 mil e US$ 10 mil, em média, para dois shows de uma hora, o Morc é uma combinação de trabalho e férias. “Nos anos 90 fizeram chacota daquilo que fazíamos. Tiraram sarro da nossa roupa, do nosso cabelo. Achei que nunca mais voltaríamos a tocar. Mas agora, com esses cruzeiros, percebo que nunca mais vamos parar”, destaca, depois de me distribuir mais alguns cartões-postais do seu programa de rádio.

Cruzar com seu artista favorito dentro do navio é tão natural quanto escutar heavy metal até enquanto se está sentado numa privada – sem exageros. Eles estão espalhados nas piscinas (os artistas), nos refeitórios, no cassino, nos corredores, bares e elevadores. Também desembarcam para uma das atrações mais esperadas da empreitada de quatro dias. Dois palcos são montados numa ilha particular próxima do Caribe. Nela, além da água cristalina, há bares, restaurantes e uma programação que incluía stand-ups de comediantes e shows, com destaque para o Atomic Punks, uma banda cover da formação clássica do Van Halen que soa muito melhor que a original nos dias de hoje. Durante a apresentação, o guitarrista do Extreme – do sucesso More Than Words –, Nuno Bettencourt, acompanha o grupo e toca Hot for Teacher, clássico do VH. “Passei muita vergonha lá em cima?”, me pergunta ao descer do palco. Nuno está acompanhado da namorada, uma loira com jeitão de modelo. A moça está de biquíni e ele, de bermuda, camiseta e chinelo.

O assédio a Nuno, como a qualquer artista do cruzeiro, é respeitoso. O segredo, segundo Gene Aldridge, um dos sócios da empreitada, é não esconder o artista. “Se o cara ficar isolado, no seu quarto, não vale a pena criar um conceito como este. Como todos estão interagindo com os passageiros, o encontro se torna natural.” Reencontro Carlos Chiaroni na praia e ele pede a palavra. “O único senão do cruzeiro é a falta de rotatividade das bandas. Eles não pagam um cachê alto e outros artistas acabam recusando. Muitos aqui são um XV de Piracicaba embalados num papel do Palmeiras”, define o torcedor do alviverde imponente. “Mesmo assim, é muito mais legal do que um Kiss Cruise, em que a única banda que interessa é o Kiss e os shows começam só às 17h.” Morand responde que, além dos cachês, as bandas ganham com o merchandise vendido próximo ao palco principal: camisetas, CDs, livros e bugigangas como abridores de cerveja e adesivos.

Na programação diária, que comporta karaokê, festa à fantasia e até um MasterChef versão heavy metal – os artistas cozinham e são julgados pelo público –, uma das atividades mais esperadas é o Meet & Greet, encontro civilizado entre fã e artista. As filas são grandes, mas todos conseguem suas fotos e autógrafos. Há ainda a possibilidade de comprar um passe VIP por mais US$ 400 para poder “furar a fila” nessa e em outras atrações. Dentro da salão, com vista para o oceano, no último andar do navio, quatro artistas se revezam. No bar, enquanto a banda Winery Dogs distribuía simpatia, a namorada do guitarrista Richie Kotzen (ex-Poison) toma um drinque e observa o entra e sai de cabeludos à procura de uma lembrança. Julia Lage é uma paulistana de 33 anos que conheceu o músico em 2010 durante um show em São Paulo, no Blackmore Bar. “Ele me procurou no Facebook e marcarmos de nos encontrar dois anos depois. Foi estranho, mas logo nos apaixonamos. Hoje moro em Los Angeles.” Julia foi baixista do grupo Barra de Saia, que se apresentou até no Domingão do Faustão. Um dos músicos mais assediados no navio, o talentoso guitarrista não desperta o ciúme da esposa. “Achei que as fãs eram mais atiradas, mas tudo é muito calmo. Quando ficam bêbadas elas se assanham um pouco, mas sem exageros”, diz ela, que tem seus próprios projetos musicais na Califórnia. A falta de “pegação” é o que outro grupo de brasileiros que encontro no navio destaca: “As mulheres só querem os músicos”.

Mas não só as mulheres querem os músicos, como os homens também. Um dos que assediam Richie Kotzen é Paulo Eduardo Andrade, paulista de São José dos Campos. Paulo, 42 anos, viaja com a família. A esposa Daniela e os dois filhos, Adriano, de 11 anos, e Eduardo, de 9, também seguem os passos de Kotzen pelo cruzeiro. “É nossa segunda vez aqui e o ambiente é muito familiar”, aponta Andrade. Familiar e tomado por trabalhadores. No teatro para 1 500 pessoas, o grupo Y&T celebra 40 anos na estrada e rememora os bons e maus momentos do passado. “O grunge acabou com muitas bandas nos anos 1990. Um dia acordamos e tivemos que procurar emprego. Ficamos com muita raiva”, conta o vocalista Dave Meniketti. Menções bem-humoradas sobre a idade pipocavam por todos os cantos. O vocalista da banda Europe – de The Final Countdown –, Joey Tempest, brinca sobre o filho: “Ele me falou um dia: ‘Papai, eu te acho legal, mas você faz uns movimentos bem embaraçosos no palco’”. O heavy metal cristão do Stryper também não deixou a ocasião passar: “Quem aqui já passou dos 40? Todo mundo, né? E vocês ainda continuam com os cabelos mais compridos que os das suas esposas?”

Com o sucesso do Morc, a dupla Larry e Gene vai expandir seus tentáculos pelos mares. No ano que vem há dois Monsters of Rock Cruise – um na Costa Leste (em fevereiro) e outro na Costa Oeste americana (em outubro). Há ainda o Lebrewski Beer, um cruzeiro de cervejas artesanais e bandas de rock, que será realizado em março de 2016. O Hysteria on the High Seas, com a banda Def Leppard (em janeiro) e o Moody Blues Cruise (em fevereiro). Pensando nos brasileiros, Morand cita o Cruise to the Edge, cruzeiro que tem o Yes como banda principal e o rock progressivo como temática. “Em cada Morc temos, em média, 100 brasileiros conosco. No ano que vem teremos seis cruzeiros. Este ano, em novembro, temos o cruzeiro do Yes, que um dia queremos levar para as costas brasileiras”, revela. Pela estrutura impecável e dedicação dos fãs, é possível que os mares brasileiros logo sejam invadidos por esses “piratas” quando você menos esperar.

Números

3.500 passageiros

35 atrações, entre bandas e artistas solos

1.500 pessoas cabem no teatro

US$ 850 é a cabine mais barata, para dividir com mais três pessoas.

O valor já inclui a taxa portuária de US$ 250. A mais cara: US$ 9 250.

Bebidas alcoólicas à parte

US$ 4,75 por um chope de 250 ml, mais taxas

US$ 30 por 100 minutos de internet

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O Queensrÿche toca Jet City Woman no deck da piscina:

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