MULHERES

Paraisópolis é o verdadeiro paraíso do rugby feminino. E você nem sabia

07/11/2015 18:59 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

rugby 2

Passa, corre, bate, derruba e levanta. Sobretudo, levanta. E bem rápido. A dinâmica do rugby combina demais com Paraisópolis e seus 100 mil habitantes. A segunda maior comunidade de São Paulo é símbolo da desigualdade da capital. O bairro está encostado no abastado Morumbi e não muito longe dos potentes centros empresariais da Berrini e da Juscelino Kubitschek. Fugindo da novela das 19h e do retrato feminino criado na personagem de Bruna Marquezine, tem uma porção de meninas que adotaram o esporte inglês para além da atividade física. É desabafo, é desaforo, é força e é fé.

"Quando estamos muito estressadas e chegamos para o treino, dá para descontar tudo aqui.” Quem fala é a sorridente Karol Ribeiro, 18, a capitã da equipe juvenil (a chamada Categoria M-19) das Leoas de Paraisópolis. Antes que surja qualquer mal entendido, vale deixar claro que essa energia toda não pode ser confundida com violência ou atitudes antidesportivas. No rugby é necessário que a capitã mantenha a cabeça no lugar e transmita paciência ao time que lidera. É só ela quem pode falar com o árbitro também.

Mas não há como negar que o esporte que carrega o contato físico como pilar sugira um tanto de redenção pessoal em cada gota de suor. “Quando você está naquela 'bad', a agressividade até ajuda", concorda outra atleta, Karoline Ferreira, 18.


O bonde das atletas. Vai encarar?




rugby 4

Da esquerda para direita: Karoline, Karol e Glayceane



Esse desprendimento todo com a integridade física não nasceu com nenhuma delas. Como qualquer pessoa – mulher, homem, menina ou menino –, o instinto de preservação fazia com que elas temessem pelos contatos mais rígidos. O medo só passou quando encararam de frente o desafio de entrar em campo. "No primeiro dia eu não sabia de nada. Pensava que era futebol americano. Que joga a bola para frente e esbagaça todo mundo. Aí levei um touchzinho [como as meninas chamam a técnica usada para derrubar as adversárias], me quebrei toda e pensei: nunca mais volto. Mas não consegui", conta Karol, a capitã.

Já são quatro anos e oito meses que ela foi derrubada pela primeira vez. Naquela época, diferente do gramado sintético visto hoje, o jogo era disputado num misto de terra batida e pedregulhos. O amor, conta ela, veio na base da insistência e da adrenalina. "Derrubar é a melhor coisa!". Mas para por aí. O objetivo é fazer o lance de defesa, barrar o adversário e vida que segue. "Nos jogos oficiais, você percebe que algumas meninas têm maldade. Mas, se alguma delas vier e te bater, você não pode revidar. O revide precisa ser dado no jogo." É a voz e a clareza da líder que tem uma missão a cumprir. Vencer na bola. Sem trapaça. Sem atravessar ninguém. É rugby, afinal.


rugby 1

"Não vai passar. Não vai!"



Com a posse da bola oval, Glayceane Estevam, 18, é uma das mais velozes. É a maneira que ela encontrou para se desvencilhar das marcadoras e compensar o porte físico menos privilegiado. A menina que topou o convite feito por amigas e amigos há quatro anos diz dever ao esporte muito mais do que vitórias e corridas para a linha de pontuação no campo adversário. "Sempre fui a nerdizinha da escola. A menina que não tinha amigas por ser muito tímida. O rugby me ajudou a me expressar mais, ter opiniões e saber usá-las na hora certa." É bem verdade que a saúde também melhorou. Desde que tornou-se atleta, as crises de asma escassearam.

No Campeonato Paulista da Categoria M19 disputado em setembro, as Leoas saíram de campo invictas. Detalhe: sem ceder nenhum try às adversárias. Três passeios: Rugby para Todos 54 X 0 Alma Rugby, Rugby para Todos 54 X 0 Rio Branco e Rugby para Todos 26 X 0 Band Saracens.

As Leoas fazem parte de um projeto bem grande. Nascido em agosto de 2004, o Rugby para Todos atende 200 crianças - meninos e meninas -, dos 7 aos 18 anos. São três aulas por semana, tudo com orientação de técnicos, psicólogos e fisiologistas. A iniciativa veio dos amigos Maurício Draghi e Fabrício Kobashi, colegas de Pasteur Athletique Club desde os anos 90, que queriam criar um projeto voluntário que envolvesse o esporte inglês. Com patrocinadores, apoio da prefeitura e governos estadual e federal, o rugby hoje é parte viva da comunidade. Nos jogos, as arquibancadas do Palmeirinha, no coração de Paraisópolis, ficam lotadas.


Treinamento de fundamentos. A importância do passe



No meio deste ano, Bianca Santos, aluna do projeto e atleta da seleção brasileira da modalidade, foi premiada com a possibilidade de passar 45 dias no Summer Rugby Camp do Danville Oaks Rugby FC, em San Francisco, na Califórnia. Aos 17 anos, Bianca vive agora a expectativa de representar o Brasil nos Jogos Olímpicos. "Na seleção, tudo muda. As responsabilidades são altas, o comprometimento com os treinos, precisa manter a alimentação correta. Minha expectativa é de uma jogadora que treina duro para ser nomeada para as Olimpíadas. É saber que não vai ser fácil, mas vou lutar até o fim", disse ao HuffPost Brasil.

Se a Bianca chegou lá, Karol, Karoline e Glay também sonham em usar os quatro anos de experiência, campeonatos, vítórias e derrotas nos gramados amadores para conseguir se fixar numa equipe profissional. Para as três, o tempo de fazer essa transição está chegando. Como a categoria juvenil só aceita atletas com menos de 19 anos, é hora de começar a pensar num salto maior.

O treinador argentino Ariel Bruscantini, 26, é um dos responsáveis pela evolução técnica da equipe. Foi ele quem comandou as meninas nos últimos seis meses. "Já falei para todos que foi o melhor trabalho que fiz. Aqui você tem muito retorno, muito respeito das atletas, de todo mundo", conta num portunhol em estágio avançado.

De saída — Ariel volta para sua Mar del Plata em poucos dias —, ele não acredita que fará falta. Diz que a capacidade técnica das atletas formadas na comunidade ainda vai render bons frutos ao País. Que elas serão responsáveis por uma futura cultura do esporte no Brasil dentro de uma ou duas décadas. O segredo? A persistência e a paixão com que elas disputam cada palmo do gramado.

"Essas meninas não têm problemas para bater. Acho que é a vida que elas levam. Que é dura, muito dura... Então, para elas, dar ou receber um golpe não significa muito. A dor vem no momento da pancada, mas passa rápido." Não poderia ser diferente.


UM, DOIS, TRÊS...LEOASSSS




A força e a técnica do rugby feminino em Paraisópolis



SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: