COMPORTAMENTO

Para Ethan Nadelmann, é absurdo pensar que leis e força policial 'vão bloquear o mercado de drogas'

06/11/2015 15:35 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

ethan nadelmann

Ethan Nadelmann trabalha ativamente para reformar a política mundial sobre drogas. Sua palestra no ciclo de conferências TED já foi vista mais de 1,3 milhão de vezes.

O ex-professor da Universidade Princeton, apoiou e aconselhou, por meio da sua ONG — a Drug Policy Alliance — os movimentos de legalização da maconha em diversos estados americanos, como Colorado e Alasca, e também no Uruguai de Pepe Mujica. Atualmente, acompanha com entusiasmo a promessa de Justin Trudeau, o recém-eleito primeiro ministro canadense, em legalizar a maconha.

Nesta entrevista, o ativista americano explica o motivo pelo qual acredita que a guerra contra os entorpecentes é um erro e o porquê da descriminalização das drogas aumentaria, na sua visão, a segurança e os níveis de saúde entre os jovens.

mexico drug police

Por que na sua visão estamos vendo um desmonte da política de guerra contra as drogas?

Nadelmann - Essencialmente, é uma política absurda. É incrível o fato de ter durado tanto tempo como durou, pois era uma estratégia política ruim desde o começo. O mercado de drogas é como um mercado de commodities. Enquanto houver demanda, então terá oferta. É um absurdo a crença de que você pode usar leis e aumentar o uso da justiça e das forças policiais e militares para tentar bloquear ou abolir esse mercado. A razão para este desmonte atual é que mais e mais pessoas, assim como governos, estão reconhecendo que essa estratégia não pode ter sucesso e que os custos indiretos dessa guerra, como violência, corrupção, prisão em massa e doenças, são insustentáveis.

Então o senhor acredita que os efeitos imediatos do fim da guerra contra as drogas seria menos violência e menos corrupção?

Há três grandes danos associados à política global de proibição. O primeiro deles é visto na América Latina, em parte dos Estados Unidos e no Caribe. É o alto nível de desrespeito da lei, com violência e corrupção. Todas essas coisas são frutos de uma política de proibição fracassada. Da mesma forma que Al Capone foi resultado de um política de proibição de álcool fracassada nos Estados Unidos. O segundo dano é visto bastante nos Estados Unidos, que é a alta taxa de encarceramento da população por crimes não-violentos. Isso nos leva ao terceiro dano, que é um problema de saúde pública. Milhares de pessoas morrem de overdose, já que os governos preferem ter uma postura criminal e não de saúde. Essas são as três áreas que melhorariam se nós trocássemos a estratégia de proibição por uma de descriminalização.

Muito da discussão é sobre maconha. Mas qual é a sua opinião sobre a descriminalização de outras drogas?

Nadelmann - É importante fazer uma distinção entre descriminalização e legalização. A maneira mais valiosa de pensar sobre a reforma da política de drogas pode ser resumida em uma frase: reduzir o papel da criminalização e do sistema de justiça no controle de drogas o máximo possível e, ao mesmo tempo, avançado a saúde pública e a segurança. O objetivo da minha organização, a Drug Policy Alliance, é reduzir o espectro para longe da proibição e caminhar na direção de uma abordagem de descriminalização e de saúde, parando imediatamente no ponto em que os riscos de uma legalização são maiores que os benefícios. Para mim, parece claro que a maioria das sociedades estariam melhores com a regulação e a cobrança de impostos sobre a maconha, algo parecido como o que fazemos com o álcool e o tabaco. Nesse caso, os benefícios com a legalização seriam maiores que os riscos. Em relação a outras drogas, não há razão para a criminalizar a simples posse delas. Neste assunto, Portugal é um modelo. Há 15 anos eles mudaram a lei e fizeram uma promessa de que ninguém seria mandado para a cadeia por simplesmente possuir uma droga. E o abuso de drogas seria tratado por meio da saúde. A descriminalização da posse e do uso deveria ser aplicado para todas as drogas.

Mas se nós não vamos tratar como criminosas as pessoas que possuem essas drogas, então como vamos arrumar uma maneira para que essas mesmas pessoas as obtenham de maneira legal e não de traficantes?

Nadelmann - Essa é a pergunta mais interessante e importante para política global de drogas na próxima geração. Há pouco apoio, pouco mesmo, para que o crack e a cocaína sejam vendidos como o álcool e o cigarro são vendidos atualmente. Mas talvez possa surgir um movimento para que a cocaína possa ser vendida em pequenas quantidades como ingrediente em alguns produtos, como refrigerantes, tônicos e chicletes. É importante termos estratégias inovadoras para que as pessoas que tenham a tendência de comprar drogas façam isso de uma fonte legal e não de uma fonte criminosa.

Os Estados Unidos conduziram uma forte política contra drogas. O senhor acredita agora que o seu país poderia liderar uma nova maneira de pensar sobre as drogas?

Nadelmann - Nós fomos os lideres da guerra global contra as drogas, mas agora temos uma dramática mudança nos anos recentes. Os Estados Unidos emergiram como um líder global em legalização e regulação da maconha, tanto medicinal como recreativa, e acho que isso se mostrou como uma inspiração para outros lugares do mundo, especialmente na América Latina e no Caribe. Essa mudança na política domestica acarretou uma mudança na estratégia global do país. As legalizações da maconha nos estados do Colorado e de Washington, em 2012, e mais recentemente no Oregon e no Alasca, tiveram impacto incrível na mudança na política americana sobre drogas. Isso não faz dos Estados Unidos batalhar ativamente pela reforma da política mundial sobre drogas, mas também não torna o país um oponente da mudança. Eu vejo, atualmente, muito mais a Rússia atuando como opositora de uma reforma.

O senhor acredita que a visão da maconha como um negócio, assim como acontece com as bebidas alcoólicas e cigarros, pode acelerar a mudança da política mundial?

Nadelmann - Nos Estados Unidos, a maconha como negócio não é um fator importante para apoio da opinião pública. As principais razões para um americano apoiar a legalização da maconha são, segundo as pesquisas, as seguintes: é melhor ter a polícia focada em crimes sérios em vez de prender gente jovem com pouca maconha e, em segundo lugar, acreditam ser preferível deixar o governo regular, taxar a indústria e usar o dinheiro para o bem público, em vez de deixar o dinheiro para que gângsteres o usem para negócios ilegais.

E nos outros países?

Nadelmann - O Canadá, com Justin Trudeau como primeiro-ministro, eu espero que seja o segundo país, depois do Uruguai, a legalizar a maconha. No Brasil e em outros países da América Latina, o apoio para a legalização está abaixo de 40%.

Essa nova política sobre as drogas não deveria vir acompanhada também com uma melhoria na educação sobre o assunto, como aconteceu com a política de educação sexual e Aids?

Nadelmann - Se nós mudarmos a política sobre as drogas ou não, nós precisamos de melhor educação sobre as drogas. É preciso uma educação mais honesta sobre drogas. Precisamos aceitar que os adolescentes perdem a virgindade das drogas antes de perderem a virgindade sexual. O ponto de partida precisa ser: devemos manter as nossas crianças seguras. Utilizar apenas a política de educação “Diga não às drogas” não tem funcionado. Os jovens estão em grande risco por conta dos adultos que não providenciam uma educação honesta sobre drogas. É preciso continuar a desencorajar os jovens a usar drogas, mas também é necessário uma nova política para aqueles que vierem a usar, pois, no final, nos interessa mantê-los seguros e com uma vida saudável.

O senhor deve receber críticas pesadas sobre essa visão das drogas. O que o senhor diria para pais que sofrem com filhos adolescentes que usam drogas?

Nadelmann - A primeira coisa que eu falo com os pais que têm filhos adolescentes que usam drogas e que, portanto, opõem-se à legalização da maconha, é apontar que tratar a maconha como ilegal não fez nada para que o filho deles ficasse mais seguro. Os adolescentes no meu país tem, atualmente, melhor acesso à maconha do que os adultos. É importante frisar também a esses pais que se a maconha for legalizada, ela não será legalizada para o filho deles. Será apenas para os adultos. Trata-se não apenas de ajudar os pais com os problemas que eles enfrentam, mas também explicar um panorama maior e oferecer uma perspectiva racional e não apenas emocional da questão.

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