LGBT

O Vietnã já foi elogiado como líder em direitos LGBT. Os ativistas não concordam.

03/11/2015 16:00 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
BORJA SANCHEZ TRILLO / GETTY IMAGES

“Meu pai batia em mim, dizendo: ‘Não aceito um homossexual na minha casa”.

quarta parada gay

Na quarta parada anual do orgulho LGBT realizada em 2 de agosto de 2015 em Hanoi, Vietnã, centenas de manifestantes tomaram as ruas pedindo o fim da discriminação contra a comunidade LGBT. O homossexualismo segue sendo tabu no país comunista.

Esta é a oitava parte de uma série de dez reportagens sobre os direitos da população LGBT do Sudeste Asiático, que revela os desafios da comunidade na região e destaca o trabalho corajoso dos ativistas.

***

“Vietnã: Falho nos Direitos Humanos, mas Líder em Direitos Gays” , dizia o título de uma reportagem de 2013 da revista The Atlantic.

“Em Direitos Gays, o Vietnã Agora é Mais Progressista que os Estados Unidos”, disse a rede de TV NBC, em janeiro.

Alguns dias antes, a Bloomberg tinha declarado: “Casamentos Gays Planejados Após a Derrubada da Lei de Casamento do Vietnã”.

Mas as notícias positivas contam apenas parte da história.

Ativistas afirmam que, embora o Vietnã certamente esteja progredindo no que diz respeito às questões LGBT, o país não é “líder em direitos gays”.

A população LGBT do Vietnã enfrenta abusos e discriminação, especialmente em casa. E apesar de o país – uma das duas nações comunistas do Sudeste Asiático – ter derrubado a proibição do casamento gay este ano, casais gays não são protegidos nem reconhecidos pela lei.

Lương Thế Huy, gerente de programas LGBT do Instituto de Estudos da Sociedade, da Economia e do Ambiente (iSEE), diz ao The Huffington Post que as atitudes familiares rígidas ainda são um grande obstáculo enfrentado pela comunidade LGBT do Vietnã.

“Por causa das normas tradicionais – tais como manter intacta a linha familia, evitar humilhações etc. --, há muito estigma”, diz ele. “Muita gente também acha que as pessoas LGBT são um ‘mal social’ ou que é só questão de ‘moda’ ou ‘tendência’.

[O resultado disso] é que a maioria da população LGBT ainda esconde a sexualidade dos pais.”

Os ativistas dizem que o Vietnã certamente está progredindo no que diz respeito às questões LGBT, mas “líder dos direitos gays” o país não é.

Quando o iSEE entrevistou 3 000 gays, lésbicas e transgêneros no Vietnã, em 2008, 20% deles afirmaram ter apanhado de familiares.

“Meu pai batia em mim, dizendo: ‘Não aceito um homossexual na minha casa. Você nasceu homem de verdade, gosto de você tanto quanto dos seus irmãos, por que você está fazendo isso comigo?”, disse uma criança à organização, em 2012.

Outra pesquisa, realizada pelo iSEE em 2009, indicou que a maioria dos gays e lésbicas do país escondem sua identidade sexual por medo das repercussões sociais.

Somente 2,5% dos homens disseram ter saído do armário “completamente”,e 5% disseram que eram “basicamente” assumidos.

O instituto também descobriu que a percepção pública da população LGBT é negativa, no geral. Cerca de um terço dos entrevistados na pesquisa de 2009 afirmou que a homossexualidade é uma “doença”, enquanto 54% disseram que ela se deve à “falta de cuidado/amor/orientação dos pais”.

Metade dos entrevistados afirmou que a população LGBT pode ser “curada”.

vietnamistas

Duas vietnamitas participam da parada do orgulho LGBT em 2 de agosto de 2015, em Hanoi, Vietnã.

Crianças LGBT fugiriam de casa por causa dos abusos sofridos. A maioria dessas crianças acaba se prostituindo para sobreviver, segundo um estudo de 2012 realizado pelo iSEE em colaboração com a Save the Children.

Naquele ano, Tran Lan Ahn, uma adolescente que se prostituía, disse ao Viet Nam News ter decidido trabalhar com sexo por falta de opções. Ela fugiu de casa aos 13 anos.

Ahn diz que abandonou sua casa porque apanhava e era agredida verbalmente todos os dias. Seus pais condenavam seu “relacionamento lésbico”.

Ela lembra que, depois, quando procurou “trabalhos braçais, os empregadores se recusavam a contratá-la e eram mal-educados, afirmando que eu os roubaria, pois não era uma pessoa normal”.

A discriminação da população LGBT não acontece apenas em casa e no trabalho, mas também nas escolas, segundo um relatório de 2014 sobre os direitos LGBT realizado pelo USAID/UNDP.

“Pesquisas indicam altos níveis de violência física, assédio sexual e abusos verbais” nas escolas, diz o relatório. “O resultado é que a população LGBT não se sente segura. Eles convivem com violência, abandonam a escola e têm pensamentos suicidas.”

A falta de clínicas e hospitais preparados para atender a população LGBT é outra questão importante para a comunidade, pois os médicos também demonstram preconceito.

Em 2011, a Thahn Nien News citou um diretor de uma clínica comunitária de Hanoi dizendo que “sexo entre homens e mulheres é normal, mas sexo entre dois homens ou duas mulheres não é normal”.

“É doente”, disse o diretor, cujo nome não foi revelado.

Para a comunidade transgênero do Vietnã, outro desafio de saúde é o acesso limitado às cirurgias de confirmação de gênero e aos tratamentos hormonais.

Os transgêneros também não podem mudar seu gênero legalmente e têm dificuldade para mudar seus nomes em documentos oficiais.

O homossexualismo, entretanto, não é crime no Vietnã. Pessoas LGBT podem servir as Forças Armadas. O tema do casamento de pessoas do mesmo sexo já é abordado no nível governamental. Nos últimos anos, o país tem visto a realização de paradas do orgulho gay.

No ano passado, os ativistas comemoraram uma vitória importante: o Vietnã aceitou a recomendação do Conselho dos Direitos Humanos da ONU de aprovar leis antidiscriminação para garantir a igualdade de todos os cidadãos, a despeito de sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Mas essa lei é mera teoria.

O Vietnã, país governado pelo Partido Comunista desde a reunificação, em 1975, passa por grandes reformas no judiciário. Huy diz que os ativistas agora se concentram em pressionar pela inclusão de leis relativas à população LGBT e também para que haja mais conscientização das questões enfrentadas pela comunidade.

“A educação sexual nas escolas públicas é uma das áreas mais difíceis em que temos trabalhado”, diz ele. “O futuro está nas mãos da próxima geração. Ela precisa aprender a ser tolerante com a diversidade.”

Os desafios enfrentados pelos ativistas, entretanto, são imensos. A situação dos direitos humanos no Vietnã ainda é “crítica”, por causa da ausência de liberdade individuais para os cidadãos e da corrupção endêmica no governo, afirma o Human Rights Watch.

“O currículo é o mesmo em todas as escolas do Vietnã, sejam públicas ou privadas, e o controle é do governo. Tentar incluir educação sexual ao programa é difícil e tem de ser uma luta nos mais altos níveis [do governo]”, diz Huy.

“Também precisamos de mais conscientização das questões LGBT”, acrescenta ele. “Temos muitas causas quando se trata dos direitos LGBT.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: