LGBT

Os gays de Myanmar não podem viver abertamente. Eis o porquê

02/11/2015 11:15 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Como várias ex-colônias britânicas, o país mantém uma lei da época colonial que considera a homossexualidade crime.

em myanmar os nat kadaws

Em Myanmar, os “nat kadaws” (ou espíritos médiuns), que se comunicam com espíritos conhecidos como “nats”, são mulheres transgênero ou homens que se vestem de mulher. A homossexualidade é crime em Myanmar.

Esta é a sétima parte de uma série de dez reportagens sobre os direitos da população LGBT do Sudeste Asiático, que revela os desafios da comunidade na região e destaca o trabalho corajoso dos ativistas.

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Quando um grupo de mulheres transgênero foi detido na cidade de Mandalay, Myanmar, em 2013, elas teriam sido forçadas a tirar a roupa em público antes de serem levadas para uma delegacia, onde foram espancadas.

“Depois elas foram obrigadas a desfilar nuas, como se estivessem numa passarela, enquanto era fotografadas. Também tiveram de pular como sapos, limpar os sapatos dos policiais e responder a perguntas degradantes sobre suas vidas sexuais”, relata o The Telegraph.

Um porta-voz da polícia disse na época que os policiais estavam prestando um “serviço público” ao impedir que o grupo se reunisse.

Hla Myat Tun, ativista dos direitos humanos do grupo Colors Rainbow, diz ao The Huffington Post que essa “discriminação patrocinada pelo estado” é uma preocupação importante da comunidade LGBT de Myanmar. A homossexualidade é crime no país.

Este ano, Myint Kyu, um político de Mandalay, foi condenado por grupos de direitos humanos por “declarações inflamatórias, desinformadas e discriminatórias sobre a população gay e transgênero”.

Em um debate parlamentar em agosto, Kyu, responsável pela segurança da cidade, teria dito que o governo estava “agindo constantemente para prender os gays” e “educá-los”.

Como a Malásia, Myanmar – outra ex-colônia britânica – ainda mantém a Seção 377 em seu código penal. A lei criminaliza “relações carnais”, o que inclui relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo.

A punição pode ir de 10 anos à prisão perpétua. (A famosa ativista dos direitos humanos Aung San Suu Kyi pediu repetidas vezes a derrubada da Seção 377.

Sob a ditadura de uma junta militar entre 1962 e 2011, Myanmar foi considerado um país “pária” durante muito tempo, até que reformas levaram a um aumento das liberdades políticas e uma aproximação parcial com o resto do mundo.

Tun diz que, apesar da “maior visibilidade” desde o início das reformas, a comunidade LGBT ainda não é tratada com respeito.

“[As pessoas LGBT] não se arriscam a viver abertamente... na sociedade”, diz ela. “Elas são vistas como um grupo de pessoas amorais lutando por liberdade sexual.”

A comunidade LGBT é alvo frequente de abuso e discriminação em Myanmar. Segundo os defensores das liberdades civis, “as pessoas LGBT têm dificuldade para viver abertamente, sem medo de perseguição”, por causa das limitações legais.

A falta de conscientização da população quanto às questões da comunidade LGBT é outro problema importante, diz Tun, assim como a escassez de ativistas.

Em uma entrevista concedida em 2013 ao Myanmar Times, um gay de 28 anos chamado Phyo descreveu a invisibilidade da população LGBT na cultura do país.

“Quando estava crescendo, não sabia que existiam homossexuais”, disse ele.

Sua única exposição à cultura LGBT era “quando via eles sendo maltratados”.

“Me sinto inseguro por causa disso”, disse Phyo.

“Costumava chorar sozinho.”

Uma reportagem de 2014 do The Guardian discutiu como a hostilidade em relação a homossexualidade estava dificultando o combate ao HIV e à Aids em Myanmar – que, segundo a Organização Mundial de Saúde, tem um dos mais altos índices de infecção de toda a Ásia.

Os homens gays se mantêm escondidos por causa do estigma, o que torna o acesso a eles extremamente difícil, disse ao jornal britânico Eamonn Murphy, representante da UNAIDS no país.

O Programa Nacional de Aids disse na época que menos de 30% dos estimados 240 000 homens gays de Myanmar tinham acesso a serviços preventivos do HIV.

As reformas políticas vêm se desacelerando no país desde o ano passado, segundo a Human Rights Watch. Em alguns casos, “liberdades básicas estão retrocedendo”, disse o grupo.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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