LGBT

No Camboja, algumas famílias ainda tentam ‘curar' seus filhos e filhas LGBT

29/10/2015 16:27 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
CREDIT: CAMBODIAN CENTER FOR HUMAN RIGHTS

“Todas as classes tendem a esconder sua sexualidade por medo da associação com doenças mentais ou com o pecado.”

camboja

Ativistas LGBT se reúnem em Phnom Penh para comemorar o Dia Internacional contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia, em maio de 2015.

Esta é a quarta parte de uma série de dez reportagens sobre os direitos da população LGBT do Sudeste Asiático, que revela os desafios da comunidade na região e destaca o trabalho corajoso dos ativistas.

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Quando Meas Sophanuth começou sua transição, no ensino médio, sua mãe – com medo de que a criança envergonhasse a família – tentou impedir o que ela considerava um comportamento “antinatural”.

Ela tirou o celular do filho, impediu que ele saísse de casa e o proibiu de encontrar os amigos. Depois, ela levou Sophanuth para um curandeiro tradicional, conhecido no Camboja como Kru Khmer, na esperança de que o xamã “curasse” seu filho.

Foi uma experiência traumática, disse ao Phnom Penh Post Sophanuth, que se identifica como transgênero. “Depois disso, não senti mais carinho pelos meus pais. Eles me davam medo”, disse ele.

Essas tentativas de “cura” não são incomuns no Camboja, país em que a população LGBT costuma ser considerada doente mental ou possuída por “maus espíritos”.

“Normalmente o Kru Khmer entoa cânticos [para a pessoa LGBT], às vezes eles queimam a cabeça, as costas ou as palmas das mãos”, diz a ativista LGBT Srun Srorn sobre os rituais de “cura”. “Eles acreditam que as queimaduras afastem os maus espíritos. Às vezes eles batem nas pessoas com varas de bambu.”

A homossexualidade não é crime no Camboja, um país predominantemente budista. Mas a comunidade LGBT é muito marginalizada.

“Muitas pessoas LGBT dizem que são rejeitadas pela família ou sujeitas a casamentos forçados, tentativas de ‘cura’ e abusos físicos e mentais”, diz um estudo de 2014 da USAID/UNDP.

“Embora o budismo seja em geral muito tolerante em relação aos LGBTI, o Camboja ainda tem uma cultura tradicional enraizada que cria uma percepção negativa da comunidade LGBTI”, diz ao The Huffington Post Nuon Sidara, do Centro Cambojano para os Direitos Humanos. “

A maioria das pessoas LGBTI acham difícil sair do armário por causa do estigma e da discriminação. Todas as classes – dos pobres às mais altas autoridades do governo – tendem a esconder sua sexualidade por medo de manchar a reputação e de ser associado a doenças mentais ou ao pecado.”

Mas os ativistas cambojanos afirmam que há sinais de que as coisas estejam mudando. Os avanços são muito lentos, mas eles existem.

Em 2011, o governo derrubou a proibição do casamento gay, o que significa que uniões de pessoas do mesmo sexo não são nem legais nem ilegais. Desde então, diz Sidara, casamentos de pessoas do mesmo sexo têm sido realizados em certas regiões do país. “Alguns chefes de cidades decidiram emitir certidões de casamento para pessoas do mesmo sexo nos casos em que uma das pessoas está disposta a se identificar no documento como pertencendo ao sexo oposto”, explica Sidara.

Em centros urbanos como Phnom Penh e Siem Reap, há comunidades LGBT florescentes, diz Sidara, e “muitas pessoas LGBTI levam vidas abertas e felizes”.

Desde 2004, a comunidade LGBT e seus aliados se reúnem no centro de Phnom Penh para celebrar a Semana do Orgulho. O tema do evento deste ano foi “Sou o que sou”.

A Semana do Orgulho começa hoje, com eventos em #Siem Reap e #PhnomPenh!

Apesar de o governo cambojano ser acusado há décadas de corrupção, fraudes eleitorais e violações dos direitos humanos , os ativistas dizem que há disposição de tratar das questões da comunidade LGBT.

O governo, por exemplo, recentemente demonstrou apoio a programas que combatem a discriminação nas escolas. Este ano, o governo está apoiando uma iniciativa liderada pela Unesco e pelo CCHR para treinar milhares de professores do país a respeito das questões LGBT.

Ainda assim, dizem os ativistas, o país tem um longo caminho pela frente “para curar o problema, não as pessoas” .

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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