ENTRETENIMENTO

Neil deGrasse Tyson, de 'Cosmos', fala sobre ateísmo, alienígenas e como aprendeu a 'admirar o universo'

27/10/2015 18:37 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
divulgação

"Tudo que sabemos e amamos sobre o universo e todas as leis da física se aplicam a 4% do universo. Isso é impressionante."

As coisas estão indo bem para Neil deGrasse Tyson. Bem mesmo. Como diretor do Hayden Planetarium e autor de vários livros conhecidos sobre o espaço, Tyson é um dos cientistas mais conhecidos do país.

Sim. Ele também apresenta a série Cosmos, disponível na Netflix, recriação da série original de mesmo nome que era apresentada por Carl Sagan.

Tyson, de 55 anos, se abriu para uma ampla e surpreendentemente franca entrevista. A seguir está uma versão condensada e editada da conversa realizada no escritório do astrofísico em Nova York.

HuffPost: Falando de cosmologia, o que mudou nesses 34 anos desde o original "Cosmos?"

Neil deGrasse Tyson: Praticamente tudo.

Os exoplanetas ainda não tinham sido observados naquela época. Agora vemos centenas deles. Isso quer dizer que estamos mais próximos de descobrir vida extraterrestre?

deGrasse Tyson: Essa é uma das grandes perguntas que todos nós fazemos: estamos sozinhos no universo? Os exoplanetas confirmam a suspeita de que os planetas não são raros. A vida como nós conhecemos existe em um planeta.

Sendo assim, se formos olhar essa forma conhecida de vida, precisaríamos ter uma boa lista de planetas. Existe uma indústria caseira com pessoas que tentam estudar as propriedades dos planetas. É algo bem difícil pois esses planetas estão na órbita, bem próximos a enormes estrelas brilhantes.

A analogia dada – e se você faz os cálculos acaba dando certo – seria como se você tentasse detectar um vagalume ao redor de um dos holofotes de Hollywood apontados na sua direção.

E a nossa concepção do cosmos também pode ter mudado. Você acha que vivemos em um universo--ou um multiverso?

deGrasse Tyson: Nós temos excelentes razões teóricas e filosóficas para pensar que vivemos em um multiverso (teoria que afirma ser possível a existência de mais de um ou até vários universos).

Por que você acredita nisso?

deGrasse Tyson: A física quântica, que é a física do pequeno, funciona de forma bem estranha. Tudo o que o princípio da física quântica prevê sobre o universo –nós seguimos e testamos, e está aí.

A relatividade geral, que foi estabelecida por Einstein, é a teoria da grande gravidade e a estrutura em grande escala do universo. Ela também funciona. Entretanto, as duas juntas não funcionam. Se você pensar no universo desde o início, no Big Bang, então o universo inteiro era bem pequeno.

Agora pense em um casamento forçado – da física quântica e da relatividade geral. Nesse casamento, se você acompanhar todas as previsões que a física quântica lhe dá, ela permite que várias bolhas se formem – uma delas é o nosso universo.

Esses são tipos de flutuações na espuma quântica. A física quântica flutua o tempo todo. Mas agora as flutuações não são só as partículas entrando e saindo da existência, o que acontece o tempo todo. É o universo inteiro que entra e sai da existência.

E filosoficamente?

deGrasse Tyson: Filosoficamente o universo jamais criou nada em unidades. A Terra é especial e o todo o resto é diferente? Não, nós temos sete outros planetas. O sol? Não, o sol é um desses pontos em um céu noturno. A Via Láctea? Não, é uma de 100 bilhões de galáxias. E o universo — talvez seja uma infinidade de outros universos.

E nosso multiverso poderia ser apenas um de muitos?

deGrasse Tyson: Exatamente. É possível que o multiverso não esteja sozinho.

Se as partículas piscam dentro e fora da existência, será que todo o universo poderia piscar fora?

deGrasse Tyson: É estatisticamente tão improvável que você deveria apenas pensar que a possibilidade disso acontecer é nula. Não se preocupe com isso.

Nas suas palestras você deve ouvir várias perguntas estranhas da sua audiência. Você corrige os equívocos das pessoas?

deGrasse Tyson: Essa não é minha meta. Como educador, eu desejo que as pessoas sejam fundamentalmente curiosas e questionem as ideias que eles têm ou que outros têm. Nesse estado de espírito, eles ganharam uma espécie de inoculação contra o pensamento confuso dessas ideias estranhas que flutuam por aí.

Então em vez de corrigir as ideias, eu espero que eles saibam como pensar nelas para começo de conversa. Aí eles podem corrigir as ideias esquisitas por si próprios. Eu não digo a eles que não. Isso é pontifício.

Qual é o papel que você desempenha no que alguns têm chamado de cultura de conflito entre a ciência e os que a negam?

deGrasse Tyson: As pessoas se aproximam para entrar em uma dessas brigas, mas eu não respondo a isso. Você nunca me viu discutir com ninguém. Sobre nada. Nunca.

O tempo que eu invisto como educador, ao meu ver, é melhor aproveitado ensinando as pessoas a pensarem no mundo que existe ao redor delas. Ensiná-las a como formular perguntas, a como julgar uma coisa real de outra e o que as leis da física dizem. Esse é o processo educacional.

Não é um debate de quem argumenta melhor ganha. Eu não faço isso. Eu não estou dizendo que as outras pessoas não devam fazer isso. Eu não estou dizendo que é ruim o que eles estão fazendo.

Qual você acha que deveria ser nossa abordagem ao explorar a lua e Marte e a exploração espacial em geral?

deGrasse Tyson: Eu não crio programas a serem seguidos. Mas se você se importa com a saúde econômica da nação, então você sabe que a inovação em ciência e tecnologia no século 21 será o motor da economia do amanhã.

As nações que abraçarem esse fato liderarão o mundo economicamente.

Como você convence as pessoas sobre a importância da ciência e a tecnologia?

deGrasse Tyson: Você pode até fazer programas que melhorem a educação dos professores de ciência, mas o que faz quando o programa acaba? Ele é abraçado pela sua cultura? Não, não é. É uma solução band-aid. Mas quando a cultura quer algo, você não precisa de programas para fazer acontecer.

Não existiam programas nos anos 60 para fazer com que as pessoas se interessassem na ciência. Existiam programas para administrar o crescente interesse na ciência que foi manifestado quando o Sputnik foi lançado, mas o interesse foi construído de dentro da cultura.

As pessoas pensavam no amanhã de formas que somente a ciência e a tecnologia poderiam resolver. Minha leitura da história humana e do século 20 me diz que não há força maior, e de maior estímulo ambicioso, do que explorar a última fronteira. E agora ela é o espaço.

Eu não vim aqui para falar que você deva gostar do espaço. Estou aqui para falar sobre custo de não gostar do espaço.

Alguns cientistas argumentam que para poder assegurarmos a nossa sobrevivência a longo-prazo os humanos deveriam colonizar outros planetas. O que você diz sobre isso?

deGrasse Tyson:: Seria ótimo se estivéssemos em vários planetas, mas eu acho que isso está fora da realidade. Stephen Hawking disse que nós devemos estar em vários planetas assim um asteroide poderia vir e ainda restariam alguns humanos. É uma ideia legal.

Satisfaz o conceito de colocar os ovos em várias cestas. No entanto, eu afirmo que qualquer que seja o poder que você tem acumulado para transformar Marte e fazer com que se pareça com a Terra e depois enviar um bilhão de pessoas lá... qualquer que seja o esforço requerido é melhor do que descobrir como desviar o asteroide. Requer mais esforço do que resolver o aquecimento global descontrolado.

Se alguém lhe oferecesse uma viagem só de ida a Marte, você aceitaria?

deGrasse Tyson: Eu não vejo sentido em uma viagem só de ida. Em uma era de grandes exploradores, as colônias foram estabelecidas em lugares onde os exploradores já faziam parte do mapa—e eram capazes de dizer: "É, há espaço para respirar, frutas nas árvores e você pode trazer o seu casaco de inverno e há uma pá e alguns martelos e parafusos, se joga. Oh, a propósito, se não der certo, pode voltar."

Isso é diferente de dizer que há uma nave que é feita para somente ir e, a propósito, quando você chegar lá não há nem água nem ar. Então faça disso uma viagem de ida e volta. Você fica o quanto você quiser ficar.

Em um artigo recente para a Parade, você foi citado dizendo que quando era um homem jovem, mesmo apenas sendo um aspirante a astrofísico, você às vezes foi catalogado como assaltante ou ladrão. Foi uma surpresa ver isso, devido a sua reputação como alguém que se mostra reticente em falar sobre racismo?

deGrasse Tyson: Eu nunca falei com eles. Eles foram ao meu livro de memórias escrito em 1999 e retiraram de uma única página do livro. As pessoas sentem uma forte vontade de dizer oh, ele é um cientista negro então vamos dedicar parte da conversa para falar sobre ele ser um cientista negro.

Eu nunca iniciei tais conversas. Jamais. De fato, eu rejeitei convites para falar durante o mês da história negra. Se você só pensa em mim durante o mês de história negra, eu devo ter fracassado como educador e astrofísico.

A propósito, se a minha identidade profissional envolvesse forte questões raciais, então seria pouco justo e real rejeitar tais convites. Mas eu nunca falo sobre isso. Eu nunca fui voluntário para falar sobre Deus ou sobre religião, mas as pessoas se sentem compelidas a falar sobre isso.

Você quer falar sobre religião agora?

deGrasse Tyson: Sou todo seu.

Você acredita em Deus?

deGrasse Tyson: Assumo que você já tenha escolhido especificamente qual é o Deus que você está se referindo?

Defina Deus como quiser.

deGrasse Tyson: É você que está fazendo a pergunta. Então escolha um Deus e me pergunte se eu acredito naquele Deus.

O Deus judaíco-cristão.

deGrasse Tyson: OK, se esse Deus é descrito como o todo-poderoso e todo-sabedoria e todo-bondade, eu não vejo evidências disso no mundo.

Então eu permaneço sem me convencer. Se esse deus é todo-poderoso e todo-bondade, eu não vejo isso quando um tsunami mata umas 250 mil pessoas ou um terremoto mata mais umas 250 mil pessoas de pessoas. Eu gosto de pensar que algo “bom” funciona no interesse de sua saúde ou longevidade.

Essa é uma definição bem simples de algo bom para você. Essa não é um entendimento controverso da palavra "bondade". Então se a Terra em dois eventos separados em apenas um par de anos pode matar meio milhão de pessoas e se esse Deus que você descreve existe, esse Deus não é todo-poderoso ou todo-bondade.

E por isso não estou convencido.

Será que a ciência e a religião podem se reconciliar?

deGrasse Tyson: Conforme a religião é praticada agora e a ciência é praticada agora, não há intersecção entre as duas. Isso é certo. E não é por falta de querer. Através dos séculos, muitas pessoas — teólogos e cientistas — tentaram explorar os pontos de intersecção. E toda vez que alguém declarava que a harmonia tinha crescido, era a consequência da religião se conformando com a descoberta científica. Em cada um dos casos.

A religião está morrendo?

deGrasse Tyson: Depende do que você quer dizer com isso. A maior parte da Europa é ateia. Até na Itália, a sede do Vaticano, a maioria das pessoas nunca vão à igreja.

A Holanda é essencialmente 100% ateia. As igrejas são relíquias. Então a tendência no mundo ocidental é que a influência da religião diminua. Isso é um fato. Não me importa se ela cresça ou decaia. Realmente não me importa.

E ainda assim, para algumas pessoas a religião oferece uma fonte de encanto e reverência.

deGrasse Tyson: Eu diria que não é a única forma. Não é a melhor forma. Você pode ter uma admiração pelo universo e isso tem a vantagem de ser verificado objetivamente.

É esta admiração que continuará mesmo após novas descobertas forem feitas. Você não ficará admirado com a mesma coisa que os seus ancestrais. Você já está em outra.

Quais são as coisas que você acha mais incríveis?

deGrasse Tyson: Há duas. Uma é relacionada à formação dos elementos pesados nas estrelas que vão parar dentro do corpo humano e em toda a vida na Terra.

Em termos de fatos surpreendentes pelo qual não sabemos absolutamente nada, existe a matéria escura e energia escura. Nós não sabemos o que cada uma delas é. Tudo o que sabemos e amamos sobre o universo e todas as leis da física como elas se aplicam, aplicam-se a quatro por cento do universo.

Isso é deslumbrante. É um fato que é uma verdadeira lição de humildade.

Mas você tem fé que algum dia nós saberemos o que são a matéria escura e a energia escura.

deGrasse Tyson: Se você quer usar a fé dessa forma, claro que sim. Mas quando a fé é usada na sociedade moderna, ela tem uma forte associação com a religião. A história da ciência nos mostra que os grandes mistérios são resolvidos. Pode ser que exista uma resposta que os humanos são burros demais para entender. Essa possibilidade me intriga.

Seremos capazes de criar cérebros mais inteligentes do que temos?

deGrasse Tyson: Essa é uma pergunta interessante. Possivelmente. Se soubermos o que nos deixa mais inteligentes, vamos ajustar o DNA. Ajustar o genoma de alguma forma.

E a ideia de subir o seu cérebro em algum tipo de computador como uma forma de conseguir a imortalidade?

deGrasse Tyson: Eu não vejo isso como algo importante, nem mais do que no dia que a máquina substituiu os bois, ou o dia que a máquina nos venceu em xadrez etc. Está bem e é intrigante, mas afirmar que toda a vida será diferente ou que isso é imortalidade... não me diga que isso é imortalidade.

O que é algo que as pessoas se surpreenderiam ao saber sobre você?

deGrasse Tyson: Se eu tivesse outra vida, eu seria um libretista para os musicais da Broadway. Adoro musicais.

Você tem um favorito?

deGrasse Tyson: My Fair Lady, West Side Story, Jesus Christ Superstar, All That Jazz.

Então você vai muito para a Broadway?

deGrasse Tyson: Vou, sim. Para ver as obras eu vou com minha esposa e com os musicais da Broadway com a família toda. Acabamos de ver The Glass Menagerie.

O que mais você faz no seu tempo livre?

deGrasse Tyson: Nós dois cozinhamos e gostamos de vinho e comer bem. A maior frustração é que quanto melhor somos na cozinha, temos menos restaurantes para ir.

Você sabe fazer uma lasanha matadora?

deGrasse Tyson: Minha esposa faz. Meu Deus.

E qual é seu melhor prato?

deGrasse Tyson: Eu faço um filé de cordeiro em crosta de pistache e menta. Com esse você escolhe o seu melhor vinho. Eu não posso mais pedir um filé de cordeiro em um restaurante. Não é tão bom quanto.

Parece que você tem uma sensação de encanto e admiração pelo seu filé de cordeiro.

deGrasse Tyson (Risos) Não, eu tenho um sentido de encanto e admiração ainda pela comida feita por master chefs que eu tenho certeza que eu nunca conseguirei fazer.

O que é uma coisa interessante que os telespectadores aprenderão do Cosmos?

deGrasse Tyson: Vamos contar histórias de cientistas em culturas diferentes e de épocas diferentes cujas vidas foram desafiadas pela cultura, ou cujos governos as controlaram, ou ainda, costumes sociais que interferiram com a busca pela verdade.

Alguns deram suas vidas para descobrir a verdade e nesse mundo você aprende que existem mártires científicos. Elas são pessoas que se importavam mais com a verdade do que com sua própria relação com sua pátria.

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: