LGBT

‘Fomos tratados como animais': a história dos ativistas LGBT da Indonésia

27/10/2015 10:41 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ADEK BERRY / GETTY IMAGES

Um político local disse este ano que o homossexualismo é ‘uma doença social que deveria ser erradicada’.

shinta ratri líder da alfatah

Shinta Ratri, líder da Al-Fatah, um internato e espaço seguro para transgêneros, reza durante o Ramadã, em 8 de julho de 2015, em Yogyakarta, Indonésia.

Esta é a primeira parte de uma série de dez reportagens sobre os direitos da população LGBT do Sudeste Asiático, que revela os desafios da comunidade na região e destaca o trabalho corajoso dos ativistas.

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Hartoyo se lembra claramente daquela noite fatídica de 2007. Ele estava em casa com seu namorado, na província de Aceh, quando um grupo de pessoas arrombou a porta e começou a pilhar o lugar. Os estranhos “me arrastaram para fora, me espancaram e abusaram verbalmente de mim”, lembrou Hartoyo numa entrevista concedida em 2013 para a revista 429Magazine. Depois do ataque, ele chamou a polícia.

“Fico nervoso quando lembro do que aconteceu”, disse Hartoyo à BBC. “A polícia urinou na minha cabeça e nos espancou.”

Hartoyo é ativista dos direitos gays e hoje mora em Jacarta, a capital da Indonésia. Ele diz que foi torturado durante três horas quando esteve preso. Teve de tirar a roupa e foi forçado a realizar atos sexuais. Depois, ele e o namorado foram obrigados a assinar um “contrato” jurando que não transariam mais.

“Fomos tratados como animais”, disse Hartoyo ao Jakarta Post, em 2009.

Aceh, localizada no extremo norte da ilha de Sumatra, é conhecida por aplicar a Sharia, a lei islâmica. A província tem 4,7 milhões de habitantes e é a única da Indonésia em que o homossexualismo é ilegal. A comunidade LGBT da região foi forçada a “se esconder”, segundo a agência Reuters.

mapa

Este ano, o vice-prefeito de Banda Aceh, a capital da província, disse que o homossexualismo “é uma doença social que deveria ser erradicada”.

Mas Aceh não é o único lugar perigoso do país para a comunidade LGBT.

Apesar de o homossexualismo não ser tecnicamente crime segundo as leis do país, em vários estados, como Sumatra do Sul, as leis antiprostituição (que consideram as relações homossexuais “prostituição”) são usadas para limitar os direitos da população LGBT.

Segundo ativistas, a comunidade é marginalizada mesmo em cidades grandes, como Jacarta.

“A população LGBT sofre discriminação basicamente em todos os aspectos da vida”, diz ao The Huffington Post Dédé Oetomo, fundador da Gaya Nusantara, primeira organização de defesa dos direitos LGTB do país.

A discriminação acontece até mesmo no trabalho e nas escolas.

A Indonésia tem a maior população muçulmana do mundo e é um país conservador e “muito heteronormativo”, diz Oetomo. “O maior desafio ainda é a família imediata.”

Um relatório de 2013 do Pew Research Center sobre atitudes globais relativas a gays e lésbicas indicou que 93% dos indonésios não acreditam que o homossexualismo deva ser “aceito pela sociedade”, o que faz do país um dos menos tolerantes do estudo.

Um ano depois, um relatório da USAID/UNDP sobre direitos LGBT na Indonésia indicou que os indivíduos LGBT “muitas vezes são impedidos de levar vidas gratificantes e veem negadas as oportunidades que os outros tomam por certas”.

“Isso afeta os indivíduos e o país, pois impede milhares de pessoas de contribuir plenamente para o desenvolvimento do país e de desfrutar dos benefícios do desenvolvimento”, diz a diretora do UNDP no país, Beate Trankmann.

A Indonésia tem um dos piores históricos do mundo quando se trata de violência contra transgêneros, diz o ativista Mario Pratama.

No ano passado, um grupo de homens não-identificados atacaram os participantes de uma manifestação pró-transgêneros na cidade de Yogyakarta.

“Eles arrastaram, chutaram e empurraram os manifestantes”, disse Pratama ao Jakarta Post na época.

Ataques desse tipo não são incomuns. Pratama disse que 85% da comunidade transgênero do país foi vítima de violência entre 2011 e 2012.

Islamistas linha-dura também intimidam indivíduos LGBT. Um dos grupos antigays mais ferrenhos é a Frente de Defesa Islâmica, conhecida como FPI na Indonésia. Em 2010, um integrante do grupo disse à BBC que “os gays são doentes mentais”.

“Deus não fez [essas pessoas] assim”, acrescentou ele. “Elas escolheram estar com pessoas do mesmo sexo, e isso é crime em nossa religião. Se o governo não quiser fazer nada a respeito delas, nós temos de fazer.”

ativistas

Ativistas expressão preocupação sobre o crescente conservadorismo religioso no país, o que poderia ter impacto nos direitos LGBT.

Apesar dos inúmeros desafios, o ativismo LGBT vem crescendo na Indonésia. Cerca de 120 organizações estão em operação, trabalhando principalmente em questões de “saúde e comunicação, além de atividades sociais e educacionais”, segundo o relatório da USAID/UNDP.

Ainda assim, apesar de uma comunidade ativista relativamente vibrante, os ativistas dizem que as mudanças de verdade demoram a acontecer.

“Quando falamos de direitos, não houve progressos”, diz Oetomo.

Este ano, depois da decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de legalizar os casamentos do mesmo sexo no país, perguntaram a Hartoyo se ele achava que a Indonésia estava perto de atingir a igualdade de direitos no casamento.

O país está a quilômetros de distância desse objetivo, respondeu ele.

“Uma questão mais imediata enfrentada por nosso país é a violência baseada em preferência sexual e identidade de gênero Essas serão nossas lutas nos próximos dez anos”, disse ele em junho ao Jakarta Post.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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