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FHC: não vejo Dilma envolvida em corrupção, Lula tenho que esperar pra ver

27/10/2015 09:36 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Estadão Conteúdo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reafirmou na noite desta segunda-feira (26) considerar a presidente Dilma Rousseff uma pessoa "honrada", mas não fez a mesma observação em relação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Não vejo a Dilma pessoalmente envolvida (em corrupção). Quanto ao Lula tenho que esperar pra ver, tem muita coisa pra ser passada a limpo", disse no programa Roda Viva, da TV Cultura.

"Acho até que ela tentou se livrar de muitas dessas coisas e não conseguiu", disse FHC sobre a dificuldade, a seu ver, de Dilma em enfrentar estruturas de corrupção já instaladas na máquina estatal.

"Ela é pessoalmente honrada, mas politicamente ela também é responsável", ressalvou ao avaliar que não é possível um presidente não saber que há algo de errado quando existe um esquema de corrupção do tamanho que existia na Petrobras.

FHC disse brevemente que considera aceitável um ex-presidente dar palestras pagas por empresas, mas que vê com receio a atitude de "abrir portas", em especial quando essa ponte é feita para alguma empreiteira específica.

Oposição

FHC avalia que o seu partido, o PSDB, tem sido "bastante prudente" na oposição ao governo Dilma e refuta que a legenda tente "qualquer alternativa" para tirar a petista do poder. "Se houver impeachment no Congresso, se houver razões, vai votar", disse, sobre o comportamento que o PSDB adotaria em eventual processo de afastamento contra a presidente da República.

Sobre a ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para cassar a chapa de Dilma e do vice Michel Temer (PMDB), FHC rechaçou a classificação petista de que seria uma tentativa de golpe. "O PSDB se sentiu lesado e foi à Justiça por abuso de poder econômico na campanha. A lei é a lei, não é que o PSDB queira isso."

Para o tucano, o Brasil hoje não corre qualquer risco de golpe pois as ações da oposição e do governo seguem a Constituição como "roteiro".

O ex-presidente repete sua tese de que já "passou da hora" de haver um "congresso de cardeais" que reúna os nomes mais fortes de diferentes setores e partidos para tirar o País da crise política e econômica em que se encontra.

Renúncia com grandeza

Fernando Henrique voltou a sugerir também que Dilma poderia recorrer a uma "renúncia com grandeza", em que colocasse na mesa a renúncia com um prazo de um ano, por exemplo, na condição de, em troca, ter do Congresso o compromisso de aprovar reformas essenciais ao País.

Para o ex-presidente, falta rumo ao governo Dilma e capacidade de diálogo. "Eu governei porque tinha um objetivo, um programa, apoiado pelo PSDB e também pelos partidos coligados. Acima de tudo, governei porque falei o tempo todo à Nação", afirmou.

FHC repetiu ainda que o governo petista não está mais num presidencialismo de coalizão para ficar refém de um presidencialismo de "cooptação". "Hoje a política dança o ritmo da crise econômica e da Lava Jato, não estão conduzindo, estão sendo conduzidos", afirmou.

O tucano disse que atualmente não tem uma posição institucional, um cargo, para tomar uma iniciativa mais clara pelo País, mas defendeu o papel desempenhado pelo PSDB.

Escândalo na Petrobras

FHC pediu uma pausa nas perguntas para fazer uma ressalva sobre um trecho do seu livro Diários da Presidência - Volume I, que foi divulgado na imprensa.

No trecho, o tucano confidencia que pensou em intervir na Petrobras depois de ser alertado, em outubro de 1996, pelo empresário Benjamin Steinbruch, ex-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), de que a estatal petroleira era "um escândalo".

O ex-presidente destacou que se referia, à época, que a forma de administrar a empresa era um escândalo e que não falava de qualquer indício de corrupção - no livro ele destaca que era descabido o fato de os diretores comporem o conselho de administração. "Essa corrupção que está aí começou bem datadamente no governo Lula."

Ele afirmou ainda que Lula permitiu "que se chegasse a esse desvario em que nós estamos", em referência às investigações atuais de corrupção. Segundo o tucano, os petistas foram "engolfados" pelos setores mais atrasados da sociedade ao chegar ao poder.

Presidência hoje

O ex-presidente disse que falou a amigos que, se qualquer um estivesse na Presidência, hoje, estaria enrolado. "Como se forma maioria?", questionou.

Hoje o Brasil vive o apogeu desse sistema político que não está funcionando", disse.

Para FHC, o sistema político fracassou e, recentemente, o Congresso perdeu uma oportunidade de fazer uma reforma que reduzisse a tendência de fragmentação do Congresso, que dificulta a formação de uma base de sustentação do governo. "O sistema está viciado e isso é mais grave do que o problema da economia", afirmou.

Segundo o tucano, os partidos hoje não são verdadeiramente partidos porque não organizam as opiniões, o que impede a formação de uma coalizão em torno de ideias. FHC apontou que nem os líderes das legendas têm controle das bancadas, o que dificulta os acordos, mas defendeu o diálogo com todas as forças e com a sociedade.

Ele lembrou a crise energética de 2001 para exemplificar sua atitude em um momento difícil. "O que eu fiz no apagão? Chamei todos os partidos, a sociedade civil", disse. "Perdi popularidade, sem dúvida, mas não se está no governo para ter popularidade".

Cunha

Questionado sobre como uma pessoa como Eduardo Cunha, que já havia apresentado problemas ainda na época Fernando Collor, chegou à presidência da Câmara, FHC disse não ser responsável pela trajetória do deputado.

O tucano voltou a afirmar que tinha uma vaga ideia de quem Cunha quando a bancada do Rio de Janeiro lhe pediu a nomeação dele para um cargo na Petrobras. "Sabia que ele já tinha dado problema, tinha sido afastado do cargo", afirmou, para justificar a negativa ao pedido.

FHC disse que conheceu Cunha muito recentemente. "Alguma qualidade ele tem que ter, mas isso não o inocenta de responder pelo que fez", afirmou.

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