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23/10/2015 18:12 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Um terço dos funcionários desta empresa tem antecedentes criminais

Dave's Killer Bread

Quando um infrator é libertado da prisão, muitos fatores contribuem para o risco de ele voltar para lá. E talvez o fator mais importante de todos seja sua capacidade de encontrar um emprego. Mas pesquisas revelam que a maioria dos empregadores reluta em contratar ex-prisioneiros.

O desemprego eleva muito as chances de ex-infratores reincidirem no crime. De acordo com cifras do departamento administrativo dos tribunais dos Estados Unidos, metade dos detentos de prisões federais libertados num período de quatro anos que não tinham encontrado emprego durante sua liberdade supervisionada acabaram cometendo novo crime ou voltando para a prisão.

Entre os que encontraram trabalho, 93% não voltaram ao crime.

A empresa Dave’s Killer Bread, que produz pão integral orgânico, faz campanha para que mais empregadores deem uma chance a ex-detentos. Fundada em 2005, a empresa começou quando seu co-fundador, Dave Dahl, se uniu ao seu irmão Glenn para trabalhar na padaria aberta pelos pais deles décadas antes.

Dave foi trabalhar na padaria depois de cumprir 15 anos de prisão. Mas, apesar de seus problemas anteriores com a lei – que voltaram à tona em 2013, quando ele foi detido por comportamento errático e por bater em carros policiais durante uma perseguição de carros --, seu irmão lhe deu uma segunda chance.

A decisão inspirou a empresa a adotar o hábito de oferecer uma chance a ex-infratores como parte habitual de suas práticas de contratação.

A empresa diz que um em cada três de seus funcionários tem antecedentes criminais – geralmente condenações por delitos graves.

Através de sua fundação, aberta este ano, a Dave’s Killer Bread quer ajudar outras firmas interessadas em oferecer oportunidades de emprego a ex-infratores a tomar medidas concretas nesse sentido.

Na próxima semana a fundação vai promover a segunda edição anual da Cúpula da Segunda Chance, em Portland, evento em que empresas, representantes do governo, líderes de entidades sem fins lucrativos e especialistas se reúnem para discutir as melhores práticas na contratação de membros da população de ex-presos.

“Achamos que os empregadores estão deixando de aproveitar um potencial humano fantástico”, disse ao Huffington Post a diretora executiva da Dave’s Killer Bread Foundation, Genevieve Martin.

“Vendo os ex-detentos se saírem bem e conseguirem dar uma virada em suas vidas, em vez de passar o resto de suas vidas apontados como criminosos, enxergamos uma oportunidade e o dever de começar a discutir esse assunto.”

sede da dave killer bread

Crédito: Dave's Killer Bread Dentro da sede da Dave's Killer Bread, na região de Portland.

As reações à cúpula estão sendo animadoras, disse Martin, embora alguns empregadores ainda tenham receios diante da ideia de incluir mais ex-detentos em suas folhas de pagamento.

“Muitas firmas estão interessadas, mas têm esse receio”, ela prosseguiu. “Elas têm medo de dizer que estão interessadas. Uma de suas preocupações é ‘qual será a reação de meus fregueses ou clientes?’. Mas uma das coisas que nós oferecemos é nosso exemplo. O fato de contratarmos ex-presos não nos atrapalhou. Acho que na realidade tornou nossa marca muito mais forte.”

De fato, a Dave’s Killer Bread vem tendo resultados muito positivos. Os irmãos Dahl venderam sua parte na empresa no mês passado, quando ela foi comprada por US$275 milhões pela Flowers Foods, da Geórgia, empresa gigante do setor de pães.

Este ano a Dave’s passou a ter alcance nacional e tornou-se a maior marca americana de pão orgânico, com vendas previstas para se aproximar de US$170 milhões este ano, segundo o Portland Business Journal.

Assim, o objetivo da cúpula é ajudar outras firmas a ter êxito com a prática de contratar ex-detentos, aprofundando-se em alguns dos detalhes de como fazer isso funcionar, desde a adoção de uma abordagem mais inclusiva ao processo de recrutamento e entrevistas até a mitigação de riscos.

Outros elementos das práticas de contratação peculiares da Dave’s, como seu programa de mentoreamento que cobre resolução de conflitos e gestão de dinheiro, também serão discutidos na cúpula.

Outra coisa que vai acontecer na cúpula será uma sessão que Martin descreveu como um dos elementos mais fortes da edição inaugural da cúpula, no ano passado – um painel de depoimentos de ex-detentos que estão tendo sucesso trabalhando na Dave’s Killer Bread e em outras empresas.

No site de sua fundação, a empresa destaca 13 depoimentos de funcionários, como a história de Lawrence, que teve 22 condenações criminais e cumpriu um total de 16 anos de prisão, começando por sua primeira condenação, aos 19 anos de idade.

Hoje ele é o supervisor assistente de embalagem da empresa e é proprietário de sua casa própria, onde vive com sua esposa e três pets.

A empresa também lançou uma petição no Change.org para tentar angariar apoio público à proposta de que os empregadores contratem mais candidatos com antecedentes criminais. A petição já recebeu mais de mil assinaturas.

E ela está desenvolvendo um “manual” que poderá ser acessado online, para ajudar empresas a trabalhar com ex-presos. O manual deve ser lançado em 2016.

“Este é um problema nacional, e nós, como empregadores, temos a oportunidade de contribuir para a solução”, disse Genevieve Martin.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.