COMPORTAMENTO

Como as drogas psicodélicas passaram a andar próximas ao budismo nos EUA

23/10/2015 22:09 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
AMANDA SÁBIO

Na cultura americana, as histórias do budismo e das drogas psicodélicas vêm seguindo trajetória curiosamente semelhante desde a década de 1950 até hoje.

Mas isso talvez não surpreenda, considerando que eles têm uma meta em comum: a libertação da mente.

Muitos dos pensadores que na década de 1960 se voltaram ao budismo e outras filosofias orientais – entre eles Alan Watts, Jack Kerouac, Aldous Huxley, Allen Ginsberg e Ram Dass – foram influenciados de alguma maneira por suas experiências com LSD e outras drogas psicodélicas.

O professor americano de budismo Jack Kornfield disse que o LSD “prepara a mente para o budismo”. Alan Watts descreveu o budismo e as substâncias psicodélicas como elementos que fazem parte de uma busca filosófica ampla.

Hoje, mais de 60 anos mais tarde, testemunhamos o ressurgimento do interesse popular pelo budismo, com a meditação de mindfulness (que pede o uso maior da atenção e do foco) tendo deitado raízes no mainstream cultural, e também pelas substâncias psicodélicas, que estão sendo pesquisadas como agentes terapêuticos a ser utilizados no tratamento de problemas de saúde mental, incluindo a depressão, ansiedade e as dependências.

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A intersecção dessas práticas impõe várias perguntas: as drogas psicodélicas seriam um empecilho à pratica do darma ou um acompanhamento útil? As substâncias psicoativas são um meio legítimo de alcançar a transformação pessoal?

“Nas comunidades espirituais, precisamos que esse tópico sensível e por vezes tabu seja explorado de modo honesto e franco”, escreveu Kornfield no ano passado em um post num blog.

“Devemos encarar o uso dessas drogas de modo consciente”

Vários pensadores respeitados das duas disciplinas trataram dessas questões e outras na coletânea de ensaios Zig Zag Zen: Buddhism and Psychedelics(relançada em maio).

Tive um encontro com Allan Badiner, autor, ativista e editor de Zig Zag Zen, para aprender mais sobre o ponto de intersecção entre o budismo e as drogas psicodélicas e para descobrir por que as duas filosofias são mais relevantes que nunca nos tempos atuais. Veja o que ele teve a dizer.

Em uma palestra no Rubin Museum este ano você disse que o próprio budismo é psicodélico em seus efeitos. O que quis dizer com isso?

O budismo possui um aspecto que compartilha com as substâncias psicodélicas: atribui grande importância à primazia da mente e em ser/estar no momento presente.

“Psicodélico” se define como algo que transforma a mente ou leva a mente a se manifestar. Isso é algo que o budismo e as substâncias psicodélicas têm em comum.

De que modo o budismo é psicodélico? Essa ideia pode realmente parecer um contrassenso, já que, desde a perspectiva budista, as coisas muitas vezes são o oposto do que aparentam ser.

Alguma coisa pode parecer muito diferente na realidade aparente que na realidade definitiva. Essa dicotomia é reconhecida no budismo, até certo ponto. Pensamos nossas vidas em termos de verdade relativa e verdade última. Não é fácil apreender as ideias budistas e compreender como a mente cria coisas, não apenas reage a elas.

O respeito professor de budismo Jack Kornfield, que fala abertamente sobre suas experiências psicodélicas, disse que o LSD preparou sua mente para a apreensão das coisas do budismo cuja compreensão é mais difícil.

Para muitas pessoas as substâncias psicodélicas são uma espécie de “droga de portal” que as conduz ao budismo. Como as pessoas descrevem essas experiências iniciais que as conduzem à prática do darma?

O que muitas pessoas dirão é que fizeram uma viagem psicodélica e chegaram a um lugar que era extremamente belo, especial e tinha um caráter não dual; que o mundo inteiro fez sentido para elas e era integrado; que elas estavam integradas ao mundo, que tudo estava vivo. As pessoas descrevem esses sentimentos quase oceânicos de alegria e conexão.

Elas não querem ter uma prática que envolva uma dependência química, então procuram maneiras de reencontrar essa sensação de maneira mais sustentável.

Ocorre uma espécie de migração para o budismo, um esforço das pessoas para alcançar as experiências maravilhosas que algumas vivem em sua jornada psicodélica.

Nem todos acham que isso seja boa ideia. Quais são alguns dos argumentos apresentados contra o uso de drogas psicodélicas numa prática do darma?

Os argumentos são de inúmeros tipos. Há quem insista que as drogas psicodélicas não têm lugar algum na prática do darma. Algumas pessoas insistem que elas são um portal legítimo para chegar ao budismo, enquanto outras consideram que o budismo e as drogas psicodélicas formam uma ótima dupla de práticas. As pessoas assumem posições em diversos pontos desse espectro.

Acho que muitas pessoas hoje se encontram na seguinte situação: já tiveram alguma experiência com substâncias psicodélicas e com uma vertente mística de uma religião ou prática espiritual – pode até ser ioga – e usaram substâncias psicodélicas ocasionalmente desde então.

Assim, sua relação com as drogas psicodélicas continua enquanto elas exploram um caminho cotidiano mais sustentável de integração com muitas das coisas que surgiram em suas viagens psicodélicas. Acho que existe um caminho do meio aqui.

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Por que, a seu ver, 2015 é um momento tão importante para o budismo e as drogas psicodélicas?

Acho que estamos diante de um novo desafio: voltar a pensar em como podemos usar ou não as drogas psicodélicas, porque enfrentamos desafios inusitados como espécie. Ecologicamente falando, estamos numa situação terrível.

Uma das razões mais prementes pelas quais precisamos despertar é para podermos sobreviver. A não ser que despertemos, no sentido individual e cultural, não poderemos efetuar o tipo de mudanças necessárias para nossa sobrevivência.

Acho que a maioria das pessoas concorda que o problema real é um problema de consciência. Precisamos mudar a consciência. Quando você olha em volta, percebe que não existem muitas estratégias capazes de promover uma transformação rápida da consciência, mas as substâncias psicodélicas são uma delas.

Por isso precisamos ter essa discussão. As substâncias psicodélicas fazem parte de nosso kit de ferramentas e precisamos encontrar a melhor maneira de utilizar essas ferramentas de uma maneira que seja segura e respeitosa.

”Não existem muitas estratégias capazes de promover uma transformação rápida da consciência, mas as substâncias psicodélicas são uma delas.”

Será que existe aqui um risco de fomentar o materialismo espiritual? Ou seja, de nos apegarmos a experiências intensas, que promovem euforia mental, e usá-las para fortalecer o ego, em lugar de domá-lo?

Acho que esse risco existe, sim. O ego é tão profundo, tão capaz de conquistar coisas, distorcer e cooptá-las. Por isso as precauções de praxe em relação à definição de suas intenções são importantes para sua própria realização e para ser um guerreiro que luta pelas transformações.

É útil levar todos esses fatores em conta, não apenas seu próprio prazer.

Existem evidências antropológicas de que o impulso de alterar a consciência é um aspecto inato e universal da experiência humana. Mesmo assim, na nossa sociedade a alteração da consciência é cercada de grande sentimento de vergonha e culpa, mesmo que seja buscada em um contexto espiritual ou terapêutico.

Quando, a seu ver, passamos de enxergar os estados de consciência alterados como sagrados para enxergá-los como vergonhosos?

Em todas as tradições religiosas sempre houve uma iniciação esotérica, tipo secreta, que normalmente envolvia substâncias vegetais psicodélicas ou algo assim. Isso tem sido onipresente em todas as sociedades e em todo o planeta, realmente desde os primórdios da cultura humana.

Mas em determinados períodos da história foi feito um esforço concentrado para erradicar isso, por razões políticas. Por exemplo, a administração Nixon declarou uma guerra muito especial contra as drogas. Acho que Nixon percebia que quando as pessoas fumavam maconha, não gostavam dele [ri].

Isso criou um ambiente de repressão e medo, o que, por sua vez, favorecia os objetivos políticos deles. Mas existem muitos fatores que contribuíram para chegarmos ao extremo repressivo real e a não enxergarmos valor algum nos estados alterados de consciência, mesmo quando empregados com intenções nobres.

Quais são alguns dos rumos mais instigantes que as pesquisas sobre substâncias psicodélicas podem seguir?

Esperemos que haja oportunidades para que as pessoas que precisam desses remédios possam obter o que precisam e para que isso seja controlado por profissionais qualificados, em ambientes seguros.

Não apenas porque a Terra está indo para o inferno ecológico e precisamos transformar a consciência rapidamente, mas também para aliviar o sofrimento e possibilitar às pessoas obter ajuda realmente profunda e poderosa.

Existem alguns estudos interessantes até sobre o budismo e as substâncias psicodélicas, incluindo um estudo da Universidade Johns Hopkins sobre pessoas que meditam há anos.

O estudo ainda está em fase inicial. Há estudos sobre o transtorno de estresse pós-traumático, estudos sobre a ansiedade sobre o fim da vida – há inúmeras áreas realmente interessantes em que se pode pesquisar de que modo as drogas psicodélicas podem ser medicinais e ajudar as pessoas, em oposição a ser danosas.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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