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Eu experimentei acordar 1h30 mais cedo durante três semanas (e hoje estou sentindo falta)

22/10/2015 17:01 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Robert Manella via Getty Images
Woman turning off alarm clock

Não sei bem por que, quando foi lançada a ideia de programar o despertador para mais cedo todas as manhãs, eu imediatamente tive vontade de dizer “sim”.

Tudo começou com esta coluna de opinião. Laura Mabille, empreendedora especializada em marketing de conteúdos, explica em um longo texto por que se levanta às 5h30 todas as manhãs e “por que as pessoas se beneficiariam se fizessem o mesmo”.

Ficamos sabendo com a leitura que, adotando esse modo de vida, seremos mais felizes, teremos mais concentração, mais motivação, mais serenidade, enfim –mais tudo. É claro que isso é inspirador.

Resolvi então seguir o exemplo dela por três semanas. Como Laura Mabille, portanto, resolvi acordar 1h30 mais cedo – às 6h em vez das 7h30. Sim, eu sei, 6h não é TÃO cedo assim. Um monte de gente sai da cama antes do amanhecer todos os dias para ir trabalhar.

O desafio aqui é aproveitar esse tempo a mais ganho para realizar atividades que temos a tendência a sempre deixar para o dia seguinte e que, normalmente, nos fazem bem.

É fácil dizer, mas não necessariamente fácil fazer. Quando o despertador toca, é difícil resistir à tentação enorme de enfiar a cabeça debaixo do travesseiro por mais uma hora e meia. Portanto, é indispensável encontrar a rotina que mais convenha a você. Isso também pode exigir um pouco de tempo.

Por razões práticas (ou seja, para não fazer você cochilar), não vou contar o que aconteceu a cada dia das minhas três semanas. Basta dizer que testei várias configurações de rotinas antes de achar uma que funcionou bem para mim. Uma das que experimentei foi a de Laura Mabille.

Veja a estrutura básica que segui:

• Acordar às 6h (nos fins de semana por volta das 8h)

• Café-da-manhã (mais ou menos, como explicarei mais abaixo)

• Sessão de meditação

• Uma atividade (esporte, trabalho, ler, escrever, etc. – foi sobretudo essa parte que eu adaptei).

Semana 1 – Esportiva (em todos os sentidos do termo)

swimming

Para me enfiar debaixo do chuveiro e não ficar cochilando no trabalho na primeira segunda-feira, comecei por programar meu despertador para as 7h no domingo anterior e fazer um pouco de esporte (natação, para ser precisa).

Na segunda-feira já foi preciso encarar a coisa a sério: acordar às 6h. No primeiro dia tudo funcionou bem. Um bom café-da-manhã, um pouco de trabalho, um pouco de bicicleta.

Mas confesso (na esperança de que meus chefes não fiquem irritados demais comigo) que meu dia de trabalho foi muito pouco produtivo. Simplesmente passei o dia inteiro cansada.

Mas isso não foi nada comparado ao dia seguinte –um dia difícil depois de uma noite interminável de insônia. Depois de dormir apenas duas ou três horas, a experiência já me parecia fadada ao fracasso.

Mas então me dei conta do meu erro: na noite anterior eu tinha tentado me deitar às 22h30, quando ainda não estava sentindo sono algum. Foi um cálculo simples: se eu dormisse àquela hora, teria um pouco mais de sete horas de sono.

Erro fatal e primeira moral da história: não adianta tentar pressionar nosso ciclo de sono.

Mas o resto da semana me deu novas esperanças. O despertar foi ficando menos violento e os dias foram se passando mais suavemente. Na sexta-feira cheguei a ter a impressão de ter encontrado uma rotina que poderia me convir. A seguinte:

• Acordar às 6h

• Café-da-manhã

• 10 minutos de meditação

• 30 minutos de natação

Depois desse ritual eu me sentia em paz, em forma. Pela manhã eu conseguia terminar um artigo muito rapidamente. Tinha a impressão de estar sendo mais produtiva que de hábito.

Mas eu me fiz uma pergunta. Será que realmente faz mal nadar de barriga cheia? Podemos ler na Internet que é melhor “não entrar na água imediatamente depois de comer (aguardar uma hora, se possível), para não se sentir inchada”. Procurando um pouco em um fórum de nadadores percebi que muitos frequentadores da piscina se faziam a mesma pergunta.

Fui buscar informações com um nutricionista especializado em esportes, Anthony Berthou, que me explicou que no caso da natação é melhor priorizar a digestão. “É preciso tomar cuidado porque é um esporte que se pratica na horizontal”, ele me explicou.

Traduzindo: não é boa ideia ficar na horizontal com a barriga cheia. “Para chegar a um meio-termo adequado entre a hipoglicemia e a digestão, você pode comer alguma coisa leve, como uma banana ou frutas secas, e tomar um chá em lugar de um café”, ele me diz, acrescentando que posso até nadar de estômago vazio, o que me permitirá queimar mais calorias.

Desde que eu tome um café-da-manhã de verdade depois: “Um pequeno sanduíche com presunto ou queijo de cabra, além de uma fruta”, ele me aconselha.

Quando praticamos atividade física em jejum, consumimos energia sob a forma de proteínas, razão pela qual é recomendado o consumo do queijo. Portanto, podemos nadar de estômago vazio, mas também praticar corrida, já que a corrida a pé cria ondas de choque que podem perturbar a digestão.

Contrariamente ao que eu imaginava, é inteiramente viável aguardar o fim da sessão de atividade física para comer. Na verdade, nos sentimos bem mais leves e ativos assim que com o estômago cheio.

Semana 2 - Cansativa

insomnia woman

Depois de um fim de semana cheio de atividades, inicio a segunda semana confiante. Mas ela acaba sendo bem mais difícil do que eu previa. Me sinto simplesmente exausta. Uma manhã senti enjoo quando praticava meu esporte. Numa noite em que fui a um concerto, simplesmente desabei.

Nesse momento várias perguntas me vieram à cabeça: será que a “imposição” de tal rotina faz bem para o sono? Não seria uma violência com meu corpo? Não seria isso um desrespeito a meus ciclos de sono? Uma coluna publicada no Le Plus de L’Obs conseguiu realmente semear uma dúvida em minha cabeça em relação ao experimento todo.

Nela, Claire Leconte, professora de psicologia da educação na Universidade de Lille 3 e autora de uma obra sobre os ritmos escolares e os ritmos de vida, comenta o modo de vida de Laura Mabille e das pessoas para as quais a vida pertence a quem se levanta cedo. Ela insiste que o sono é um “estado frágil e complexo” e que, do ponto de vista biológico, pode ser um equívoco procurar manipulá-lo.

Na dúvida quanto à pertinência de meu experimento, procurei a professora para perguntar sua opinião. Assim pude compreender melhor o problema levantado por essa especialista no sono. Ela começa dizendo: “Não procuramos meios para compreender nosso ritmo biológico, nunca aprendemos a conhecer nossas próprias necessidades”.

Levantar-se cedo, por que não? Mas com a condição de que isso seja condizente com nosso ritmo biológico. Assim, explico a ela que acredito ser uma pessoa matinal: que eu me lembre, sempre acordei cedo. Apenas raramente durmo até bem mais tarde.

Minha eficiência é muito maior pela manhã, quer seja para trabalhar ou praticar esporte. Além disso, não preciso de muito sono: bastam seis horas diárias para eu ficar bem. Com sete horas, é perfeito. Nove horas de sono já é praticamente demais.

O veredito: talvez esse seja realmente um ritmo que me convém. Em todo caso, Claire Leconte não vê nenhuma contraindicação. Se você, por outro lado, for alguém que dorme muito e que é mais eficiente depois do anoitecer, esqueça essa ideia.

Você não ficaria mais feliz se acordasse cedo – apenas ficaria mais cansado e colocaria sua saúde em risco. O primeiro ciclo de sono – o sono profundo – pode ser recuperado dormindo até mais tarde pela manhã, mas o sono paradoxal, aquele que pode ser amputado se colocarmos o despertador para tocar cedo demais, nunca é compensado.

Seja qual for seu caso, a chave é ouvir seu próprio corpo – aliás, tanto ao acordar quanto ao se deitar. Existem certos sinais que são certeiros e que devem nos levar a apagar a luz. O mais evidente entre eles é o arrepio. Como explicou Claire Leconte neste artigo, “se sentimos frio é porque é hora de ir dormir, é o momento em que vamos adormecer mais rapidamente. Esse arrepio é o sinal de que a síntese da melatonina começou, e a nossa temperatura corporal cai naturalmente.”

Semana 3 - Estimulante

meditation

Essa semana é de longe a melhor. Finalmente entrei num ritmo. Adormeço sem problemas à noite (para não dizer que durmo como um bebê), sem me preocupar demais com a hora de me deitar (geralmente por volta das 23h), acordo me sentindo em plena forma (é o fim do “cochilo” repetido), chego cedo ao trabalho, termino alguns artigos rapidamente pela manhã, a atividade física me dá energia. Resumindo: eu me sinto bem.

Apenas a sessão de meditação continua a me atrapalhar. Não adianta: por mais que eu esteja informada sobre seus benefícios, eu literalmente adormeço durante os dez a 15 minutos que duram os programas para principiantes do site e aplicativo de meditação Petit Bambou.

Então fui pedir ajuda a Benjamin Blasco, co-fundador dessa plataforma que utilizei durante essas três semanas. “Nos Estados Unidos as pessoas são adeptas do RPM - rise, pee, meditate (levantar, ir ao banheiro e meditar). Mas não precisa necessariamente ser assim.

Eu aconselho as pessoas a meditar durante de preferência durante o dia, e não à noite, porque quando você sai da cama seu espírito ainda está virgem”, ele explica. “Se você quiser manter a meditação como parte de seu ritual matinal, mesmo com sua dificuldade, seria melhor escolher um momento depois do banho e do café-da-manhã, por exemplo.”.

Se, apesar de tudo, a pessoa não conseguir reservar dez minutos para a prática, Blasco diz que também é possível meditar debaixo do chuveiro ou enquanto se toma um café. É o que dizia este artigo do Huffington Post: “Comece assim que você se levanta para buscar seu café. Sinta seus pés encostados ao chão, escute o que se passa à sua volta. Diante da cafeteira, sinta a xícara em suas mãos, preste atenção ao aroma da bebida, sinta o calor que passa da xícara para suas mãos (...).”

É mais fácil dizer que fazer? Como o esporte, a meditação requer rigor e perseverança. Depois de três semanas, começo a entrever os benefícios que sua prática regular pode me trazer. No momento em que escrevo este artigo, ainda não tenho certeza se vou conseguir reservar alguns minutos por dia para me concentrar sobre minhas sensações.

Mesmo assim, estou convencida de que, no longo prazo, meditar vai me permitir administrar o estresse, por exemplo. Uma ideia continuará comigo, seja o que for que me vier à cabeça: a maior parte dos problemas e objetos de angústia não é real, não passa de pensamentos. Basta tomar nota deles e depois expulsá-los.

Conclusão

Um mês depois do início da experiência, é chegada a hora de tirar conclusões.

Pontos negativos:

• A sensação desagradável de ter envelhecido 50 anos de repente quando me vejo com vontade de apagar a luz às 22h.

• O cansaço crônico inicial, se bem que ele tenda a desaparecer à medida que levo meu plano adiante.

• A impressão de ter deixado minha vida social entre parênteses. É verdade que conquistei sete dias por semana uma hora e meia a mais de tempo para mim, mas quantas vezes uma hora e meia a menos para passar tempo com outras pessoas?

Tenho que admitir que durante estas três semanas fiquei muito menos disposta a sair. A perspectiva de ter que acordar cedo na manhã seguinte anulou um pouco minha motivação para ser sociável (as pessoas que não têm escolha devem saber disso melhor que eu).

Pontos positivos:

• A sensação agradável de estar de pé antes das outras pessoas (que é uma ilusão, como podemos constatar assim que pomos os pés para fora de casa às 6h30), de ter uma dianteira em relação a elas.

• A sensação deliciosa de trabalhar quando tudo está calmo, quando ainda está escuro, longe da agitação matinal e do barulho que frequentemente se estende até tarde da noite.

• A impressão de já ter dado conta de seu dia de trabalho, quando ele nem sequer começou.

• A produtividade maior ao longo da manhã inteira.

• Sono melhor? Como o primeiro ciclo de sono é o mais reparador, é possível. Aliás, me sinto mais cansada hoje que quando cheguei ao fim do experimento. Mais uma vez, isso com certeza está acontecendo porque estou tendo que me readaptar a um novo ritmo, o que, como pude constatar, não é algo que se consegue de imediato.

• Prestei mais atenção à minha alimentação (pela manhã, por causa da atividade física; à noite, para conseguir ir para cama sem estar fazendo a digestão).

Quantitativamente falando, o positivo ganhou de longe do negativo. Apesar de tudo, porém, dificilmente me vejo seguindo essa rotina diariamente, a não ser que eu enlouqueça. Há dias em que simplesmente não consigo me privar (de assistir a um concerto, sair com os amigos, ler um livro que não consigo largar, assistir a vários capítulos seguidos de um seriado...) e me forçar (a acordar quando estou sentindo necessidade de dormir ou simplesmente de ser preguiçosa).

Em contrapartida, é uma maneira totalmente apreciável de organizar meus dias, e não quero renunciar a ela. Eu diria mais: ela me faz falta. É um ritual que eu gostaria de retomar duas ou três vezes por semana, quando posso, quando sinto vontade.

Mas isso não seria novamente jogar com o sono? Quando falei dessa ideia com Claire Leconte, ela me disse que é totalmente possível e não é necessariamente nocivo, desde que “você o faça quando puder fazer uma pausa ao meio-dia para descansar em um ambiente escuro”. Aí está a dificuldade.

A ideia da sesta no local de trabalho está ganhando força na França, mas ainda está muito longe de ser uma prática comum, em comparação com outros países.

O que fazer então? Abandonar uma rotina que talvez conviesse melhor a meu ritmo biológico? Tentar intermitentemente correr o risco de desrespeitar minhas necessidades biológicas em termos de sono?

Entre as exigências da felicidade, dos ritmos de vida cada vez mais agitados e de uma atenção cada vez menos voltada ao sono (sendo que sabemos bem como são assustadores os efeitos de não dormir o suficiente), não é fácil saber o que fazer.

Quanto à rotina de Laura Mabille, não demorei a perceber que não me convém nem um pouco. Embora eu não negue as vantagens que possam advir do fato de você colocar suas ideias no papel e traçar listas, não me vejo programando meu despertador para mais cedo para dar conta dessa tarefa.

Por outro lado, são boas dicas para deixar sua cabeça mais livre de coisas que a atravancam. Cabe a cada um descobrir o que melhor lhe convém.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Le Huffington Post e traduzido do francês.

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