NOTÍCIAS

Com crise, multinacionais geram mais oportunidades no exterior, mas sem regalias

21/10/2015 11:30 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Peshkova via Getty Images
businessman in airport and airplane in sky

Uma pesquisa que acompanha a mobilidade de funcionários em multinacionais no Brasil identificou um novo fenômeno: o aumento na transferência de profissionais do Brasil para outros países.

O movimento tem uma razão básica. A crise econômica. A recessão reduz a perspectiva de crescimento profissional no Brasil e frustra a receita das empresas, exigindo corte de custos.

A pesquisa, conseguida em primeira mão pelo jornal O Estado de S. Paulo, foi respondida pela área de Recursos Humanos de 220 multinacionais instaladas no País - tanto empresas estrangeiras com unidades no Brasil quanto empresas brasileiras com operações globais.

Tratam-se de grandes corporações: 53% delas possuem mais de 10 mil funcionários e 76% têm sede fora do Brasil. O levantamento é realizado pela Global Line, empresa de treinamento e consultoria especializada em desenvolvimento de equipes, em parceria com a Worldwide ERC, associação sem fins lucrativos, que atua na gestão global de talentos.

"É o quarto ano que fazemos o levantamento no Brasil e esta é a primeira vez que aparece um movimento de saída do País com esta intensidade", diz Marcelo Ribeiro, sócio da Global Line. "Não há dúvida que é reflexo da crise."

O dado que mais impressiona Ribeiro é o verdadeiro êxodo de brasileiros. Nas multinacionais verde-amarelas, o número de brasileiros que migrou e agora trabalha lá fora aumentou em 65% entre 2014 e 2015. Mas houve um grande volume de saída de estrangeiros também. Empresas estrangeiras instaladas aqui reduziram em 19% o número de trabalhadores de outros países.

Há duas razões básicas acirrando o movimento de saída do Brasil, segundo Natacha La Farciola, analista de recursos humanos de uma grande montadora (o nome não pode ser divulgado a pedido da empresa) e presidente do Gadex, o Grupo de Expatriados, associação que reúne 35 multinacionais para periodicamente discutir os grandes temas ligados à gestão global de talentos.

A primeira razão é que os profissionais mais qualificados não estão vendo futuro no País e buscam uma carreira internacional. "Uma vivência no exterior pode render um aumento de salário de 10% a 30%, além dos benefícios que se recebe, como casa, carro e bônus", diz Natacha.

A outra razão, diz a executiva, é que as empresas instaladas no Brasil estão tentando economizar. Um expatriado não é apenas mais caro - pode custar de duas a quatro vezes mais.

Ele também é pago pelo caixa do País onde trabalha. "Ao transferi-lo, transfere-se também o custo." Neste momento, em que a economia brasileira está em recessão, a transferência permite o corte de custo e a preservação do funcionário.

O País, porém, perde talentos. No total, quase 1,5 mil profissionais qualificados deixaram o Brasil de 2014 para 2015.

Na verdade, a fuga é altamente qualificada, pois a debandada se deu principalmente entre técnicos especializados e integrantes da alta gestão.

Para complicar ainda mais, um número maior de funcionários bem formados mudou de vez. No ano passado, 55% das empresas utilizaram programas de expatriados para transferências definitivas. Neste ano, este número passou para 73%. Entre os setores que mais utilizam este programa estão o automotivo.

'Informalização' do expatriado

O momento da expatriação era motivo de celebração para qualquer executivo de multinacional pelas regalias que uma oportunidade no exterior sempre embutiu: auxílio com a mudança, ajuda para moradia, colégio para os filhos, carro à disposição... A crise econômica agora alimenta o afã dos profissionais alocados no Brasil em tentar a vida lá fora - por isso, os executivos têm mostrado mais disposição para aceitar condições menos favoráveis para concretizar essa mudança

Hoje, em vez de mandar o profissional como funcionário expatriado, algumas empresas estão oferecendo novas oportunidades lá fora, isentando-se de quase todos os custos da mudança.

"A pessoa é desligada aqui e recontratada lá", explica Daniel Cunha, diretor da consultoria Exec. "É uma espécie de 'informalização' desse processo de expatriação."

Isso ocorre porque os profissionais estão muito dispostos a tentar a vida no exterior neste momento de crise no Brasil. "O mercado está demandante", diz Henrique Bessa, diretor executivo da empresa de head hunting Michael Page.

"A procura por oportunidades de expatriação aumentou cerca de 80% em relação ao ano passado. Hoje, as pessoas sabem que a situação do País vai se manter complicada por mais dois ou três anos. É um cenário caótico e que faz o executivo olhar para fora."

É um cenário completamente diferente do visto há relativamente pouco tempo. Em 2011 e 2012, eram os estrangeiros que faziam fila para vir morar no Brasil. "Até dois anos atrás, havia uma briga grande por salário. Para o cargo de CFO (diretor financeiro), o profissional que era destacado para o Brasil ganhava mais do que o chefe global. Havia essa distorção, e muitas vezes era difícil explicar isso para a matriz."

Agora, os salários nacionais não só caíram em relação aos pagos anteriormente, mas também ficaram comparativamente mais baixos do que os de outros mercados, por causa da desvalorização do real.

O dólar próximo a R$ 4 é, aliás, mais um fator que aquece a busca por oportunidades lá fora. "Ganhar em dólar agora é visto como um benefício importante. Se o dólar continuar na trajetória de alta, o executivo pode fazer um bom 'pé de meia' em reais ao ir para o exterior."

Diante do cenário desfavorável no médio prazo e das vantagens econômicas da expatriação, ainda que sem as regalias de antigamente, Bessa prevê uma "debandada" de executivos do País nos próximos três anos.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: