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Em dia de relatório atestar violações dos direitos humanos, Alckmin ganha o 'Prêmio Torneira Seca' por gestão da água em SP

13/10/2015 13:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
LEONARDO BENASSATTO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

O governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) foi ‘agraciado’ na manhã desta terça-feira (13), no vão livre do Masp, com o prêmio ‘Torneira Seca’, concedido pela sua gestão dos recursos hídricos do Estado. Quem passava pela Avenida Paulista pôde acompanhar a ‘premiação’ do governador.

O caráter irônico da manifestação, organizada pela ONG Minha Sampa, fez alusão ao prêmio Lucio Costa de Mobilidade, Saneamento e Habitação, que será concedido a Alckmin na tarde desta terça-feira, na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF). O secretário de Recursos Hídricos, Benedito Braga, receberá a honraria – a qual o governador considerou “modéstia à parte, merecida”.

Alckmin vai ganhar um prêmio hoje dia 13 pela gestão da água? Oi? A Sabesp deixa vazar 1 cantareira inteira por ano...

Posted by Minha Sampa on Terça, 13 de outubro de 2015


A premiação de Alckmin acontece no mesmo dia em que a Aliança pela Água, entidade que reúne mais de 60 ONGs, divulgou um relatório em que são apontadas violações de direitos humanos por conta da gestão da água e da condução da crise hídrica em São Paulo.

“O relatório do TCE (Tribunal de Contas do Estado) afirma que o governo Alckmin ‘deveria ter tomado também medidas efetivas para prevenção e defesa contra eventos hidrológicos extremos’, como estiagens severas, e cobra a ‘estruturação de um plano de contingências específico para eventuais riscos de escassez hídrica”, diz trecho do documento.

População sem água, mananciais poluídos, falta de transparência na gestão e desconto para grandes consumidores estão...

Posted by Greenpeace Brasil on Terça, 13 de outubro de 2015


‘Transição catastrófica’

De acordo com um estudo produzido pelos pesquisadores Paulo Inácio Prado, professor do Instituto de Biociências (IB) da USP, Renato Mendes Coutinho e Roberto Krankel, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o Sistema Cantareira – principal fornecedor de água para a Grande São Paulo – sofreu o que eles chamam de ‘transição catastrófica’ em 2014.

A pesquisa mostrou que o Cantareira viveu tal transição entre novembro de 2013 e janeiro de 2014, quando houve uma queda de eficiência do sistema.

“O empurrão foi manter a retirada de água em níveis de anos normais em um ano de chuvas anormalmente baixas. Não é possível controlar a chuva, mas uma redução mais precoce da retirada de água poderia ter evitado a transição”, afirmou Prado. O foco para recuperar o Cantareira, de acordo com o pesquisador, é justamente reduzir ao máximo as retiradas, aguardando que o sistema possa se recuperar.

Esse é um dos pontos que está sendo discutido entre o governo paulista e a Agência Nacional de Águas (ANA). A renovação da outorga do Cantareira, feita pela última vez em 2004, deve acontecer até o dia 15 de dezembro deste ano. Segundo as discussões em andamento, a tendência é que se adote um sistema de cotas, justamente para reduzir as retiradas em tempos de queda do sistema.

Para especialistas, isso só não basta: é preciso repensar a gestão da água no Estado, focando não só em quantidade, mas também qualidade e eficiência. “Em São Paulo, a crise é uma combinação de eventos climáticos e um modelo de gestão que não comporta a participação e o controle social”, comentou Marussia Whately, da Aliança pela Água, em audiência promovida na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) na semana passada.

Se para receber o prêmio em Brasília o governo enviou representante, o mesmo não aconteceu para discutir a crise hídrica com ONGs e deputados estaduais.

“Se alguns bairros ricos da cidade de São Paulo enfrentassem a falta de água, haveria uma convulsão, inclusive com manifestações na avenida Paulista. O problema é que isso acontece na periferia, onde há uma blindagem enorme. A grande mídia protege o governador e não toca no assunto”, concluiu o deputado estadual Enio Tatto (PT).

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