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'Burka Avenger': a super-heroína paquistanesa que usa livros como arma

13/10/2015 16:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Ela é uma professora comportada durante o dia e uma guardiã feroz da paz durante a noite.

ISLAMABAD – Recentemente, em um dia de trabalho qualquer no edifício labiríntico da capital do Paquistão, homens e mulheres jovens em camisetas, jeans e kurta tops – roupas típicas indianas – fitavam atentamente os computadores do labirinto de escritórios e cubículos.

Ao seu redor despontava um estilo de escritório que não era tipicamente associado à cidade mais desenvolvida país, conhecida pela calma suburbana que continua a ser um ponto controverso na antiga questão se a agitação cheia de vida da populosa cidade de Lahore é ou não é superior.

No estúdio de animação em Islamabad conhecido como Unicorn Black, até as paredes pulsam com criatividade. Quase todas elas contêm uma imagem, algumas impressas em papel de pôster liso, outras desenhadas diretamente em superfícies verticais com lápis, em sua maior parte imagens de uma jovem mulher em um traje preto justo, com uma capa geralmente esvoaçante bem atrás dela. Em cada retrato, um par de olhos determinado espreita pela máscara escura delimitando o seu rosto.

heroína

MALLIKA RAO / THE HUFFINGTON POST Um dos muitos esboços da mais importante super-heroína do Paquistão decora uma parede no estúdio do Unicorn Black em Islamabad.

Ela é Jiya, estrela fictícia do desenho animado local mais popular no Paquistão, Burka Avenger(A Vingadora de Burca). A primeira super-heroína do país é uma professora comportada durante o dia e uma guardiã feroz da paz durante a noite. A sua personificação noturna usa livros como armas, lutando por causas específicas na região – como conscientização sobre a pólio, a alfabetização, os esforços contra a radicalização – tudo isso vestindo uma burca estilizada na forma de seu traje preto.

Nos seus dois anos de existência o conceito provou-se amplamente popular, expandindo-se à Índia e ao Afeganistão. Nesta primavera, a quarta temporada de "A Vingadora de Burca" irá ao ar em cinco línguas em toda a região, coincidindo com o lançamento da primeira linha de produtos inspirada em um programa de TV.

No estúdio, no início deste mês, o gerente de projetos Adeel Abid descreveu o delicado equilíbrio entre os valores – comerciais, cívicos, religiosos – tratados no desenho. Quando foi lançado em 2013, "as pessoas tinham ficado divididas" com essa característica que gera tanta repercussão, lembrou. "Eles estão rindo da burca? Ou apoiando o uso da burca?"

A resposta é mais complexa do que a pergunta. A Vingadora de Burca reflete as preocupações do próprio Paquistão, um país onde crescentes facções extremistas levam a classe média a uma reflexão existencial profunda. Jiya, ao mesmo tempo progressiva e devota, representa o equilíbrio que muitos no Paquistão anseiam a nível nacional.

A anedota favorita no escritório, de um mulá abordado por um jornal francês no início da primeira temporada, comprova sua capacidade de reconciliar aparentes contradições. Quando lhe perguntaram o que achava do programa, ele deu uma resposta que surpreendeu até mesmo o seu legendário criador, de um só nome e polímata, Haroon. Em vez de emitir uma fatwa, o mulá proclamou que até ele aprovava.

Making villain #BabaBandook "extreme angry" at the #BurkaAvenger studio #latergram #storytk

Um vídeo publicado por Mallika Rao 🙏🏾 (@childmalli) em

Um animador do Unicorn Black manipula o vilão da série, Baba Bandook, usando Autodesk Maya, um software novo no Paquistão.


Em um país onde as mulheres representam quase metade da população, mas apenas 25 por cento da força de trabalho, o endosso desafia as expectativas racionais.

Uma garota instruída pode parecer mítica em áreas rurais do país (a proposta do estúdio de acolher escolher um unicórnio como símbolo parece apropriada).

Até 2012, apenas 61 por cento das meninas do Paquistão terminavam o ensino fundamental, de acordo com dados do Banco Mundial. O mesmo censo também descobriu que uma porcentagem quase igual de mulheres entre 15 e 24 anos tinha sido alfabetizada.

Girl power tem grande importância para a consciência cultural. O primeiro episódio de A Vingadora de Burca foi ao ar depois de Malala Yousafzai ficar famosa mundialmente em 2012, após sobreviver a um tiro no rosto no caminho para a escola. Mas o programa já havia sido concebido antes, disse Abid, acrescentando que somente o primeiro episódio levou de cinco a seis meses para ser produzido. "Quando Malala surgiu, as [distribuidoras] disseram para levar ao ar", disse ele. "Mas nós esperamos."


O tempo de produção acelerou quando a equipe cresceu. Para a quarta temporada, cerca de 80 pessoas trabalharam em Islamabad para entregar 26 episódios em menos de um ano. As operações também são mais sofisticadas agora. O Unicorn Black afirma ser o primeiro estúdio no Paquistão a usar Maya, um software de primeira geração que permite aos designers ajustarem as expressões faciais e os movimentos do corpo com o arrastar do mouse, como uma marionete abençoada com centenas de cordas sensíveis.

Apesar de tudo, os ritmos do país definem o passo.

Quando questionado sobre a presença de mais funcionários do sexo masculino do que feminino no estúdio, Abid pareceu perturbado. Ele citou uma poderosa produtora mulher ausente naquele dia, antes de admitir que a relação total é bem distorcida.

Em sua explicação, ele provocou uma virada na velha dicotomia Islamabad-Lahore, cruzada com as realidades do novo Paquistão. "Todo mundo que vai para a escola de arte é de Lahore", disse ele. "E para as mulheres não é seguro viajar a trabalho."

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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